Festa da Serreta 2026: Santuário prepara-se para receber milhares de peregrinos com restauro do altar-mor concluído

Obras do Santuário estarão concluídas a tempo da festa

Foto: Sessão pública de apresentação da obra de restauro do retábulo do altar mor, na Serreta/Arquivo IA

A pouco menos de um mês do início da Novena e Festa de Nossa Senhora dos Milagres, o Santuário da Serreta, na ilha Terceira, apresenta-se aos peregrinos com uma das mais importantes intervenções de conservação do seu património praticamente concluída. Depois de mais de dois anos de trabalhos intensivos de conservação e restauro do retábulo do altar-mor, a comunidade prepara-se para celebrar a grande festa mariana da ilha Terceira com um templo renovado, preservando um património que faz parte da identidade religiosa e cultural dos Açores.

É neste cenário renovado que decorrerá a Novena e Festa de Nossa Senhora dos Milagres 2026, entre 4 e 15 de setembro, esperando-se cerca de 12 mil peregrinos, muitos dos quais chegam à Serreta a pé, cumprindo promessas ou renovando uma tradição familiar com várias gerações. Ao longo das celebrações, deverão participar cerca de quatro mil fiéis nas diversas eucaristias, desde o início da novena até à tradicional Segunda-feira da Serreta, números registados nos últimos anos.

A grande novidade deste ano prende-se precisamente com o acolhimento dos peregrinos. Pela primeira vez, o Santuário permanecerá aberto ininterruptamente desde sexta-feira, dia 11, até segunda-feira, dia 14 de setembro, sem encerrar durante a noite. A decisão responde ao crescente número de peregrinos que chegam de madrugada, sobretudo na manhã de segunda-feira, aproveitando a tolerância de ponto concedida pelas entidades públicas na tradicional Segunda-feira da Serreta.

O programa religioso inicia-se na sexta-feira, 4 de setembro, com o começo da novena. Todos os dias haverá recitação do Terço às 19h30, seguida da Missa da Novena às 20h00, mantendo-se igualmente confissões entre as 17h00 e as 20h00.

Pela primeira vez nos últimos anos, todas as reflexões da novena serão confiadas ao mesmo pregador, o padre Pedro Silveira Lima, pároco de Santa Luzia, em Angra do Heroísmo, opção que pretende conferir maior unidade espiritual ao percurso de preparação para a festa.

Outra novidade será a celebração de uma Eucaristia na manhã de quinta-feira, 10 de setembro, às 11h00, especialmente dedicada aos doentes. A celebração contará com a participação dos utentes da Casa de Saúde do Espírito Santo da Ilha Terceira, acompanhados pelo respetivo capelão, padre Miguel Tavares, bem como de colaboradores daquela instituição.

Ao longo da novena participarão diariamente diferentes movimentos, serviços e grupos da Diocese de Angra, verificando-se este ano uma maior diversidade na animação litúrgica, com um equilíbrio entre coros paroquiais, grupos litúrgicos e grupos de jovens provenientes de várias comunidades da ilha.

No domingo, 6 de setembro, haverá igualmente uma Missa às 11h00 destinada aos peregrinos.

As celebrações intensificam-se a partir de 11 de setembro, mantendo-se o Santuário permanentemente aberto. Na sexta-feira haverá Missa à meia-noite, repetindo-se no sábado um programa alargado de celebrações e momentos de oração.

O ponto alto acontece no domingo, 13 de setembro, Dia da Festa. Depois da Missa da Meia-Noite e da tradicional Vigília Eucarística, entre as 03h00 e as 06h00, serão celebradas Eucaristias às 09h00 e às 11h00. A Missa Solene da Festa, às 16h00, será presidida e pregada pelo padre José Júlio Mendes Rocha, recentemente nomeado pároco de São Bartolomeu de Regatos. Seguir-se-á, às 17h30, a tradicional Procissão de Nossa Senhora dos Milagres, um dos momentos mais marcantes da piedade popular açoriana na ilha Terceira.

