A Solidão que mora ao nosso lado

Por António Maria Gonçalves

Foto: Igreja Açores/AMG

No próximo dia 26 de julho, a Igreja celebra a memória de Santa Ana e São Joaquim, avós de Jesus, e assinala o VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos. Na sua mensagem para esta ocasião, o Papa Leão XIV dirige um apelo simples, mas profundamente revolucionário: visitar os avós, aproximar-se dos idosos da família e daqueles que não recebem a visita de ninguém.

À primeira vista, parece um convite singelo. Na verdade, é um diagnóstico e uma resposta a uma das maiores pobrezas do nosso tempo: a solidão.

Nas nossas ilhas, onde tantas vezes nos orgulhamos da proximidade das comunidades, da força dos laços familiares e da cultura da entreajuda, existe uma realidade silenciosa que cresce diante dos nossos olhos. Há idosos que vivem sozinhos, aguardando durante dias ou semanas uma visita, uma conversa, um gesto de atenção. Há outros que vivem rodeados de familiares e, ainda assim, experimentam uma solidão ainda mais dolorosa: a da indiferença.

Porque a solidão não é apenas a ausência de companhia. É a ausência de presença verdadeira.

Há pais e mães que deram a vida pelos seus filhos e que hoje são tratados como um incómodo. Há avós que gostariam de contar histórias, recordar tempos passados, transmitir experiências, mas são interrompidos, silenciados ou ignorados. Há idosos cuja palavra parece ter perdido valor numa sociedade que idolatra a juventude, a rapidez e a produtividade.

Muitos não sofrem maus-tratos físicos. Sofrem algo mais subtil e, por vezes, mais cruel: o abandono afetivo.

As instituições sociais realizam um trabalho meritório e indispensável. Os lares, os centros de dia, os serviços de apoio domiciliário e tantos profissionais dedicados merecem o nosso reconhecimento. Contudo, nem a melhor instituição consegue substituir aquilo que mais falta a muitos idosos: o afeto, a escuta, a proximidade e o sentimento de pertença.

Nenhum regulamento, nenhuma prestação social, nenhuma resposta técnica pode oferecer o calor de uma visita feita por amor.

Talvez seja este o grande desafio que o Papa nos coloca. Não apenas organizar serviços, mas reconstruir relações. Não apenas cuidar dos corpos, mas também cuidar dos corações.

Os idosos não são um peso da sociedade. São a sua memória viva. Neles habita a história das nossas famílias, das nossas comunidades e das nossas ilhas. Quando deixamos um idoso entregue à solidão, não estamos apenas a abandonar uma pessoa; estamos a perder uma parte de nós mesmos.

Neste Dia Mundial dos Avós e dos Idosos que se aproxima, talvez valha a pena cada um interrogar-se: há quanto tempo não visito aquele familiar idoso? Há quanto tempo não me sento sem pressa para ouvir um avô, uma avó, um vizinho ou um amigo de idade avançada? Há quanto tempo não ofereço um pouco do meu tempo a quem já deu tanto do seu?

O amor mede-se pelo tempo que estamos dispostos a oferecer.

Santa Ana e São Joaquim ensinam-nos que as gerações não são concorrentes, mas herdeiras umas das outras. O Papa recorda-nos que os idosos não devem viver nas margens da vida comunitária. E a nossa consciência diz-nos que nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente humana enquanto permitir que tantos dos seus velhos envelheçam no abandono da solidão.

Escrevo estas palavras aos 71 anos de idade. Faço-o não por me sentir atingido por esta realidade, felizmente distante da minha experiência pessoal, mas porque a observo à minha volta e porque me inquieta profundamente. Vejo demasiados idosos esquecidos, demasiadas vidas remetidas para um silêncio injusto, demasiados corações à espera de um gesto de atenção que tarda em chegar.

Talvez a resposta comece por algo muito simples.

Bater a uma porta.

Entrar.

Sentar-se.

Ouvir.

Porque há idosos que morrem muitos anos antes da morte, quando deixam de ser escutados.

Que este próximo 26 de julho,  Dia Mundial dos Avós e dos Idosos não seja apenas uma data no calendário, mas um apelo à nossa consciência e ao nosso coração. Ainda vamos a tempo de devolver dignidade a quem nos deu a vida, a educação, a memória e o exemplo. Ainda vamos a tempo de transformar a solidão em companhia, o abandono em presença e o esquecimento em gratidão.

E talvez, nesse dia, descubramos que a visita que julgávamos levar, era, afinal, a graça que nos faltava receber.

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