“A fé não é certeza. É esperança”- Catarina Valadão

Arquiteta foi a oradora da 21ª Vigésima primeira Conversa na Sacristia  que refletiu sobre fé, dúvida e esperança na Igreja de São José

Foto: Pastoral da Cultura da Igreja de São José

A vigésima primeira edição da Conversa na Sacristia, iniciativa da Pastoral da Cultura da Igreja de São José, em Ponta Delgada, foi marcada por uma reflexão poética e desarmante sobre a fé, a dúvida e o mistério. Convidada a abrir o ciclo deste ano, a arquiteta, fotógrafa e poeta Catarina Valadão apresentou um texto pessoal, dividido em seis momentos, onde afirmou desde logo que “a fé não entrou na minha vida como uma resposta clara”, mas como “um espaço silencioso entre o que conheço e o que não consigo compreender”.

Lida na íntegra pela própria autora, a reflexão partiu do silêncio como lugar inaugural da fé.

“Antes de ser palavra, foi gesto. Antes de ser crença, foi sensação. Antes de ser escolha, foi herança”, afirmou, recusando uma visão da fé como doutrina rígida ou certeza adquirida. Pelo contrário, Catarina Valadão descreveu-a como “um vazio habitável, sem forma definida, mas cheio de presença”.

Ao longo da intervenção, a oradora sublinhou que a fé se revela muitas vezes não pela luz, mas pela sombra.

“Ela começa no exato momento em que o mundo, tal como o desenhámos, deixa de fazer sentido”, disse, acrescentando que é nas fissuras da vida que a fé se transforma num organismo vivo, em constante movimento, e não numa estrutura fixa.

Um dos pontos mais marcantes da reflexão foi a defesa da dúvida como parte essencial do caminho espiritual.

“A fé desperta no reconhecimento de que algumas perguntas não querem respostas”, afirmou, sustentando que “é na dúvida que a fé se torna imperfeita e, por isso mesmo, tão real e profunda”. Para Catarina Valadão, acreditar não é possuir certezas, mas “aceitar habitar o mistério.”

A dimensão pessoal e intransferível da fé foi também fortemente destacada.

“Ninguém pode acreditar por nós”, afirmou, explicando que cada pessoa vive a fé a partir da sua história, das suas feridas e do seu percurso.

“Ela é íntima, pessoal e rigorosamente intransferível.”

Na quarta parte do texto, a convidada falou da multiplicidade do sagrado, reconhecendo que nem todos o nomeiam da mesma forma.

“Há quem lhe chame Deus. Outros recusam chamá-lo, temendo que a palavra seja pequena demais para a grandeza do que sentem”, disse.

Para a autora, nenhuma dessas formas é menor ou ilegítima, porque “a fé molda-se ao corpo que a sustém e à história que atravessa”.

Quando confrontada com a fragilidade extrema, uma situação de doença, de perda ou de proximidade da morte, a fé deixa de ser abstrata.

“Torna-se matéria bruta”, afirmou, “o último recurso da esperança”.

Mas,  Catarina Valadão alertou também para a dimensão ética da fé: “Se ela não nos fizer olhar para o sofrimento dos outros, então é apenas egoísmo espiritual.”

Como é habitual nas Conversas na Sacristia, seguiu-se um momento de tertúlia, com intervenções do público e diálogo aberto. Questionada sobre o significado de afirmar que ninguém acredita pelos outros, a oradora esclareceu: “Tal como a dor e a felicidade, a fé é algo que cada um sente por si, mesmo quando é partilhada.”

A uma provocação final – que pergunta faria a Deus se tivesse resposta imediata- Catarina Valadão respondeu sem hesitação: “Por que é que a vida é tão injusta e tão irónica?”, reconhecendo ainda que “Deus também é humor”.

Sobre a possibilidade de um ateu ter fé, deixou uma afirmação clara: “Todos nós acreditamos em alguma coisa. Todos nós temos esperança em alguma coisa.” E resumiu, já no final do encontro, aquilo que para si define a fé: “Se tivesse de a dizer numa só palavra, seria esperança.”

A Conversa na Sacristia, uma iniciativa da pastoral da Cultura da Igreja de São José,  voltou a afirmar-se como um espaço singular de escuta, questionamento e partilha, onde a fé não surge como resposta fechada, mas como uma pergunta aberta que continua a unir quem se dispõe a habitá-la.

 

Scroll to Top