António Moiteiro preside à Festa do Bom Jesus da Pedra, a última grande festa de verão da ilha de São Miguel, organizada pela Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo, uma das mais antigas dos Açores

Na Cruz, onde aparentemente tudo termina, começa uma vida nova. Foi a partir desta imagem de Jesus entregue na paixão que o Bispo de Aveiro construiu esta manhã a sua homilia na missa da festa do Senhor Bom Jesus da Pedra, em Vila Franca do Campo, convidando a comunidade a não olhar para a Cruz como símbolo de fracasso, mas como a expressão máxima de um amor que se entrega e transforma.
D. António Moiteiro lembrou que a missão de Jesus foi revelar o amor do Pai e que esse amor se manifesta de forma plena na paixão e na Cruz.
“Na paixão revela-se um amor que não se impõe, mas se entrega”, afirmou o Bispo de Aveiro, perante a imagem do Bom Jesus da Pedra.
O desafio, porém, não pode ficar na contemplação. Ao olhar para o Senhor Bom Jesus da Pedra, o cristão é chamado a fazer como Jesus: a entregar-se, a amar e a aproximar-se de quem precisa.
Num tempo em que a sociedade corre o risco de olhar para a Cruz apenas como um símbolo do passado, D. António Moiteiro propôs uma leitura diferente. Na Cruz está um amor capaz de recomeçar e de gerar vida nova. E esse amor deve tornar-se visível na vida dos cristãos.
Na homilia deste domingo, o Bispo de Aveiro recuperou o apelo de Jesus: “Vinde a mim”, dando-lhe um rosto concreto nos homens e mulheres que hoje vivem situações de sofrimento: são os idosos que o mundo deixa morrer na miséria ou na solidão; são aqueles que vivem diferentes formas de pobreza; são as pessoas atingidas pela guerra e pelas bombas. São homens e mulheres vítimas do ódio, da indiferença e da incapacidade de perdoar. São também aqueles que vivem aprisionados, física ou interiormente, sem conseguir viver plenamente a sua fé e a sua vida. A todos, recordou D. António Moiteiro, Jesus diz: “Eu vos darei descanso.”

A mensagem tinha sido já deixada pelo Bispo no sermão da tradicional procissão da mudança da imagem, este sábado à noite, onde colocou aos fiéis a pergunta fundamental: “Que cristão sou eu? Como vivo a minha relação com Jesus? Como vivo como seu discípulo?”
A resposta passa por assumir “a cruz do amor” e por fazer uma opção pessoal pelo seguimento de Jesus.
D. António Moiteiro evocou, nesse contexto, várias figuras e episódios do Evangelho: a Samaritana, que acredita, o cego que faz a sua profissão de fé — “Eu vejo que tu és o Senhor” — e, sobretudo, o Bom Samaritano, cuja atitude mostra que ser discípulo de Jesus é saber aproximar-se.
“Quando somos capazes de nos aproximarmos daqueles que sofrem”, explicou, “estamos a concretizar o essencial da mensagem cristã”.
Não são necessárias fórmulas complicadas para encontrar Deus, sublinhou o Bispo: é preciso aproximarmo-nos de quem precisa.
O seguimento de Jesus, advertiu D. António Moiteiro, não oferece vantagens materiais. É uma escolha que conduz a “coisas maiores” e que cada pessoa tem de fazer por si.
Na procissão da mudança, o Bispo de Aveiro apontou três exigências para quem quer seguir Jesus: despojar-se, responder sem se prender a outros interesses e assumir uma decisão irrevogável de O seguir.
É esse seguimento que permite passar da devoção à missão: olhar para a Cruz, reconhecer nela o amor do Pai e levar esse amor àqueles que dele mais necessitam.
“Façamos nós hoje o mesmo: levemos Jesus connosco e saibamos comunicá-lo aos outros”, apelou na homilia desta manhã.
Na procissão da mudança, o pároco da Igreja Matriz, padre José Alfredo Borges, colocou também Vila Franca do Campo sob a proteção do Bom Jesus da Pedra.
“O único Senhor da vila e da vida”, assim evocou o sacerdote o Senhor Bom Jesus, agradecendo a sua presença e pedindo proteção para a comunidade.
“Protegei, Bom Jesus da Pedra, a nossa vila; dai-nos o vosso perdão e amparo, pois só em Vós esperamos”, rezou.
A imagem que hoje percorre as ruas da antiga capital de São Miguel torna-se, assim, mais do que expressão de uma tradição religiosa: é um convite à comunidade para reconhecer o amor de Cristo e transformá-lo em proximidade, cuidado e atenção aos outros.
A festa do Senhor Bom Jesus da Pedra, organizada pela Santa Casa da Misericórdia, é uma das expressões mais marcantes da religiosidade popular de Vila Franca do Campo e constitui o momento que tradicionalmente encerra o ciclo das grandes festas de verão na ilha de São Miguel.