Pelo padre Nuno Pacheco de Sousa

Foi talvez no antepenúltimo ano de formação no Seminário de Angra que me vi a braços com uma mudança de paradigma que me ajudou, em muito, na forma como pensava e olhava para a grande decisão. O acaso foi mesmo ter lido uma rubrica quando iniciava a semana dos seminários que, por sinal, foi vivida aqui em Vila Franca do Campo. Lembro-me de ter folheado a Visão, ou uma outra qualquer revista, e de ter começado a ler algumas coisas, até me deparar com a expressão, confesso que já não sei de quem, onde o que nos era pedido prendia-se com o facto de ser a vida a nos escolher para o melhor e não a de sermos nós a escolher esta vida, aprisionando-a em vontades e lógicas. Nós ocidentais e jovens, sempre no frenesim de descobrirmos as certezas matemáticas de cada coisa, de tentar encontrar a fórmula química por detrás de qualquer reação que nos estremece com a vida ou com as convicções, não estamos acostumados, de todo, a sermos confrontados com este tipo de pensamento que pode bem nos libertar e expandir a nossa forma de ser e viver.

Exupéry também escreveu que, para fazer uma mão cheia de homens sonhar e concretizar a empresa de uma construção de um barco, é primeiro necessário fazê-los sonhar com a imensidão do mar aberto, do azul intenso e com a frescura das terras desconhecidas. Aí certamente os homens sentir-se-ão empolgados em desbravar a floresta, começando a analisar as árvores, procurando as melhores de todas para a construção inicial e sine qua non da sua epopeia.

A oração, tal como os encontros ou em qualquer projeto que mantenhamos, conjuga-se sempre num presente futurante. Terá sido esta a beleza vital contida na oração do Pai Nosso que impeliu Jesus para esta missão; que foi esta vida a tomá-lo em pleno, não como uma fatalidade ou destino, mas como uma liberdade ulterior que pode assomar ao concreto da nossa vida tornando possível experiências fantásticas.

Deixar a vida nos escolher, é deixar que tudo o que faz parte do cosmos, tudo o que integra o criado, possa unir-se ao que nós somos e nos catapultar enquanto dínamos de um futuro sempre presente.

Foi isto que também aconteceu com o carpinteiro José, no silêncio de um sono, que se revelou sonho, sem passos à volta.

*Este artigo foi publicado no jornal A Crença, na rubrica Entre Serrotes