“A Autonomia não se constrói no isolamento das pessoas ou de uma ilha contra a outra, mas na interdependência dos barcos”- D. Armando Esteves Domingues

Missa de ação de graças pelos 50 anos da consagração da autonomia político-administrativa dos Açores decorreu hoje na Horta

Foto: Facebook da Igreja Matriz da Horta

O bispo de Angra defendeu esta tarde, na Horta, uma Autonomia assente na corresponsabilidade, na solidariedade entre ilhas e numa autoridade entendida como serviço, durante a Eucaristia de ação de graças pelos 50 anos da Autonomia dos Açores, celebrada na Igreja Matriz da Horta com a presença do Presidente da República e dos titulares dos órgãos de governo próprio da Região.

A partir do relato evangélico da pesca milagrosa, proclamado na liturgia desta quinta-feira, o Bispo de Angra apresentou o episódio como uma metáfora para o caminho autonómico e para o futuro dos Açores.

“A Autonomia que hoje celebramos foi, para os Açores, este audaz `fazer-se ao largo´”, afirmou D. Armando, numa homilia em que apelou a que os decisores e os açorianos continuem a “sonhar juntos o futuro”.

Para o bispo de Angra, a Autonomia não pode ser entendida como um caminho isolado, mas como um exercício de responsabilidade comum. A imagem dos pescadores que, perante a abundância da pesca e o risco de as redes se romperem, chamam os companheiros do outro barco para ajudar serviu de ponto de partida para afirmar que “a Autonomia não se constrói no isolamento das pessoas ou de uma ilha contra a outra, mas na interdependência dos barcos”.

“A autonomia só acontecerá verdadeiramente quando aqui tivermos, peixe, carne, casa e pão que cheguem para todos e para chamar os vizinhos; educação e saúde que permitam a todos ter futuro, um futuro que sonharam . Quando uma ilha apanha peixe, a outra tem de vir ajudar a puxar a rede. Quando um açoriano triunfa, todo o arquipélago se eleva. O futuro da Autonomia exige a solidariedade dos dois barcos, partilhando o peso do mar e a alegria do peixe”, afirmou.

A reflexão do prelado dicoesano teve ainda como referência São Gregório Magno, cuja memória a Igreja celebra neste dia. Recordando o seu percurso como político, monge e Papa, D. Armando Esteves Domingues destacou a expressão “servo dos servos de Deus”, como paradigma de uma autoridade colocada ao serviço dos outros.

“As decisões públicas devem ter o cheiro do povo (…) e a prioridade dos vulneráveis, usando a autoridade como ferramenta de justiça social e coesão territorial”, afirmou.

Perante os desafios atuais dos Açores, entre os quais identificou “a pobreza, a exclusão, a integração dos estrangeiros ou de pessoas em risco, da demografia ou do cuidado com a nossa Casa Comum”, o bispo de Angra apelou a uma visão de futuro e a uma responsabilidade partilhada.

A mesma ideia foi reforçada através das imagens bíblicas da Torre de Babel e da reconstrução das muralhas de Jerusalém por Neemias, duas imagens utilizadas pelo Papa leão XIV na sua recente encíclica “Magnífica Humanidade”.

“A cidade renasce por responsabilidade partilhada”, afirmou, contrapondo duas lógicas de poder: “concentrá-lo ou distribuí-lo, homogeneizar ou compor”.

Na homília desta missa celebrada na Horta, na véspera da sessão solene comemorativa dos 50 anos da Autonomia, esta sexta feira na Assembleia Legislativa dos Açores, o prelado diocesano recordou o papel histórico da Igreja na construção da unidade dos Açores.

“Antes mesmo da existência de um poder político centralizado (1766), quando se criou a capitania geral dos Açores, já nessa altura a Igreja Católica era a única instituição a olhar para os Açores como um `todo´”, afirmou.

A Diocese de Angra, fundada em 1534, constituiu, segundo o bispo, uma jurisdição comum num arquipélago dividido por diferentes capitanias donatárias, ligando o Corvo e Santa Maria.

Através da rede paroquial, da celebração da Eucaristia e dos sacramentos, da catequese e do contributo das misericórdias, da educação e da assistência, a Igreja “ajudou a formar hábitos de pertença, de solidariedade e de reconhecimento mútuo entre as populações”.

D. Armando  Esteves Domingues destacou também o papel das grandes devoções, nomeadamente as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres e o Culto do Divino Espírito Santo, como elementos de união das ilhas e da Diáspora.

Esta consciência coletiva, “gerada no seio da fé”, foi, segundo o bispo de Angra, um “pressuposto cultural que tornou possível imaginar e sustentar a Autonomia”.

Por outro lado, D. Armando Esteves Domingues renovou “o compromisso da Igreja Açoriana em querer fazer a sua parte para o desenvolvimento integral da nossa Região e fortalecimento da Autonomia”.

“Não precisamos temer o mar alto dos novos desafios”, afirmou, apontando que o verdadeiro risco está na “falta de fé num Deus que nos acompanha e nos faz sonhar alto”.

Retomando a resposta de Pedro a Jesus – “Senhor, já que o dizes, lançarei as redes!” -, o Bispo de Angra terminou pedindo ao Divino Espírito Santo que ilumine os governantes, fortaleça as famílias, abençoe a Diáspora e mantenha “o povo açoriano sempre unido na barca da Esperança que é garantia de progresso e futuro” .

Esta sexta-feira decorrerá na Horta uma sessão solene comemorativa dos 50 anos da Autonomia Político-Constitucional dos Açores.

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