Por Carmo Rodeia

Esta terça-feira tropecei numa notícia que dava conta de que o bispo do Funchal iria presidir, no dia 13 de setembro, à festa em honra do Senhor da Paciência, no Mosteiro de Santo António, das Irmãs Clarissas do Funchal.
Não conhecia esta invocação. E talvez por isso tenha ficado a pensar nela.
“O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade”, diz o Salmo 144. Num tempo em que tudo parece exigir urgência, talvez não seja pequena a provocação de celebrar um Deus paciente.
Fui procurar onde se celebrava esta devoção noutros lugares do país e encontrei-a em Braga e na Figueira da Foz, em Covêlo e Maiorca, respetivamente. Há, afinal, uma geografia portuguesa da paciência, feita de lugares, memórias, imagens, promessas e pessoas que continuam a encontrar nesta devoção uma forma de se aproximarem de Deus.
A imagem do Senhor da Paciência é particularmente expressiva. Jesus aparece sentado, coroado de espinhos, ferido, com o rosto apoiado na mão, aguardando o momento da crucificação.
Ao que consegui perceber, a imagem do Funchal, que encima este artigo, está historicamente ligada à vida mística da Madre Virgínia Brites da Paixão, e recorda-nos que a paciência não é simplesmente suportar aquilo que nos acontece. É uma atitude ativa de esperança. É uma aprendizagem. É, de algum modo, uma imitação do próprio Deus.
Não deixa de ser uma imagem meio desconcertante, como todas as imagens que conhecemos de Jesus no momento, da paixão e da morte.
Talvez seja precisamente isso que torna esta devoção tão atual. Porque confundimos muitas vezes paciência com passividade, resignação ou fraqueza. E, no entanto, a imagem do Senhor da Paciência parece dizer-nos o contrário: que esperar pode ser uma forma de coragem; que permanecer pode ser uma forma de resistência e que o silêncio pode ser uma forma de confiança.
A piedade popular tem destas coisas.
Num mundo impaciente, com uma enorme incapacidade para a escuta, celebrar um Deus que é apresentado como “clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade”, e fazê-lo sem foguetes, sem ruído de bandas convidadas, sem elementos profanos, dá que pensar.
Segundo o Diário de Coimbra (20 de novembro de 2025), a festa do Senhor da Paciência em Maiorca distingue-se precisamente pelo seu carácter exclusivamente religioso. A procissão noturna é marcada pelo silêncio e pelas promessas cumpridas de joelhos por centenas de devotos. Até a música que a acompanha é uma marcha fúnebre, tocada pela Banda da Associação Musical União Filarmónica Maiorquense apenas por ocasião desta devoção.
Silêncio. Passos lentos. Joelhos no chão. Uma marcha fúnebre… Num mundo que nos pede velocidade, talvez haja aqui uma linguagem que precisamos de reaprender.
A linguagem da espera parece estar a convocar-nos.
Santa Teresa de Ávila, que não se considerava propriamente uma pessoa paciente, escreveu um dos mais belos elogios à paciência: “Nada te turbe, nada te espante, quem a Deus tem nada lhe falta. A paciência tudo alcança, só Deus basta.”
Não sei se a paciência é uma virtude natural. Conheço pessoas mais pacientes do que outras e algumas certamente mais pacientes do que eu, que sou assertiva na ação, emotiva nos combates, sobretudo quando se trata de assuntos sobre os quais já pensei e tenho uma opinião formada.
Mas também conheço outra paciência, que vou procurando cultivar diante da dor e do sofrimento, de vez em quando com algum queixume e uma boa dose de revolta da alma.
O dicionário de língua portuguesa Priberam define a paciência como a capacidade de tolerar contrariedades e incómodos com calma, mas acrescenta duas palavras essenciais: perseverança e espera.
Na Bíblia, a paciência está profundamente ligada à confiança. Não significa apenas esperar que alguma coisa aconteça; significa confiar no tempo de Deus quando não compreendemos esse tempo. Por isso, São Paulo coloca-a entre os frutos do Espírito: “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade”.
Não sendo natural, não é uma virtude menor, diria, uma das pessoas mais impacientes que conheço, eu própria!
Muitas das grandes histórias bíblicas são histórias de espera: Job esperou no meio da perda e da dor; Abraão esperou anos pela promessa de um filho. Nenhum deles teve uma espera fácil. Nenhum recebeu imediatamente aquilo que desejava. Mas, talvez seja precisamente aí que as suas histórias nos ajudam a compreender que a paciência não elimina o sofrimento. Pode, porém, transformar a maneira como o atravessamos.
Vivemos numa cultura da gratificação imediata. Queremos respostas rápidas, soluções rápidas, resultados rápidos. Queremos saber já se aquilo que fazemos vai resultar. Queremos que os outros mudem ao nosso ritmo. Queremos que Deus responda segundo os nossos calendários, em vez de O deixarmos trabalhar em nós, numa aprendizagem de um outro tempo.
O Senhor da Paciência sentado, ferido, coroado de espinhos, com o rosto apoiado na mão, é uma imagem de alguém que parece não estar a fazer nada. E, no entanto, está a acontecer tudo. Talvez também haja momentos assim nas nossas vidas. Momentos em que parece que nada acontece. Em que rezamos e não recebemos respostas. Em que fazemos o bem e não vemos frutos. Em que esperamos e começamos a duvidar.
Somos – ou procuramos ser, com humildade e naturalidade – aquilo que somos. Porque aquilo que somos traz alguma coisa de único. Deus criou-nos assim. E aquilo que somos pode ser um dom para a comunidade.
A festa do Senhor da Paciência parece-me agora muito mais do que uma devoção antiga, popular.
Talvez seja um convite a não desistir do bem, mesmo quando os frutos tardam.