Solenidade da Assunção da Virgem Santa  Maria leva a fé e a tradição para as ruas dos Açores

A solenidade de 15 de agosto é celebrada em toda a Igreja Católica, mas no arquipélago assume uma expressão muito particular. Em várias ilhas, Nossa Senhora é a padroeira das comunidades e a festa ultrapassa os limites da paróquia, mobilizando populações inteiras, a diáspora, bandas filarmónicas e milhares de fiéis. Em Santa Maria, nas Flores e no Corvo, a celebração ganha mesmo dimensão de ilha.

Foto: Vatican Media

É uma festa que começa no altar, mas rapidamente ganha as ruas. No dia 15 de agosto, os Açores celebram, como toda a Igreja, a Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, uma das grandes celebrações do calendário católico e uma das datas que mais fortemente exprimem a experiência mariana das ilhas.

De Santa Maria ao Corvo, da Terceira às Flores, passando por São Miguel, Pico, São Jorge, Faial e Graciosa, são muitas as comunidades que neste dia saem em procissão, ornamentam as ruas, juntam as famílias e recebem de novo muitos dos que vivem fora do arquipélago.

Em 12 paróquias açorianas, a celebração corresponde à festa da padroeira. Noutras, trata-se da festa da principal invocação mariana da comunidade. O resultado é uma geografia de festas que atravessa várias ouvidorias e dá ao `15 de agosto ´uma dimensão que é simultaneamente religiosa, cultural e comunitária.

O que celebra a Igreja a 15 de agosto?

A Assunção de Maria significa, na fé católica, que a Virgem Maria, terminado o curso da sua vida terrena, foi elevada por Deus à glória celeste em corpo e alma.

É um dos quatro dogmas marianos da Igreja Católica, juntamente com a Maternidade Divina de Maria (define que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos), proclamado no Concílio de Éfeso, em 431), a Virgindade Perpétua (Maria permaneceu virgem antes e depois de dar á Luz Jesus) e a Imaculada Conceição ( proclamado dogma em por Pio IX, em 1854, declara que Maria foi concebida sem mancha do pecado original).

A definição solene do dogma da Assunção aconteceu apenas em 1950, a 1 de novembro, através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus mas a festa e a tradição que lhe estão associadas são muito anteriores.

A solenidade remonta à antiguidade cristã e aparece ligada, sobretudo no Oriente, à tradição da `Dormição de Maria´. A festa foi-se difundindo e adquirindo expressão litúrgica tanto no Oriente como no Ocidente, muito antes de a Igreja lhe conferir a definição dogmática.

O dogma tem também uma dimensão que ultrapassa a figura de Maria.

A Igreja vê na Assunção uma antecipação daquilo que espera para todos os que vivem unidos a Cristo: a ressurreição e a glorificação da pessoa inteira.

É por isso que a solenidade fala não apenas da alma, mas também do corpo. Maria é apresentada como aquela em quem o destino último da humanidade já se manifesta. Como sintetiza o material preparado para esta celebração, uma criatura humana está já na glória e torna-se, por isso, “sinal de consolo e esperança”, pode ler-se na explicação teológica do Vaticano.

São João Paulo II sublinhou precisamente esta dimensão ao explicar que, para Maria, a glorificação do corpo foi antecipada de modo singular, enquanto para os restantes seres humanos a ressurreição dos corpos acontecerá no fim dos tempos.

A Assunção é, assim, uma festa sobre Maria, mas também sobre o destino de cada pessoa.

Foto: Imagem de Nossa Senhora dos Anjos (Fajã de Baixo)

As expressão das ilhas

Nos Açores, esta dimensão universal da festa encontra uma expressão própria.

Em Santa Maria, a celebração da Assunção tem uma importância que ultrapassa a comunidade de Vila do Porto e se projeta sobre toda a ilha. A própria tradição mariana está profundamente ligada à identidade mariense. Neste contexto, destaca-se ainda a particularidade de Santa Maria ser a única ilha cuja invocação está diretamente associada à Mãe de Jesus, relacionando a designação da ilha com a sua descoberta no dia da Assunção.

Em Vila do Porto, o momento central da festa é a Missa solene do dia 15, às 17h00, na Igreja Matriz de Vila do Porto, seguida da procissão pelas principais artérias da vila, ambas presididas pelo padre Jacob Vasconcelos.

É uma celebração que reúne a comunidade e que, neste período do ano, coincide também com o regresso de muitos marienses residentes fora da ilha.

Em São Miguel, a força da devoção mariana manifesta-se através de várias festas distribuídas por diferentes concelhos e ouvidorias.

Em Água de Pau, na ouvidoria da Lagoa, a festa de Nossa Senhora dos Anjos assume particular relevo histórico e cultural. A celebração, que se prolonga por vários dias, envolve dez bandas filarmónicas e 19 andores.

