A Luz que vence a noite

Pelo cónego Hélder Miranda Alexandre

Foto: Facebook do padre Hélder Miranda Alexandre

“Não me importaria de renunciar a toda a minha música para poder ter escrito o Precónio Pascal” – terá afirmado Mozart

Os acontecimentos da Semana Santa, especialmente os do Tríduo Pascal, constituem o verdadeiro coração do ano litúrgico cristão. Particularmente a Vigília Pascal, a maior de todas as vigílias, invade a noite com a luz da fé em Cristo Ressuscitado. O rito começa na penumbra, criando um ambiente de solenidade singular. O foco não está na bênção do fogo, mas na luz que emerge das trevas, simbolizada pelo círio pascal.

O Precónio Pascal surge com uma melodia marcante, envolvida por um ambiente solene e quase teatral, que lhe confere força. Este cântico monódico proclama as maravilhas de Deus, louvando o círio que representa Cristo Ressuscitado.

É um hino de louvor à noite das trevas do pecado, agora vencida pela luz de Cristo.

A palavra “precónio” significa “anúncio” do grande acontecimento da ressurreição do Senhor. Na verdade, um dos aspetos curiosos dos códices do Precónio Pascal é a sua apresentação em fólios longos de pergaminho, normalmente enrolados, com ilustrações invertidas paralelas ao texto e à notação musical. Este formato permitia que, enquanto o cantor executava o Precónio, o povo contemplava as imagens, criando uma experiência audiovisual com finalidade catequética, ainda que não acessível a todos.

O hino do “Exultet”, enquanto sacramental solene, contém elementos que contribuem para a vivência profunda da Vigília Pascal. A sua estrutura segue o estilo dos Prefácios, com diálogo introdutório seguido da proclamação das grandezas de Deus. Divide-se em quatro partes: exórdio ou invocação, canto de louvor, oferta e oração. Inicia com um apelo à alegria pascal – “Exulte” ou “Exultet” – que envolve os coros dos anjos, as assembleias celestes, a terra e a assembleia cristã. A segunda secção proclama os louvores de Deus pelas maravilhas do universo. Na terceira, celebra-se “a Noite” em que Deus libertou o Seu Povo do Egito, agora vista como a noite do novo êxodo: do pecado para a graça, da escravidão para a liberdade dos filhos de Deus, realizada por Cristo ressuscitado. Esta noite é “ditosa” porque iluminada pela Luz de Cristo, o verdadeiro “astro da manhã que não tem ocaso”.

Destaca-se a afirmação atribuída a Santo Agostinho: “Ó ditosa culpa que nos mereceu tão grande Redentor”, expressão poética inspirada na teologia paulina: “onde abundou o pecado superabundou a graça” (Rom 5, 20). A secção final é litúrgica, com influência da Oração Eucarística, onde o círio é oferecido a Deus, tal como a oferta do Corpo e Sangue do Senhor, concluindo com uma oração de carácter doxológico.

O círio é o centro da primeira parte da celebração, símbolo expressivo de Cristo ressuscitado, sendo incensado e aclamado por todos os participantes da libertação celebrada na Páscoa. Este exórdio, verdadeiro sumário da noite pascal, não esgota a celebração, mas provoca intensidade.

Perdi o meu pai há poucas semanas. Fiquei com receio de que isso abalasse a minha fé. No entanto, o coração levou-me para caminhos desconhecidos. Sei que ele vive n`Aquele que dá a vida. Parece estranho, mas da noite do sofrimento surge uma luz sem argumentos racionais. Vivi o Tríduo Pascal um pouco mais cedo. Pode parecer consolo, mas neste momento é certeza. Sem a Ressurreição tudo se desmorona.

 

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