Bispo de Angra desafia escuteiros a construírem “o milagre de paz” no encerramento do XVI Jamboree Açoriano

“Num mundo tantas vezes triste, com os olhos agarrados aos ecrãs, o grande milagre é olhar para este campo. Vós sois o milagre de paz”- D. Armando Esteves Domingues

 

Foi com este desafio que o bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, presidiu à concelebração eucarística que, este sábado à noite, marcou o XVI Jamboree Açoriano, que durante uma semana reuniu cerca de 1.400 exploradores e pioneiros no Campo de Lagos, em Água d’Alto, na Ouvidoria de Vila Franca do Campo. A celebração da eucaristia, seguida do tradicional Fogo de Conselho, marcou o final da atividade regional, subordinada ao lema “Nove Rumos, Um Destino”, que voltou a São Miguel depois de ter passado por outras ilhas.

Na homilia, o prelado lembrou aos jovens que “o escuteiro não tem medo de cair; deve ter medo de não se levantar”, sublinhando que o verdadeiro tesouro do escutismo está na fraternidade e na capacidade de caminhar com Cristo.

“Os vossos rumos são muitos, mas o vosso destino é um só: deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram”, afirmou, numa referência ao tema escolhido para esta edição do jamboree.

A iniciativa mobilizou cerca de 50 por cento do efetivo escutista da Região Açores, num encontro que esgotou antes do prazo previsto para as inscrições, reflexo da elevada procura registada este ano. Ao contingente açoriano juntaram-se escuteiros provenientes do Algarve, Santarém, Lisboa e Madeira, conferindo uma dimensão nacional ao encontro. Cerca de uma centena de caminheiros assegurou toda a logística do campo.

 

Sob a designação “Aventura do Corisco”, os participantes viveram uma semana preenchida com jogos de campo, trilhos, peddy papers em meio urbano, atividades marítimas, limpeza da orla costeira, animação de idosos, ações de serviço na comunidade e caminhadas, num programa que privilegiou o contacto com a natureza, o serviço e a vida em equipa. Em campo estiveram também seis sacerdotes, que asseguraram a celebração diária da eucaristia e momentos de oração com exposição do Santíssimo Sacramento, o que aconteceu pela primeira vez, como salientou o padre Norberto Brum, que é o assistente da Junta de Núcelo de São Miguel.

O campo estava organizado em três grandes lagoas- Furnas, Sete Cidades e Fogo, para os pioneiros, cada uma com três lagoeiros, numa total de cada perímetro com 150 escuteiros. Mais abaixo estavam os exploradores, mais novos, divididos pelas três grandes serras de São Miguel e seguindo a mesma lógica.

Para o chefe regional do Corpo Nacional de Escutas, João Carlos Tavares, o jamboree correspondeu às expectativas.

“Tem sido uma experiência do corisco fantástica, muito rica no fortalecimento dos laços entre os escuteiros açorianos. Vivemos em ilhas e estes são momentos privilegiados para aprofundar amizades, fortalecer relações e trocar experiências”, afirmou.

O dirigente recordou que o escutismo açoriano celebra cem anos de história ao serviço da formação dos jovens, defendendo que encontros desta dimensão “desafiam os participantes a reinventarem-se a partir da natureza”, preparando-os para serem cidadãos mais interventivos e solidários.

Também os chefes nacionais marcaram presença na atividade. Bento Lopes mostrou-se satisfeito com o ambiente vivido em campo.

“Os miúdos estão felizes e isso é o primeiro sinal de que está tudo a correr bem”, afirmou, destacando a importância de proporcionar aos jovens experiências em plena natureza, longe da dependência tecnológica. O dirigente alertou ainda para o desafio que representa captar novos dirigentes, sobretudo em regiões onde muitos jovens prosseguem os estudos fora da sua terra.

Por seu turno, Joana Vasconcelos destacou que o escutismo continua a proporcionar algo difícil de encontrar noutros contextos: “colocar os jovens a dialogar, a trabalhar em equipa e a reinventar novas formas de estar sem as tecnologias”, experiências que, considera, “nenhuma escola ensina”.

 

O chefe do Núcleo de São Miguel, Carlos Santos, considera que um dos grandes ganhos desta edição foi precisamente o convívio proporcionado pela ausência de rede móvel no Campo de Lagos.

“Aqui não há rede de telemóvel e isso faz com que eles socializem mais. Olham-se nos olhos, fazem amigos e vivem experiências que dificilmente esquecerão”, afirmou.

