Arquivar a esperança

Por António Pedro Costa

Foto: António Pedro Costa/IA

O Jubileu da Esperança chegou ao fim. As portas santas fecharam-se num gesto litúrgico carregado de simbolismo: terminou um tempo extraordinário, regressa-se à normalidade. Terá ele sido vivido à luz da nossa realidade insular, marcada pela fé enraizada, pela memória das romarias, pelo Espírito Santo, pela experiência da emigração, do trabalho duro, da solidariedade comunitária e também por feridas sociais que persistentemente pedem atenção?

Neste momento, a pergunta impõe-se, o que ficou? Que marcas deixou este jubileu na Diocese de Angra, historicamente prudente, conservadora, onde tantas vezes a fé se vive mais por hábito do que por conversão?

Apesar dos persistentes apelos do Bispo de Angra, das catequeses, das peregrinações e de tantos católicos que aprenderam a soletrar a letra do hino do Jubileu, sentiu-se, que nem todos foram tocados, nem todos se deixaram interpelar.

O Jubileu iniciado por Francisco, com a sua linguagem pastoral de portas abertas, periferias, misericórdia e esperança concreta, e encerrado já sob o pontificado do Papa Leão XIV, ficará gravado na memória da Igreja como um tempo carregado de simbolismo e de continuidade, marcado por feridas abertas no mundo e por uma humanidade à procura de sentido.

Mesmo sendo uma diocese insular, espalhada por nove ilhas, onde a distância e as limitações logísticas fazem parte da normalidade pastoral, este tempo de Esperança assumiu contornos muito próprios. Longe dos grandes centros e das multidões que atravessam as Portas Santas em Roma, a vivência jubilar fez-se de proximidade, de passos dados em comunidade e de fé partilhada de forma simples.

As romarias foram expressão viva dessa fé que caminha, levando consigo intenções, promessas e silêncios. Cada passo foi oração, cada cansaço oferecido, cada encontro um sinal de comunhão. Houve também lugar para múltiplos atos de piedade, celebrações penitenciais, adorações eucarísticas e momentos de catequese jubilar que procuraram tocar os corações de quantos aceitaram viver e aproveitar este tempo santo. Em algumas comunidades, sentiu-se um novo fôlego espiritual, uma vontade de recomeçar, de sarar feridas antigas e de reforçar laços enfraquecidos pela distância ou pelas exigências da vida moderna.

É verdade que os constrangimentos da nossa diocese são reais e, por vezes, pesados. Nem sempre é fácil reunir, deslocar, planear ou acompanhar. Contudo, talvez por isso mesmo, o Jubileu tenha sido ainda mais significativo. Mostrou que a graça não depende da facilidade, que a esperança não se mede pela abundância de meios, mas pela disponibilidade do coração.

Agora que as Portas Santas se fecharam em Roma e simbolicamente também na Diocese de Angra, fica o desafio maior: não deixar que se feche aquilo que foi aberto no íntimo dos crentes. O Jubileu da Esperança foi um tempo favorável, mas, sobretudo, foi um apelo. Um apelo a continuar, a perseverar, a transformar aquilo que foi celebrado em tempo santo.

Importa, agora que o Jubileu terminou, resistir à tentação de arquivar o tema da esperança até ao próximo grande evento. Se a Diocese de Angra quer verdadeiramente escancarar as suas portas, janelas e frestas, como tantas vezes se diz em linguagem mais profética, terá de aceitar que o ar fresco entre quando se abrem janelas, e não apenas quando se arejam palavras.

Abrir frestas significa investir seriamente numa pastoral de proximidade, menos centrada na manutenção do que existe e mais atenta às pessoas concretas. Significa escutar as comunidades, inclusive as mais pobres, sem respostas prontas. Significa formar agentes pastorais, capacidade de diálogo e sensibilidade social. Significa aceitar que a tradição não é um museu, mas uma raiz viva que cresce e se transforma.

O Jubileu da Esperança acabou, mas a esperança não pode acabar com ele. Se nada mudar, se tudo regressar ao mesmo ritmo confortável, então as portas santas terão sido apenas portas de madeira.

 

 

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