A procissão é um dos momentos altos. A imagem de Nossa Senhora dos Anjos recebe as ofertas dos fiéis, lançadas em argolas decoradas com flores e colocadas no braço da escultura. Este ano quer a missa solene da festa quer a procissão são presididas pelo padre Hélio Soares.

Também na Fajã de Baixo, em Ponta Delgada, Nossa Senhora dos Anjos é celebrada com Missa e procissão. Na Ajuda da Bretanha, ouvidoria de Capelas, a comunidade honra Nossa Senhora da Ajuda, numa festa que conta este ano com a particularidade da participação de dois sacerdotes filhos da terra que celebram 25 anos de sacerdócio- cónego Hélder Miranda Alexandre será o pregador do tríduo preparatório e o padre Silvano Vasconcelos presidirá à missa da festa e à procissão. Nos Fenais da Ajuda, ouvidoria dos Fenais de Vera Cruza, a procissão percorre as ruas ornamentadas com tapetes de flores naturais.

A Terceira celebra neste dia três invocações marianas: Nossa Senhora de Guadalupe, na Agualva; Nossa Senhora das Mercês, na Feteira; e Nossa Senhora do Pilar, nas Cinco Ribeiras.

No Faial, a festa chega à Praia do Almoxarife, com Nossa Senhora da Graça, e a Castelo Branco, com Nossa Senhora de Lurdes.

No Pico, quatro comunidades assinalam a data com festas marianas: Prainha do Norte, com Nossa Senhora da Ajuda; Santo António, com Nossa Senhora da Saúde; Silveira, com Nossa Senhora Mãe de Deus; e São Caetano, com Nossa Senhora da Assunção.

Contudo, as únicas festas em que a invocação é celebrada, apenas na Praia do Almoxarife e na Praia do Norte, no Faial e Pico respetivamente, se celebram as padroeiras. As restantes são as principais invocações marianas de cada uma daquelas paróquias que são celebradas com festa a 15 de agosto de cada ano.

Em São Jorge, nos Rosais, a festa de Nossa Senhora do Rosário é marcada pela Eucaristia e pela procissão e conta habitualmente com uma participação significativa da população emigrada que regressa à ilha nesta altura do ano. É, porventura, uma das festas de verão mais participadas na ouvidoria.

Na Graciosa, Nossa Senhora da Ajuda é celebrada com Missa e procissão. E nas Flores, no Lajedo, a festa de Nossa Senhora dos Milagres mantém a tradição da romaria a pé e destaca-se também pela presença de muitos jovens. Além de ser a padroeira da paróquia, congrega pela tradição muitas pessoas da ilha inteira que, por estes dias, transforma a igreja paroquial do Lajedo num verdadeiro santuário mariano da ilha mais a ocidente.

O calendário do 15 de agosto mostra, assim, uma realidade que vai muito para além da dimensão estritamente litúrgica.

Estas festas são lugares de encontro. São comunidades que se reencontram, emigrantes que regressam, famílias que mantêm promessas, crianças e jovens que participam nas procissões e tradições que passam de geração em geração.

As flores, as bandas filarmónicas, os andores e as procissões são elementos visíveis de uma devoção que tem raízes profundas. Mas por detrás deles está uma experiência de fé que continua a encontrar em Maria uma figura de proximidade, proteção e esperança.

É também por isso que muitas destas festas têm uma dimensão que ultrapassa os limites administrativos da paróquia. A padroeira não é apenas a imagem diante da qual se reza. Torna-se um símbolo de pertença de uma comunidade inteira.

O Magnificat como chave da festa

No Evangelho proclamado na solenidade, Maria canta o Magnificat: “Minha alma glorifica ao Senhor”.

É uma oração de louvor, mas também de esperança. Maria reconhece as grandes coisas que Deus realizou e proclama uma misericórdia que se estende de geração em geração.

É precisamente esta mulher, simples e disponível, que a Igreja contempla agora na glória.

A festa da Assunção não é, por isso, uma fuga da realidade. Pelo contrário. O olhar para o Céu é apresentado como uma forma de compreender melhor a vida na terra, com atenção aos mais frágeis, aos pobres e aos que precisam de esperança.

Talvez seja esta a razão mais profunda pela qual a festa conserva tanta força nos Açores.

A Assunção aponta para o Céu, mas as comunidades celebram-na na terra. A Igreja proclama um dogma universal, mas cada ilha, cada ouvidoria e cada paróquia vive-o à sua maneira.

No dia 15 de agosto, a fé sai das igrejas e percorre as ruas. Maria é levada em procissão, mas é também a memória de gerações que continua a caminhar com as comunidades.

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