O responsável destacou igualmente o investimento realizado nas infraestruturas do campo, com novos balneários, melhorias no abastecimento de água, construção de um palco e renovação de diversos equipamentos, obras que não eram feitas desde o jamboree realizado naquele espaço, em 2009.

Ao longo de toda a semana, o Campo de Lagos transformou-se numa pequena cidade escutista, onde jovens de todas as ilhas dos Açores, bem como do continente e da Madeira, partilharam experiências, criaram novas amizades e reforçaram os valores da fraternidade, do serviço e da vida em comunidade, dando pleno significado ao lema “Nove Rumos, Um Destino”.

 

No final da semana, eram sobretudo os jovens quem melhor resumia o significado da experiência vivida em Campo.

João Rainha, do Agrupamento 1223 Marítimos de São Pedro, destacou a diversidade das atividades realizadas, desde acampamentos e visitas a diferentes locais até ações de animação de idosos e peddy papers em espaço urbano, considerando que a semana decorreu “muito bem”.

Também Miguel Gomes, do mesmo agrupamento, que integra o agrupamento apenas há quatro anos, falou de “uma experiência única”. O escuteiro reconhece que, apesar das diferentes formas de trabalhar entre agrupamentos, “os ideais são os mesmos” e resume o escutismo como “conhecer gente nova e divertir-me”.

Entre os participantes de Ponta Garça, João Góis, escuteiro há 12 anos, comparou esta edição com o jamboree realizado na Terceira, destacando a dimensão da organização, a variedade dos jogos e o número de participantes.

“A minha mãe inscreveu-me e gostei tanto que fiquei”, contou. Já Adelina Matos, que participa no seu segundo jamboree, considera que as atividades “são dinâmicas e divertidas” e acredita que o escutismo a tornou “uma pessoa melhor”, sobretudo pela capacidade de socializar. Eliana Medeiros, escuteira há apenas um ano, admite que já sente saudades do ambiente vivido em campo e das amizades que ali construiu, acreditando que muitas delas a acompanharão ao longo da vida.

Para Maria Pacheco, da Ribeira Chã, do agrupamento 1323, este primeiro jamboree superou as expectativas, graças ao espírito de equipa vivido durante a semana. Laura Medeiros, de Água d’Alto, reconhece que dormir no chão “custa um bocadinho”, mas garante que isso rapidamente passa perante a oportunidade de conhecer novas pessoas. Nídia Sebastião destaca os momentos de convívio entre cozinhar, rir e partilhar experiências com outros escuteiros.

Também de Água d’Alto, Iara Lima sublinha a diferença entre esta atividade regional e os encontros de núcleo, salientando a diversidade de participantes de várias ilhas. Filipa Moniz, a viver o seu primeiro jamboree como pioneira, descreve o escutismo como “uma segunda família”.

“Às vezes perguntamos se isto faz diferença, mas quando olho para esta equipa percebo que encontro aqui uma casa”, afirmou.

Para o chefe do Agrupamento 796 de Água d’Alto, Idalécio Faial, gerir centenas de jovens durante uma semana é exigente, mas os resultados compensam o esforço. O dirigente destaca que a ausência de telemóveis, inicialmente vista com alguma resistência, acabou por favorecer o convívio e a criação de novas amizades. “Aqui não temos outra alternativa senão olharmo-nos nos olhos, e isso fá-los crescer”, afirmou, mostrando satisfação por ver o Campo de Lagos cheio de escuteiros vindos de todas as ilhas.

Natural de Vila Franca do Campo, Mateus Pacheco, do Agrupamento 436, assumiu também o papel de anfitrião, ajudando os participantes vindos de outras ilhas a orientarem-se pelo concelho. Entre jogos, novas experiências e o contacto com diferentes sotaques, considera que a semana foi “intensa” e muito enriquecedora.

Já Ricardo Costa, chefe do agrupamento de Ponta Garça, realça que o maior legado do escutismo continua a ser o companheirismo, a ajuda ao próximo e a formação humana dos jovens. Num ano em que o agrupamento celebra quatro décadas de existência, acredita que experiências como o jamboree mostram que o tempo passado no escutismo é um investimento na construção de cidadãos mais responsáveis, solidários e preparados para a vida.

O XVI Jamboree açoriano encerra esta segunda-feira. Este domingo de tarde, o campo abre-se a visitas exteriores, numa sessão solene que encerra as comemorações dos cem anos do escutismo nos Açores.

A Junta regional vai a votos em janeiro do próximo ano e a grande atividade prevista será o Acaral, que juntará os lobitos de todas as ilhas, embora ainda não haja candidatos de núcleo a receber este evento para as alcateias. Em são Miguel o próximo ACANUC realiza-se em 2028.

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