Bispo de Angra apela a uma Igreja em saída, que vença o comodismo e saiba construir laços de unidade com todos, todos, todos

Novo subsídio pastoral para 2026-2027 propõe uma Igreja mais acolhedora, missionária e aberta à conversão, com especial atenção aos afastados, aos fragilizados e aos que vivem nas “outras margens” da sociedade e da própria comunidade cristã

“Como chegar à outra margem” é a interpelação do novo projeto pastoral da Diocese de Angra para o ano 2026-2027, segundo subsídio do primeiro triénio de uma caminhada que pretende conduzir toda a Diocese até à celebração dos 500 anos da sua criação, em 2034.

Inspirado no episódio evangélico da travessia do mar da Galileia, o novo projeto lança um desafio claro às comunidades: deixar a margem segura, vencer o comodismo e fazer-se ao largo para ir ao encontro de quem está distante, fragilizado ou excluído.

A proposta pastoral assenta em três dimensões fundamentais – acolhimento, conversão e missão – e procura traduzir em metas concretas muitas das conclusões do Conselho Pastoral Diocesano. O objetivo é que as comunidades, estruturas e movimentos não permaneçam fechados sobre si próprios, mas sejam capazes de se renovar e de levar a luz do Evangelho aos ambientes onde a Igreja é hoje chamada a estar.

Na mensagem que introduz o novo caderno, o Bispo de Angra apresenta a “outra margem” como uma imagem particularmente forte para a missão da Igreja no mundo contemporâneo. Tal como Jesus conduziu os discípulos para além da margem conhecida, também a Igreja é chamada a atravessar fronteiras e a encontrar aqueles que, por diferentes razões, ficaram afastados.

A região dos Gerasenos, destino da travessia narrada no Evangelho, era precisamente uma terra associada aos gentios, aos excluídos e aos marginalizados. É aí que Jesus encontra um homem ferido e excluído, devolvendo-lhe a dignidade. A imagem torna-se, assim, um convite a reconhecer as “outras margens” que existem hoje: nos ambientes sociais marcados “pela fragilidade” e pela “indiferença”, nas “famílias enfraquecidas pelo sofrimento”, nos espaços onde “faltam escuta e proximidade” e também nas próprias comunidades cristãs.

“Passar à outra margem” pode significar, por isso, chegar aos que vivem uma relação frágil ou intermitente com a Igreja, aos batizados cujo percurso de fé sofreu ruturas e a todos os que procuram uma oportunidade para recomeçar a sua caminhada, salienta D. Armando Esteves Domingues.

 

O Projeto Pastoral parte de uma constatação: muitas comunidades correm o risco de se instalar numa espécie de comodismo, permanecendo paralisadas, sem novos desafios e sem capacidade para responder às mudanças do mundo. A travessia do mar da Galileia surge como uma provocação a sair dessa margem segura.

A tempestade que surpreende os discípulos revela, por outro lado, a sua própria fragilidade, o medo e a falta de fé. Também a Igreja, nas “suas dificuldades e crises”, é chamada a reconhecer as suas fragilidades e a compreender que nenhuma travessia pode ser feita apenas com as próprias forças.

O Bispo de Angra recorda que “ninguém sobrevive às tempestades da vida ou da missão sem o encontro com Jesus e sem uma espiritualidade que revigore a alma e dê esperança à vida”.

“Tal como os discípulos tiveram de deixar a margem segura, a Igreja é chamada a estar no mundo para ser de todos”, pode ler-se.

A conversão é, por isso, apresentada não como uma etapa concluída, mas como uma atitude permanente: “A verdadeira fé cristã não é um estado adquirido e estático de perfeição, mas um permanente estado de conversão”.

É neste contexto que o novo subsídio incentiva paróquias, movimentos juvenis e familiares, Seminário, Escola Diocesana de Formação, Instituto Católico de Cultura, escolas e outras instituições a proporcionarem oportunidades regulares de aprofundamento espiritual. Retiros, momentos de oração e formação são apontados como meios privilegiados para favorecer um encontro renovado com Jesus.

Um dos pilares centrais do novo projeto é o acolhimento. Durante a travessia, Jesus, mesmo parecendo dormir, permanece como presença que garante a segurança da barca. A imagem é aplicada a uma Igreja que, por vezes, pode parecer cansada ou adormecida, mas que continua a crescer no meio das provações.

A Palavra de Cristo, que acalma a tempestade, deve conduzir a Igreja a uma atitude de proximidade, particularmente diante da dor e da fragilidade.

“A Igreja é instada a ser Mãe”, sublinha o texto, fazendo-se próxima daqueles que precisam de ser escutados e amparados.

O acolhimento é apresentado como uma concretização prática do amor cristão: amar antes de julgar ou corrigir, escutar antes de impor e anunciar a Palavra criando condições para que aqueles que chegam da “outra margem” possam contar a sua história, com as suas feridas, e encontrar um espaço onde possam iniciar um caminho de cura.

O Projeto Pastoral chama também a atenção para a qualidade das relações dentro das próprias comunidades.

“Uma comunidade que apenas se vê na Eucaristia, que chega atrasada à Missa e até sai antes da bênção final para evitar cruzar-se com os outros, revela sinais de doença espiritual”, afirma o documento.

Do mesmo modo, “uma comunidade cristã que desconhece o nome e rosto daqueles que habitualmente dela fazem parte, só revela que não é Povo de Deus, mas uma multidão de desconhecidos”.

Daí o apelo a promover momentos de convívio e confraternização, fortalecendo relações que permitam às comunidades passar de uma simples reunião de pessoas para uma verdadeira experiência de comunhão.

