A pedagogia da Quaresma, a partir do sinal das cinzas

Por Carmo Rodeia*

 

A Quaresma abre-se com um gesto desconcertante: a imposição das cinzas. Mas aquilo que poderia parecer um rito breve e austero é, na verdade, a porta de entrada para um caminho muito mais vasto. As cinzas não são o centro; são o limiar. O que começa ali é um tempo inteiro de reorientação do olhar, de purificação do desejo, de regresso ao essencial.

Num mundo saturado de ruído, eficácia e autoafirmação, a Quaresma propõe uma gramática diferente. Ao escutarmos “convertei-vos e acreditai no Evangelho”, não somos empurrados para o desprezo de nós mesmos, mas convidados a recuperar a verdade da criatura. Por isso e em primeiro lugar, as cinzas recordam a nossa condição; a Quaresma ensina-nos a habitá-la com confiança.

Mais do que um exercício devocional, este tempo litúrgico condensa uma visão do humano, da Igreja e de Deus. Se o gesto inicial nos situa na humildade, o percurso quaresmal educa-nos na liberdade. Não se trata de negar o mundo, mas de o atravessar com outro critério. A identidade cristã não nasce da performance, nem da influência, nem da vitória ruidosa; nasce da configuração a Jesus Cristo e à lógica pascal do dom, o dom do amor, de sermos filhos amados.

Para mim, a Quaresma começa quando aceito desmontar as ilusões que fabrico sobre mim própria. As cinzas apenas o tornam visível. O verdadeiro trabalho é interior: reconhecer que não me basto, que não me salvo a mim mesma, que a minha vida é recebida. Num tempo que idolatra a autonomia absoluta, esta aprendizagem tem algo de contracultural e custa. Em primeiro lugar a mim mesma. E, mesmo que não consiga, o que acontece frequentemente, procuro sempre regressar a este exercício convencida de que esta é a conversão a que todos somos chamados.

Ao olhar para a cruz, sinal por excelência deste tempo- mais que não seja porque todas as imagens que pretendem ilustrar a Quaresma a mostram-  percebo que o centro da fé não é a superioridade exibida, mas a coerência de um amor levado até ao fim. Ele não venceu esmagando; venceu entregando-se. Amou-nos e ama-nos. Essa é a nossa grande e absoluta certeza: somos amados e já fomos salvos por esse amor, sem mas nem porquê.

A Quaresma convida-me, assim a deixar que esta certeza reconfigure a minha ideia de sucesso, de autoridade, até mesmo a minha compreensão da presença da Igreja na sociedade. E isso nem sempre é pacífico. Há inquietações, revoltas, noites mal dormidas, um combate silencioso entre o Evangelho e as lógicas dominantes que não deixam de seduzir, como o deserto tentou Jesus e os dias corridos nos continuam a tentar nos pequenos gestos ou na falta deles.

Também nós, cristãos – e eu em primeiro lugar – não estamos imunes ao fascínio dos números, do impacto, do prestígio religioso. Daí que a Quaresma funcione como um espelho exigente: lembra-nos que o caminho de Deus passa pe, pelo serviço, pelo lugar discreto. Se esse é o estilo de Jesus, por que razão insistimos em procurar outro?

Num tempo enamorado de líderes invencíveis e vitórias estrondosas, a disciplina quaresmal soa quase a uma ascese difícil de exercitar, quanto mais cumprir. Jejum, esmola e oração não são práticas para exibição; são exercícios de verdade. Quando Jesus recomenda discrição “quando jejuares… quando deres esmola…” convida-nos a sair do palco, a educarmos o coração nesse território escondido onde só Deus vê. E isso basta. Ou bastaria, não fossem as tais tentações.

Este tempo não é um peso estéril. Há sobriedade, exame de consciência, renúncia, sim. Mas há sobretudo oportunidade. “Agora é o tempo favorável.” Agora, apesar do cansaço coletivo, das guerras que nos inquietam, das feridas que persistem, das nódoas negras que deixam o diz que diz, a calúnia, a falta de consideração, a injustiça, as redes sociais… Mas a conversão não espera circunstâncias ideais; começa no concreto de hoje. E a pedagogia quaresmal é feita de pequenos passos: um tempo mais fiel de oração, a renúncia ao que dispersa, uma partilha que alivia a vida de alguém, palavras escolhidas com mais cuidado para não ferir. Até o modo como falamos pode tornar-se lugar de conversão, como alerta o Papa na sua mensagem, na qual pede jejum de palavras. Não se trata de heroísmos grandiosos, mas de coerências discretas.

Descubro, então, um paradoxo que a Quaresma me ensina ano após ano: é na fraqueza assumida que se abre espaço para a força de Deus. As cinzas recordam a fragilidade; o caminho quaresmal transforma-a em lugar de encontro. Não penso na morte, mas no começo. Não na derrota, mas na possibilidade real de transformação.

Por isso, quando recebo as cinzas, acolho-as como o primeiro passo de um itinerário. Elas dizem-me que tudo o que é exterior passa, mas também que sou infinitamente amada. A Quaresma, sob esse sinal humilde, devolve-me à esperança: a Páscoa não é metáfora. É promessa concreta de vida renovada e… começa agora.

*Este texto foi publicado hoje no PontoSJ

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