Leão XIV preside à Eucaristia em Castel Gandolfo e associa o cuidado da criação à construção da paz. Jornada foi instituída pelo Papa Francisco em 2015, em sintonia com a Igreja Ortodoxa

A Igreja Católica assinala hoje, 1 de setembro, o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, jornada instituída pelo Papa Francisco em 2015 e que procura unir oração, conversão e compromisso concreto na proteção da “casa comum”. Este ano, o Papa Leão XIV associa a celebração à urgência de cuidar de um mundo marcado pela guerra, pela degradação ambiental e por múltiplas crises.
O pontífice vai presidir esta terça-feira à Eucaristia no Borgo Laudato Si’, em Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, numa celebração marcada para as 18h30 locais (16h30 nos Açores).
A jornada inicia também o “Tempo da Criação”, período ecuménico que decorre até 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis. Em 2026, o tema é “Água Viva”, procurando convocar as comunidades cristãs para a oração e para ações concretas de cuidado da criação.
Na sua mensagem para a 11.ª edição do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, Leão XIV parte das palavras do profeta Isaías — “Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices” (Is 2,4) — para estabelecer uma ligação entre a guerra, a crise ecológica e a condição humana.
“Hoje, testemunhamos muitas crises e muito sofrimento humano”, escreve o Papa, observando que, ao mesmo tempo, se acelera a perturbação do equilíbrio da criação. Para Leão XIV, estes fenómenos não devem ser considerados isoladamente, mas constituem “um único apelo à cura e à paz, proveniente dum mundo ferido”.
O Papa defende que as energias atualmente investidas na guerra poderiam ser canalizadas para o desenvolvimento humano integral, a superação da pobreza, a defesa da dignidade humana e a reconciliação entre os povos.
“As verdadeiras ferramentas para construir a paz não são as armas de destruição, mas sim a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor”, afirma na mensagem.
Na intervenção que antecedeu a celebração deste Dia, Leão XIV voltou a alertar para a necessidade de uma transformação do coração.
“Cuidar da nossa casa comum exige uma conversão do coração, para que aquilo que tem sido utilizado para causar destruição possa, em vez disso, ser orientado para a vida”, afirmou, convidando os cristãos a tornarem-se “canais da água viva da paz de Deus” para um “mundo ferido”.
Uma jornada criada por Francisco em 2015
O Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação foi instituído pelo Papa Francisco, através de uma carta assinada no Vaticano a 6 de agosto de 2015, poucas semanas depois da publicação da encíclica Laudato si’, dedicada ao cuidado da casa comum.
Francisco explicou então que a decisão respondia às preocupações partilhadas com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu sobre o futuro da criação e à proposta apresentada pelo representante do Patriarcado Ecuménico, o Metropolita Ioannis de Pérgamo.
A escolha de 1 de setembro não foi casual: a Igreja Católica passou a celebrar a jornada na mesma data em que esta já era assinalada pela Igreja Ortodoxa, permitindo reforçar uma preocupação comum entre cristãos de diferentes tradições.
Na carta de instituição, Francisco apresentava o novo Dia como uma oportunidade anual para cada cristão e cada comunidade renovar a sua vocação de guardião da criação, dando graças a Deus pelo mundo confiado ao cuidado humano, pedindo ajuda para o proteger e reconhecendo os danos causados à criação.
O Papa ligava esta responsabilidade a uma necessária “conversão ecológica”, entendida não como uma dimensão secundária da fé, mas como consequência do encontro com Cristo. Para Francisco, “viver a vocação de guardiões da obra de Deus” fazia parte essencial da existência cristã.
Desde a sua origem, a jornada assumiu uma forte dimensão ecuménica. Francisco desejava que a celebração fosse um sinal do caminho comum entre os cristãos e envolvesse outras Igrejas e Comunidades eclesiais, em sintonia com as iniciativas promovidas pelo Conselho Mundial de Igrejas.
Na carta dirigida aos então responsáveis dos organismos vaticanos para a Justiça e Paz e para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Francisco pediu que a celebração fosse preparada com a participação de todo o Povo de Deus – sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos – e que constituísse um momento forte de oração, reflexão, conversão e adoção de estilos de vida coerentes.
O Papa evocava ainda São Francisco de Assis e o Cântico das Criaturas, cuja espiritualidade desejava ver como inspiração para homens e mulheres empenhados no louvor do Criador e no respeito pela criação.

Onze anos depois da instituição da jornada, a mensagem de Leão XIV mantém o núcleo da intuição de Francisco, mas coloca uma ênfase particular na relação entre paz, guerra e cuidado da criação.
Para o atual Papa, as feridas provocadas pelos conflitos armados e a degradação da terra estão profundamente ligadas à condição do coração humano. A resposta à crise ecológica passa, por isso, não apenas por mudanças técnicas ou políticas, mas por uma renovação interior capaz de gerar relações diferentes entre pessoas, povos e criação.
O caminho proposto por Leão XIV é, nas suas palavras, uma passagem “do deserto ao jardim, da divisão à comunhão e da violência à paz”.
A celebração deste 1 de setembro procura, assim, recuperar a intenção expressa por Francisco na criação da jornada: rezar pelo mundo, reconhecer a responsabilidade humana sobre a criação e transformar essa oração em compromisso concreto com a vida, a justiça, a paz e o futuro da casa comum.