Para Margarida Serpa, membro do movimento nos Açores, trata-se de um momento decisivo para “perpetuar o ideal de unidade de Chiara Lubich” e garantir que o movimento continua fiel ao seu carisma

A quarta Assembleia Geral do Movimento dos Focolares após a morte da fundadora, Chiara Lubich, está a decorrer entre 1 e 21 de março de 2026, em Castel Gandolfo, Roma, reunindo 320 representantes de todo o mundo.A Assembleia decorre no Centro Mariápolis e é considerada um dos momentos mais importantes da vida do Movimento dos Focolares, realizando-se de cinco em cinco anos. Participam 320 representantes das comunidades do movimento espalhadas pelo mundo – entre os quais cerca de 50 observadores – provenientes de diferentes culturas e contextos eclesiais.
Durante o encontro serão eleitos os novos membros do governo internacional e definidas as linhas programáticas que irão orientar a ação do movimento nos próximos cinco anos.
Segundo Margarida Serpa, que acompanha os trabalhos a partir dos Açores, esta Assembleia tem um significado particular por acontecer num período em que o movimento continua a aprofundar o legado da sua fundadora.
“É muito importante para perpetuar o ideal de Chiara Lubich. Como sabemos, ela faleceu há 18 anos, precisamente a 14 de março, e tudo o que se faz agora, sem a fundadora viva, precisa de ser feito em unidade e fidelidade ao carisma”, sublinha Margarida Serpa ligada ao Movimento desde os 15 anos.
O encontro começou com três dias de retiro espiritual. No dia 5 de março, a atual presidente do movimento, Margaret Karram, apresentou o relatório de fim de mandato, acompanhado por reflexões do copresidente Jesús Morán. A partir desta sexta-feira decorrem sessões plenárias e trabalhos em cerca de 30 grupos, que analisam contributos enviados pelas comunidades do movimento espalhadas pelo mundo.
Entre os temas em debate estão a promoção da fraternidade e da unidade num contexto global marcado por tensões e polarização, o compromisso com a paz e a justiça social, o diálogo entre igrejas cristãs e entre pessoas de diferentes crenças, o uso responsável das tecnologias, a ecologia integral e novas formas de governança participativa.
Um dos momentos centrais da Assembleia está marcado para 12 de março, com a eleição da presidente e do copresidente do movimento, cargos que terão posteriormente de ser confirmados pela Santa Sé. A 15 de março serão eleitos os conselheiros gerais, completando a constituição do novo governo internacional.
A preparação para este encontro envolveu um amplo processo de escuta nas comunidades do Movimento dos Focolares presentes em cerca de 150 países. Foram recolhidos contributos sobre os principais desafios do movimento e sugestões para o seu futuro.
Em Portugal, está presente uma representante nacional, embora o processo preparatório tenha contado com contributos de várias comunidades, incluindo dos Açores.
“Tivemos dois participantes aqui dos Açores na fase de preparação, que chegaram a ir a Roma para esses encontros. Também nós participámos respondendo aos questionários e reflexões que foram pedidos”, explica Margarida Serpa.
Nos Açores, o Movimento dos Focolares mantém pequenos núcleos em várias ilhas. A presença mais significativa encontra-se em São Miguel, existindo também aderentes na Terceira, Faial, Pico e Santa Maria.
“Somos poucos, é verdade”, reconhece Margarida Serpa. “Estamos sobretudo em São Miguel e temos pequenos grupos nas outras ilhas. Em Santa Maria há uma família muito ligada ao movimento e no Faial e no Pico também existem aderentes, tal como na ilha Terceira”.
Uma das principais dificuldades para o crescimento do movimento no arquipélago prende-se com a saída de muitos jovens para estudar ou trabalhar fora da região.
“Nós investimos muito nas camadas jovens, mas chega uma altura em que muitos vão para o continente estudar e acabam por ficar lá a trabalhar. Depois ficamos sobretudo os mais velhos e as forças já não são as mesmas”, explica.
Ainda assim, o movimento tem procurado apostar nas gerações mais novas, começando com crianças.
“Estamos a investir nos mais pequeninos, até aos 10 anos, sobretudo em algumas catequeses. A esperança é que esses grupos cresçam e depois continuem esta missão”, refere.
A vivência do movimento nos Açores centra-se sobretudo no testemunho quotidiano da fé.
“O nosso ideal é viver o Evangelho nas coisas mais simples do dia a dia, nos nossos ambientes. Não se trata tanto de organizar grandes encontros, mas de transformar os lugares onde estamos: na escola, no trabalho, na família”, explica.
Entre as iniciativas regulares estão os encontros da chamada “Palavra de Vida”, em que os participantes procuram colocar em prática, durante o mês, uma frase do Evangelho.
Outro campo de ação tem sido o diálogo ecuménico.
“Uma das dimensões importantes do movimento é o diálogo com outros cristãos. Aqui temos feito algumas iniciativas com a igreja presbiteriana, preparando juntos momentos de encontro e reflexão”, acrescenta.
Apesar das limitações, Margarida Serpa acredita que o movimento pode continuar a contribuir para a vida da Igreja e da sociedade.
“O grande desafio é expandir o Evangelho através de testemunhos concretos. Amar o próximo que está ao nosso lado e tornar o Evangelho vivo nas coisas simples do dia a dia., afirma.
A expectativa é que a Assembleia Mundial agora em curso ajude a reforçar essa missão.
“Tenho a certeza de que as linhas que sairão desta Assembleia vão manter o essencial do movimento: viver o Evangelho e construir a unidade entre todos”, conclui.
O Movimento dos Focolares é uma organização católica internacional, fundada por Chiara Lubich em 1943 na Itália, focada na construção de um mundo mais unido, fraterno e justo, baseado no Evangelho. Com cerca de 2 milhões de membros em 182 países, promove o diálogo, a paz, a partilha de bens e a espiritualidade da comunhão.