Iniciativa decorreu esta noite no coro alto do Convento da Esperança

A Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres promoveu esta noite uma conferência com o jesuíta padre Hermínio Vitorino, que chamou a atenção para um dos maiores desafios espirituais e humanos da atualidade: a crescente fragmentação da vida, que impede o cultivo da interioridade e dificulta o encontro consigo próprio e com Deus.
“A interioridade é hoje uma urgência humana e espiritual. Só quem cultiva a vida interior se reconhece na própria fragilidade e permite que Deus atue no mais fundo de si”, afirmou o presbítero da Companhia de Jesus na conferência do Advento “Urgência da Interioridade – Uma Visão Inaciana da Interioridade”, que levantou questões como “O que entendemos por interioridade?” e “Como cuidar da interioridade?”.
Numa sociedade saturada de estímulos e marcada pela insatisfação, o convite do Advento, disse, “é regressar ao silêncio onde nasce a paz, a esperança e a verdadeira comunhão com Deus e com os outros”.
Jesuíta há 35 anos e sacerdote há 23, natural de São Jorge, o orador abriu a sessão lançando questões essenciais sobre a condição humana e a fragilidade que marca o quotidiano moderno. Explicou que práticas e tradições espirituais que noutros tempos estruturavam a vida interior — como orações, procissões ou a própria vida familiar — já não bastam para gerar profundidade num contexto acelerado, disperso e saturado de estímulos.
Segundo o padre Hermínio Vitorino “um dos problemas dos nossos dias é vivermos uma vida fragmentada”, marcada por racionalidades incompletas e por um ativismo que nos distancia do essencial. Por isso, insistiu na necessidade de reencontrar a interioridade como dimensão antropológica fundamental, lugar onde a pessoa recupera a capacidade de sentir, refletir e discernir.
O sacerdote sublinhou que a interioridade é o “lugar do silêncio”, onde um eu se encontra com um tu, acolhendo o outro no seu mistério. Mas este espaço, afirmou, tornou-se difícil de habitar: “Vivemos muito conectados por fora e muito pouco ligados ao interior.” Alertou, ainda, para uma crescente infantilização da maturidade humana, que fragiliza o compromisso e impede o aprofundamento da fé.
Ao longo da conferência, apresentou caminhos práticos para reconstruir a vida interior num mundo fragmentado: “educar a sensibilidade”, “ruminar a vida com calma”, “saborear os pequenos detalhes do quotidiano”, “aprender a estar em silêncio e contemplar a realidade com um olhar mais profundo”.
Por outro lado, destacou que a interioridade não é emoção nem fuga, mas uma elevação espiritual que abre a pessoa ao amor, à benevolência e à paz.
O padre Hermínio Vitorino alertou também para a “normalização do mal, da guerra e da morte”, afirmando que um ser humano sem vida interior vive apenas pelo instinto.
Recordou que, no exterior, cada um pode construir personagens, mas não no interior, onde não há máscaras. Por isso, considerou essencial o “exercício da solidão habitada, que não é isolamento, mas condição de profundidade e comunhão”.
Numa referência à devoção ao Senhor Santo Cristo, o sacerdote sublinhou a importância de “passar tempo diante da imagem”, deixando que o olhar de Cristo — marcado pelo sofrimento e pela paz — ajude a compreender a própria interioridade e a desenvolver a capacidade de perdão e reconciliação.
O provedor da Irmandade, Carlos Faria Maia, sublinhou a importância da iniciativa, destacando que a conferência “A urgência da interioridade: uma iniciação inaciana à profundidade” pretende ajudar a comunidade a crescer na fé, no discernimento e no serviço aos outros. Enalteceu o contributo do presbítero convidado, cuja reflexão oferecerá, segundo afirmou, “um apoio precioso para que cada cristão redescubra o silêncio, a profundidade e a maturidade espiritual num tempo marcado pela dispersão”.