A travessia não é, contudo, apenas uma deslocação física. É apresentada como expressão da própria missão da Igreja: “fazer-se ao mar do mundo contemporâneo e arriscar o encontro com o outro, confiando que o próprio Cristo navega no mesmo barco e encurta distâncias entre margens”.

O projeto recorda que esta foi a própria pedagogia de Deus, que se aproximou da humanidade em Jesus Cristo: “Ele que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas, assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens” (Flp 2, 6-11).

Também São Paulo, recorda o bispo de Angra, surge como referência para esta atitude missionária, ao explicar a sua disponibilidade para se aproximar de diferentes povos e culturas e ao afirmar que se fez “tudo para todos” (1 Cor 9, 22). A flexibilidade e a empatia na missão, sublinha, não significam abdicar da essência do Evangelho, mas encontrar formas de o anunciar a pessoas concretas, respeitando as suas histórias, mentalidades e circunstâncias.

Esta passagem para a “outra margem” permitiu que o cristianismo deixasse de estar circunscrito a um movimento restrito e se abrisse ao mundo gentio, tornando-se uma mensagem universal. Da mesma forma, afirma o texto, “a Igreja só é verdadeiramente Igreja quando sai para construir laços de unidade com todos, todos, todos”.

O desafio ganha particular atualidade perante o reconhecimento de que muitos cristãos se afastaram da Igreja ou mantêm hoje com ela uma relação frágil, ferida ou intermitente. A resposta, segundo o projeto, passa pelo amor e pela capacidade de proximidade.

O novo Projeto Pastoral para o próximo ano propõe igualmente uma autoavaliação e renovação constantes das estruturas comunitárias e pastorais. Embora a Diocese disponha já de diversas experiências de conversão e primeiro anúncio, o documento considera fundamental revitalizá-las e dar-lhes maior expressão.

Entre as experiências existentes são destacados os retiros do Movimento Shalom, os Cursilhos e os retiros promovidos pelo Movimento da Mensagem de Fátima, entre outras iniciativas que desempenham um papel relevante na vida diocesana. O projeto aponta ainda para a necessidade de divulgar por todas as ilhas experiências que já revelam potencial evangelizador, como as iniciativas de oração inspiradas em Taizé e os Grupos Alpha.

A preocupação estende-se especialmente aos jovens. A proposta é que grandes acontecimentos, como a Jornada Mundial da Juventude ou a Aldeia da Esperança, em São Jorge, não se esgotem no momento do evento, mas encontrem continuidade através de acompanhamento, formação e dinamização de momentos de espiritualidade.

Também as paróquias e ouvidorias são convidadas a promover iniciativas regulares de oração, formação e espiritualidade, abertas a toda a comunidade, criando espaços onde a fé possa ser aprofundada e vivida em conjunto.

A missão de chegar à outra margem concretiza-se ainda numa pastoral de saída, simbolizada pela expressão “bater à porta”. O gesto não se limita à visita física, mas traduz a necessidade de a Igreja sair dos seus espaços habituais e estar presente nos ambientes onde as pessoas vivem.

Famílias, locais de trabalho, instituições cívicas, culturais, políticas, militares e académicas são apontados como lugares concretos onde os cristãos são chamados a testemunhar a sua fé. O documento recorda, neste âmbito, que a palavra sem testemunho perde credibilidade: se não for sustentada pelo exemplo, “será sempre oca e desprovida de credibilidade”.

A missão passa, assim, por uma Igreja capaz de escutar, acompanhar e testemunhar antes de esperar que as pessoas regressem aos seus espaços. O movimento é inverso: é a comunidade que se põe a caminho.

Três catequeses para uma caminhada comum

A pedagogia pastoral proposta – acolhimento, conversão e missão – é também concretizada no próprio subsídio através de três catequeses dedicadas a estas dimensões, oferecendo às comunidades instrumentos para aprofundarem o lema e o transformarem em prática pastoral.

As propostas apresentadas procuram responder a desafios identificados pela própria Diocese, nomeadamente nas conclusões do Conselho Pastoral Diocesano, colocando as comunidades perante uma pergunta fundamental: quem está hoje na outra margem e o que estamos dispostos a fazer para chegar até ele?

O Projeto Pastoral não pretende, por isso, acrescentar simplesmente mais atividades ao calendário diocesano. Propõe sobretudo uma mudança de atitude: sair da acomodação, renovar a vida comunitária, fortalecer a espiritualidade, recuperar a capacidade de acolher e assumir a missão como uma dimensão permanente da vida cristã.

A travessia do mar da Galileia torna-se, deste modo, uma imagem para o caminho da própria Diocese rumo aos 500 anos. Há uma margem conhecida e segura, mas há também uma outra margem onde estão pessoas, histórias e feridas que esperam por proximidade.

O apelo final é simples e exigente: “Não esperemos mais; olhemos para a outra margem e vamos. Vamos ao encontro e deixemo-nos também encontrar pelos irmãos.”

O Projeto Pastoral será oficialmente apresentado no dia 25 de setembro, às 20h30, na Biblioteca Pública da Horta, na ilha do Faial. No domingo dia 28, será celebrada uma eucaristia que marcará o arranque do segundo ano do primeiro triénio da caminhada conjunta proposta na Carta pastoral Batizados na Esperança, lançada no ano passado,  onde se propõe ainda que a Igreja diocesana prossiga esta caminhada atenta também à Igreja Universal que neste ano de 2027 é chamada a fazer uma avaliação da caminhada sinodal encetada em 2021, com as diferentes etapas do Sínodo de Roma. Durante esta ano existirão assembleias de ouvidoria e uma grande assembleia eclesial, que se realizará no dia 10 de junho, reunindo representantes das estruturas de comunhão na diocese e na sociedade açoriana.

Projeto Pastoral_26-27

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