As celebrações prosseguem ainda na Segunda-feira da Serreta, dia 14, com a Missa em honra de Santa Rosa de Viterbo, às 11h00, destinada sobretudo às famílias que mantêm viva a tradição de passar este dia na Serreta. A festa encerra na terça-feira, dia 15, com a Eucaristia e Procissão em honra de Santo António.

Foto: Igreja Açores (Arquivo)

A intervenção na igreja, iniciada há cerca de 27 meses, revelou-se muito mais complexa do que inicialmente previsto. O que começou por ser a correção de um descaimento localizado numa das estruturas do retábulo acabou por obrigar à sua desmontagem integral, depois de se verificar que toda a estrutura de suporte apresentava um elevado estado de degradação, colocando em risco a estabilidade daquele que é o elemento artístico mais importante da igreja. O pano vermelho que estava a cobrir todo o espaço já se encontra removido e a partir do dia 24 de agosto chegarão as peças retiradas para restauro de forma a que no período da festa esteja tudo concluído, disse ao Igreja Açores o reitor, padre João Pires.

Apesar da conclusão praticamente total do restauro do retábulo do altar-mor, a reitoria do Santuário reconhece que o plano de conservação do templo está longe de estar terminado. A intenção era avançar de imediato para a recuperação do teto da capela-mor, uma intervenção considerada prioritária. No entanto, essa obra obrigaria à remoção integral dos painéis existentes e à criação de uma caixa de ar entre a cobertura e o teto, solução técnica indispensável para eliminar problemas de humidade e assegurar a eficácia da intervenção. O elevado investimento necessário, a que se juntam ainda os futuros trabalhos de conservação dos altares laterais, levou a que estas obras fossem, para já, adiadas, ficando dependentes da obtenção de novos recursos financeiros.

Os trabalhos, realizados pela empresa Acroarte, de São Jorge, permitiram recuperar a estrutura original, eliminar elementos metálicos completamente corroídos, consolidar todo o conjunto e devolver ao retábulo a sua policromia e decoração originais, escondidas durante décadas por sucessivas campanhas de pintura. Entre as descobertas mais relevantes destacam-se a recuperação do trono barroco, onde voltaram a surgir os elementos decorativos de nuvens, anjos e raios de sol, bem como o reaproveitamento do antigo sepulcro do Senhor, entretanto restaurado e reintegrado no conjunto litúrgico.

Ao contrário do que habitualmente acontece em obras desta dimensão, o estaleiro foi mantido no interior da igreja, permitindo que peregrinos e visitantes acompanhassem diariamente a evolução dos trabalhos. Essa proximidade ajudou a comunidade a compreender a dimensão da intervenção e reforçou o envolvimento dos muitos benfeitores que, juntamente com os serretenses, peregrinos e algumas entidades públicas e privadas, tornaram possível financiar uma obra inteiramente assumida pelo próprio Santuário.

Se no ano passado a cortina vermelha que ocultava o altar-mor era um sinal das obras em curso, este ano tudo aponta para que os peregrinos possam contemplar um retábulo praticamente devolvido ao seu esplendor original, faltando apenas alguns trabalhos de acabamento e afinação.

A devoção a Nossa Senhora dos Milagres constitui uma das mais antigas e expressivas manifestações religiosas da Ilha Terceira. A sua origem remonta ao século XVIII, quando as autoridades e o povo recorreram à intercessão de Nossa Senhora perante o receio de uma invasão naval, prometendo realizar anualmente uma festa caso a ilha fosse poupada. A primeira celebração teve lugar em 1764, embora a construção da atual igreja apenas tenha começado em 1819, por iniciativa do general Francisco António de Araújo, sendo concluída em 1842. Desde então, a Serreta tornou-se um dos principais lugares de peregrinação dos Açores, mantendo uma tradição que continua a mobilizar milhares de pessoas todos os anos.

A edição de 2026 assume, por isso, um significado particular: além de celebrar a fé e a devoção secular dos peregrinos, permitirá reencontrar um dos mais importantes conjuntos artísticos do Santuário praticamente recuperado, devolvendo ao altar-mor a dignidade e a beleza que sempre fizeram dele o coração espiritual da Serreta.

 

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