Por António Maria Gonçalves

Completei recentemente setenta e um anos.
Não escrevo estas linhas para celebrar uma idade. Escrevo-as, sobretudo, para agradecer o privilégio raro que a vida me concedeu: ter pertencido a uma geração que assistiu a uma das mais profundas transformações civilizacionais da História.
Muitos estudam a História. Outros narram os acontecimentos do passado e procuram neles razões para concluir se o mundo melhorou ou piorou. Eu quero fazer um exercício diferente: recordar aquilo que me foi dado viver, testemunhar e, na pequeníssima parte que a cada homem cabe, também ajudar a construir.
Porque não fui apenas espectador. Caminhei dentro do meu tempo.
Nasci numa pequena ilha do Atlântico, onde o tempo parecia avançar mais devagar do que no resto do mundo. Mesmo assim, também aqui chegaram, uma após outra, as vagas da mudança, embora com o atraso que a distância e o mar inevitavelmente impunham.
Quando olho para trás, custa-me acreditar que uma única vida possa ter conhecido realidades tão diferentes.
Na minha infância, os pés descalços eram comuns no caminho para a escola e no trabalho. A nossa “tecnologia” cabia numa ardósia onde aprendíamos as primeiras letras. Pelos caminhos passavam carros de bois e os automóveis eram uma raridade. O primeiro chegara à ilha das Flores apenas cinco anos antes de eu nascer.
À noite, a casa iluminava-se com a luz trémula da lamparina a petróleo. Cozinhava-se na lareira alimentada a lenha. O milho era semeado e colhido ao ritmo das estações. A matança do porco era um acontecimento familiar e comunitário, e a carne guardava-se no sal porque não havia eletricidade nem frio onde conservá-la.
Os navios chegavam quando o mar consentia. Traziam pessoas, algumas mercadorias e notícias de um mundo que nos parecia muito distante. As cartas demoravam semanas.
Também as alegrias e as tristezas viajavam à velocidade do oceano.
Hoje, basta um segundo para atravessar o planeta.
Na juventude, a História começou a acelerar diante dos meus olhos. Vi o homem chegar à Lua. Vi amigos partirem para a Guerra do Ultramar sem saberem se regressariam. Depois chegou o 25 de Abril. Com ele veio a liberdade e uma nova forma de pensar o país, a sociedade e a própria vida.
E eu estava a florescer na juventude.
A televisão entrou nas nossas casas. Ainda a preto e branco, abriu-nos uma janela para um mundo que, até então, conhecíamos sobretudo pela imaginação, pelas notícias tardias e pelas histórias de quem vinha de fora. Alguns tiveram aparelhos de rádio, alguns.
Casei. O meu filho nasceu na mesma ilha onde eu nascera – possibilidade que hoje já não existe, obrigando as novas famílias florentinas a viverem longe da sua terra um dos momentos maiores das suas vidas.
Também despertei para a participação cívica e política, acreditando, como continuo a acreditar, que cada cidadão pode deixar uma pequena marca na comunidade onde vive.
Plantei um pinheiro junto à minha casa.
Comecei a sonhar o meu primeiro livro.
E a vida continuou.
Chegaram os “Franceses”. Chegou o aeroporto. Vieram novas estradas, novas infraestruturas e serviços. Portugal integrou-se na Europa. Chegou o euro. Depois a internet, os telemóveis, os computadores e, já nesta fase da minha vida, a inteligência artificial.
Em poucas décadas, passei de esperar semanas por uma carta a poder falar, em segundos, com alguém do outro lado do mundo.
A distância, que durante séculos definiu a condição de quem vivia numa ilha, deixou de ser a mesma fronteira.
Ganhámos coisas extraordinárias. A medicina prolongou vidas. A ciência realizou o que parecia impossível. Viajar tornou-se mais fácil. O conhecimento ficou ao alcance de milhões. Continentes inteiros aproximaram-se à distância de um pequeno ecrã que levamos no bolso.
Mas talvez tenhamos perdido alguma coisa pelo caminho.
Talvez o tempo. A capacidade de esperar. A serenidade. O silêncio!
Temos hoje muito mais do que os nossos pais alguma vez sonharam possuir. Não sei, porém, se aprendemos na mesma proporção a ser mais felizes.
Chegada esta fase da vida, começa outra aprendizagem: a dos limites.
Assistimos à partida daqueles que amamos. E já faltam muitos.
O corpo começa a impor as suas leis. Há escadas que custam mais a subir e caminhos que pedem outro ritmo. E o relógio parece acelerar o seu tic-tac, como se nos recordasse que nenhuma estação é eterna.
Também a alma muda.
As certezas passam a conviver mais humildemente com as perguntas. A fé torna-se menos teoria e mais necessidade. A esperança deixa de ser apenas um conceito e passa a ser companhia.
Talvez seja essa uma das conquistas da idade: perceber que a verdadeira sabedoria não consiste em possuir resposta para tudo, mas em aprender a viver serenamente com aquilo que permanece mistério.
Quando olho para a minha neta, penso muitas vezes no mundo que ela encontrará.
Provavelmente será tão diferente daquele em que nasceu o avô como o meu foi do mundo em que nasceram os meus avós.
É essa a lei da História.
Cada geração recebe um tempo que não escolheu, transforma-o como sabe e pode, e entrega-o à geração seguinte.
E é então que percebo a dimensão do caminho que me foi concedido percorrer.
Conheci a ardósia e conheço a inteligência artificial.
Vi os carros de bois percorrerem os caminhos da minha ilha e vivo já num tempo em que os automóveis começam a dispensar o condutor.
Esperei semanas por uma carta e hoje uma mensagem minha atravessa o mundo antes que eu tenha tempo de me levantar da cadeira.
Vi partir homens para uma guerra distante. Vi nascer a liberdade. Vi uma ilha remota aproximar-se do mundo e o mundo entrar, pouco a pouco, dentro da ilha.
E, no meio de tudo isto, vivi.
Amei. Sofri. Sonhei. Errei. Recomecei. Construí o que pude. Perdi pessoas que julgava que estariam sempre comigo e recebi outras que vieram prolongar a vida para além de mim.
Por isso, se alguma conclusão retiro destes setenta e um anos, não é a de que o passado era melhor, nem a de que o presente o seja. É outra, muito mais simples: fui profundamente abençoado.
Não porque tudo tenha sido fácil.
Não porque a vida me tenha poupado aos reveses.
Mas porque me foi concedido este extraordinário privilégio de estar aqui e de assistir e participar.
Da minha ilha continuo a olhar o mesmo oceano que olhava em criança.
Mudaram as casas, os caminhos, os meios de transporte, as comunicações, os costumes e até a maneira como percebemos o mundo.
O oceano, porém, continua diante de mim.
E o horizonte continua a ensinar-me aquilo que talvez só se compreenda verdadeiramente depois de muitos anos: que somos passageiros de um tempo que não nos pertence, mas ao qual pertencemos por inteiro.
Um dia, outros olharão este mesmo mar e contarão uma História que eu já não conhecerei. As suas Histórias!
Está certo que assim seja.
Quanto àquela que me foi concedido viver, guardo apenas uma certeza e uma palavra a quem tudo criou, Senhor da Vida e da História:
Obrigado !