“A Igreja só será fiel se aprender esta gramática de Cristo: aproximar-nos, tocar, curar, servir, não julgar”

O lugar dos cristãos é junto dos que “precisam dos pés lavados”, afirmou o bispo de Angra esta noite. na Sé

O bispo de Angra presidiu esta noite à missa da Ceia do Senhor, a primeira grande celebração do Tríduo Pascal, na Sé e desafiou os cristãos a não desligarem a celebração da Eucaristia da vida concreta aproximando-se, tocando, curando, servindo e não julgando, sobretudo os mais frágeis.

“A Quinta-feira Santa é isto: a Eucaristia no altar e o amor no chão da vida; o Corpo de Cristo partido e o corpo de Cristo ferido nos pobres; a fé que se ajoelha e o amor que levanta” afirmou D. Armando Esteves Domingues aos fieis católicos presentes nesta celebração que recorda a noite em que Jesus instituiu a Eucaristia e lembrou o mandamento do amor através do serviço.

“Jesus não nos deixou apenas um altar para celebrarmos a missa. Com o altar, Ele dá-nos também uma bacia e uma toalha, símbolos do serviço” afirmou o prelado diocesano

“Lavar os pés é lembrar que Jesus também precisou daqueles a quem lavou os pés” afirmou o bispo de Angra dirigindo-se especialmente aos 12 homens a quem hoje lavou ele próprio os pés repetindo o gesto de Jesus e que são utentes do projeto Novo Rumo, um apoio social para pessoas em situação de sem abrigo.

“A Igreja de Cristo precisa de vós, da vossa palavra e sugestões, da vossa experiência de vida e da vossa vontade de vencer os limites que a vida hoje vos traz. Coragem, com pés novos e coração animado, vamos em frente”, sublinhou o bispo de Angra.

Na tradição do lavar os pés de irmãos da comunidade, especialmente neste dia, a Igreja, disse o bispo de Angra, faz uma confissão de fé: “Deus não tem nojo das nossas feridas, Deus não se afasta das nossas quedas, Deus inclina-Se sobre a nossa pobreza”.

Por isso, acrescentou, o verdadeiro amor  é “o que se dobra para lavar os pés, o  que reparte o pão, o que derrama o sangue e não recua perante a cruz”.

E prosseguiu: “É um amor que se completa se for recíproco e exige equilíbrio: dar sem se anular e receber sem se tornar dependente. É encontro de duas liberdades que decidem caminhar lado a lado com o compromisso de viver uma pela outra. E isto muda tudo: não se trata de amar como nos apetece ou é conveniente. Amar como Ele é gastar-se como Ele. Amar é perdoar, é permanecer, é sofrer. Amar é carregar o outro quando ele já não consegue caminhar sozinho, é dar a vida pelo irmão sem medo da cruz”, enfatizou lembrando que este é o principal mandamento que a Igreja deve aprender.

“Nós, Igreja, só seremos fiéis se aprendermos esta gramática de Cristo: aproximar-nos, tocar, curar, servir, não julgar”, disse.

Nesta quinta-feira santa, a Igreja celebra igualmente a instituição da Eucaristia, que é a “expressão máxima” da presença de Cristo.

“Receber o Pão partido é entrar na lógica do pão que se reparte e é distribuído em amor aos irmãos. Quem bebe o cálice da Aliança entra na lógica da entrega da própria vida. A Eucaristia sem caridade é vazia, mas a caridade sem Eucaristia é frágil”, afirmou D. Armando Esteves Domingues, agradecendo também hoje o dom do sacerdócio ministerial, os padres, “os únicos que congregam o povo santo de Deus para celebrar a Eucaristia”.

Doze apóstolos que apenas querem ser iguais a todos os membros da comunidade

César Gomes regressou hoje à Igreja após muitos anos de ausência, num momento que descreve como profundamente significativo. “Precisava de regressar e quando nos deram esta possibilidade disse logo que também queria ir”, afirmou. Apesar de não ter participado nos ensaios, mostrou confiança nos restantes participantes: “Farei o que eles fizerem”. Divorciado, com filhos e um percurso marcado por dificuldades, incluindo a falta de habitação estável e algumas dependências atualmente controladas, encontrou apoio na instituição Novo Rumo, onde vive e que hoje considera a sua família.

Também Lénio Parreira integra este grupo e partilhou o impacto desta iniciativa na sua vida. A enfrentar problemas de saúde e alguma incompreensão familiar, viu nesta participação uma oportunidade de integração.

“É uma forma de mostrar que nós, que estamos institucionalizados, também fazemos parte da comunidade”, explicou. Há três anos a viver na casa, Lénio procura envolver-se em atividades que promovam a inclusão e não esconde a emoção: “Hoje tenho a certeza de que me vou sentir uma pessoa como as outras e isso é muito importante”.

A diretora técnica do Novo Rumo, Egla Alves, revelou que a iniciativa surgiu no âmbito da relação já existente com a paróquia da Sé. Ao longo dos anos, têm sido promovidas várias atividades conjuntas, incluindo visitas de crianças da catequese e ações solidárias. Este trabalho de proximidade acabou por dar origem ao convite para participação na celebração religiosa. Inicialmente, havia receios por parte dos utentes, sobretudo devido à exposição pública e ao medo de julgamento, mas a adesão acabou por surpreender positivamente.

Segundo a responsável, a iniciativa foi cuidadosamente preparada, com visitas prévias à igreja e atenção especial à apresentação dos participantes, garantindo que todos se sentissem confortáveis e respeitados. O envolvimento de figuras conhecidas e próximas, como o pároco e o bispo, também ajudou a reforçar a confiança do grupo.

Entre os 12 apóstolos  estão homens com idades compreendidas entre os 25 e os 66 anos de idade. Atualmente a casa tem cerca de duas dezenas de utentes.

Com esta Missa, a Igreja dá início ao Tríduo Pascal e procura recordar aquela última Ceia em que o senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tendo amado até ao fim os seus que estavam no mundo, ofereceu a Deus, sob as espécies do pão e o do vinho, o seu Corpo e Sangue. Enquanto se canta o Glória, tocam-se os sinos e uma vez terminado, não voltarão a tocar até à Vigília Pascal.

O lava-pés, que segundo a tradição se faz a algumas pessoas escolhidas entre o povo de Deus, manifesta o serviço e a caridade de Cristo que veio ao mundo não para ser servido mas para servir.

Terminada a oração depois da comunhão, organiza-se uma procissão através da igreja, com incenso e velas, na qual se leva a Eucaristia para a capela da reposição.

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