Açorianos refletem caminho da Igreja à margem de encontro nacional: “o caminho é exigente mas irreversível”

À margem do Encontro Nacional sobre a Sinodalidade- “Da escuta à missão: espiritualidade sinodal e implicações pastorais”- que decorreu em Fátima,  Monsenhor José Constância, o Padre José Júlio Rocha e Francisco Almeida Medeiros – conversaram com o Sítio Igreja Açores sobre o momento atual da sinodalidade na Igreja e as expectativas para o futuro próximo

foto: Igreja Açorers/CR

O debate foi inaugurado com a questão central lançada: “Depois de quase cinco anos de escuta, como é que passamos agora à ação, para que a sinodalidade se concretize verdadeiramente no trabalho da Igreja?”

Para Monsenhor José Constância, o tempo de recolha de contributos tem sido “profícuo”, mas o momento atual exige decisões práticas em todas as instâncias eclesiais, desde paróquias e ouvidorias até conselhos pastorais e serviços centrais.

“A escuta já foi feita; agora precisamos exercitar a sinodalidade”, afirmou, defendendo formação não apenas teórica, mas sobretudo prática.

O Padre José Júlio Rocha recordou que várias medidas já foram postas em marcha pelo bispo diocesano, incluindo a obrigatoriedade dos conselhos pastorais, a revisão dos estatutos e a criação de um serviço de apoio à piedade popular. Mas,  advertiu que a sinodalidade não é uma moda nem um capricho conjuntural: “Só se cansa da sinodalidade quem pensa que isto é novidade. A Igreja foi sinodal desde o princípio. O Papa Francisco apenas retomou essa essência.”

O sacerdote, que é agora o coordenador da Equipa Sinodal Diocesana, sublinhou ainda que a Igreja “não é democracia nem ditadura, é comunhão”, e que a hierarquia está ao serviço da sinodalidade: “A sinodalidade é mais fundamental do que a própria dimensão hierárquica.”

Para Francisco Almeida Medeiros, que integra os conselhos pastorais paroquial e diocesano, tanto leigos como clero ainda enfrentam dificuldades de compreensão e adesão.

“Parece-me que nem uns nem outros estão devidamente esclarecidos sobre o que é sinodalidade”, disse. Entre os leigos, persistem confusões: uns imaginam um sistema parlamentar; outros receiam que seja apenas “uma conversa bonita que não dará em nada”. Por parte dos padres, identifica receios de perda de autoridade e o peso do cansaço pastoral: “Não são contra o caminho, mas ainda não viram passos concretos nem frutos visíveis.”

As resistências, prossegue Monsenhor José Constância, têm raízes profundas: “Temos dificuldade em construir uma Igreja que seja comunidade, e isso leva-nos a resistir.”

Para o presbítero, que já integrava a primeira comissão sinodal diocesana, criada ainda no tempo do episcopado de D. João Lavrador,  a repetição do tema ao longo dos últimos anos- desde sínodos anteriores à preparação do atual processo – gerou também desgaste. No entanto, considera que o maior obstáculo não é doutrinal, mas prático: “Falamos muito de sinodalidade porque ela ainda não aconteceu plenamente.”

Uma das novidades destacadas na conversa foi o papel que a equipa sinodal terá na preparação das próximas visitas pastorais do bispo, conferindo-lhes uma verdadeira dimensão comunitária.

As visitas pastorais, explicou o Padre José Júlio, “Devem ser momentos de comunhão e discernimento, em que o bispo conhece a realidade e trilha um caminho conjunto com as comunidades.” Por isso, estão previstos encontros de conversação no Espírito, quer para balanço das visitas já realizadas — nas ilhas das Flores, São Jorge, Santa Maria e Graciosa —, quer para preparar as comunidades que receberão o bispo este ano em Vila Franca do Campo, Fenais da Vera Cruz e Capelas.

“Este é um percurso que exige paciência ativa, mudança de mentalidades e um esforço conjunto entre clero e leigos”, diz ainda o presbítero.

“A Igreja terá de continuar a avançar numa lógica de comunhão, discernimento e missão partilhada”, acrescenta Monsenhor Constãncia.

Segundo Francisco Medeiros, as comunidades estarão recetivas, mas é essencial que os encontros sejam simples e replicáveis: “Não vamos avaliar ninguém; vamos escutar e discernir. A decisão nunca é o somatório das opiniões de cada um, mas a descoberta de um caminho novo.” Recordou ainda que a participação dos leigos exige clarificação do método: “Se sinodalidade for entendida como mais reuniões e mais papéis, estamos a começar mal.”

No horizonte mais amplo, Monsenhor José Constância insiste na necessidade de responder “com testemunho” às resistências e ao descrédito. O Padre José Júlio espera que até ao verão todas as paróquias, ouvidorias e unidades pastorais tenham conselhos pastorais ativos e enriquecidos com novos membros, incluindo pessoas que não pertencem necessariamente às estruturas habituais da Igreja. Para Francisco Medeiros, o essencial é que a diocese interiorize um princípio: “O modo de ser Igreja é a corresponsabilidade. Começa no coração, mas tem de se traduzir no modo como decidimos e servimos.”

O II Encontro Sinodal Nacional decorre durante este dia de sábado em Fátima. A abertura dos trabalho foi feita por D. José Ornelas e prosseguiu com o bispo de Coimbra que apresentou uma reflexão sobre a espiritualidade sinodal e as implicações pastorais da sinodalidade. Ainda durante a manhã serão apresentadas partilhas das dioceses de tarde haverá trabalhos de grupo.

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