As cruzes de prata e a Outra…

Por Francisco Maduro Dias

Maduro Dias, presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz

 

A mais de 2000 anos de distância perdemos a noção do que significava, naquele tempo, a cruz e ser crucificado. A névoa dos séculos cobriu a dureza, a beleza e a riqueza da cruz que Simão de Cirene teve de ajudar a transportar …

Discute-se, por exemplo e bem ao modo do Ocidente, se o santo sudário de Turim é mesmo o que se diz ser, se os pregos eram pregados na mão ou nos pulsos, se o condenado devia transportar a cruz ou apenas o madeiro que, na horizontal, ia servir para o segurar e prender. De resto…

Quem estuda ou gosta de História talvez chegue aos arredores do que realmente interessa, recordando a tremenda resposta do poder romano, perante a revolta liderada por Spartacus no ano 73 aC.

6000 escravos e deserdados da sorte, o mais baixo da sociedade e da comunidade… melhor dizendo aquele grupo de seres que nem eram gente porque eram escravos, foram, depois de derrotados, presos, pendurados e deixados morrer, ali ao sol, à chuva, ao vento e ao olhar dos outros, ao longo das margens da via Ápia…. Eram para eles as cruzes!

Por isso São Paulo escreveu (Gálatas 3:28) “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre…” e, por isso, eles acreditaram.

Ao longo do tempo essa fé dos deserdados, dos que nem tinham mesa nem lugar à mesa, tomou conta da vida dos que haviam herdado alguma coisa, dos que tinham mesa. E encheu as ruas, as casas, os palácios… a madeira nua, crua e cruel, nas arestas e no serviço que lhe pediam, passou de madeira a prata, a ouro, a marfim. Encheu-se de pedras preciosas.

A Igreja conseguiu transformar o símbolo maior da dor, da ignomínia, da crueldade sem nome, num elemento cheio de significado e beleza, capaz de ser peça artística de enorme valor e recorte estético. Com isso a cruz deixou de ser de madeira e passou-se para o outro lado.

Aqui está, porventura, o efeito complicado do tremendo sucesso destes 2000 anos. As frases que se lêem, ouvem e proclamam por estes dias: “morte e morte de cruz”, “crucificado entre dois ladrões” … perderam todo o impacto. Não conseguimos compreender, interiorizar, abarcar a enormidade do que se passou. Num tempo onde qualquer dorzinha nos faz correr para o médico e encher de analgésicos pergunto-me quantos entendem, de facto, a frase “e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue…” (Lucas 22:44).

O êxito da Igreja, ao passar a cruz de madeira a prata, penetrando todos os espaços sociais, criou-lhe um problema grande, porque Cristo andava com os pecadores que, na maioria eram pobres, e a mancha, o pecado em suma, desde a pobreza à lepra, só batia à porta dos deserdados da sorte. Mas Ele não descartou José de Arimateia e outros…

É um profundo drama do nosso tempo a necessidade de “ter” de escolher um lado, em tudo e quanto à pobreza também, porque ela assusta todos e repele todos. Ninguém a quer por perto, o que não é de agora, veja-se o fariseu e o publicano da parábola ((Lc 18, 9-14).

O dilema – de facto complicado – reside na nossa persistente incompreensão do que efectivamente significa o “Todos, Todos, Todos”, do Papa Francisco, suavemente mantido, mas nunca esquecido, dos esforços e palavras do agora Papa Leão XIV.

TODOS! Ecologicamente falando, humanamente falando.

Felizes Festas de Páscoa!

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