D. António Moiteiro desafia os cristãos a viverem a Festa do Senhor da Pedra como um verdadeiro encontro com Cristo e não apenas como uma tradição popular

A preparação da Festa do Senhor da Pedra constitui, para o bispo de Aveiro, uma oportunidade privilegiada para renovar a fé e aprofundar a identidade cristã. Em entrevista ao jornal A Crença, D. António Moiteiro, que presidirá ao tríduo e à festa do Senhor da Pedra, que decorre entre 25 de agosto e 2 de setembro, reflete sobre o significado do tema pastoral deste ano, sublinha o valor evangelizador da piedade popular e alerta para o risco de reduzir as festas religiosas a manifestações folclóricas. Defensor de uma Igreja sinodal e missionária, considera que a formação dos fiéis continua a ser um dos maiores desafios da evangelização.
Este ano, a Diocese propõe a pergunta: «Cristão, que dizes de ti mesmo?». Que interpelação lhe sugere este tema na preparação da Festa do Senhor da Pedra?
Esta pergunta está intimamente ligada ao Evangelho da Transfiguração, proclamado no primeiro dia do tríduo. Contudo, esse episódio só se compreende à luz dos anúncios da Paixão, que começam quando Jesus pergunta aos discípulos, em Cesareia de Filipe: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Pedro responde em nome de todos: «Tu és o Messias, o Filho de Deus.» A partir dessa resposta nasce uma nova interrogação: quem sou eu diante de Cristo? Que cristão sou? Como vivo a minha fé? Qual é a minha relação com Jesus e, por Ele, com o mistério da comunhão que é a Santíssima Trindade? É precisamente esse exame interior que o tema pastoral nos propõe. A pergunta de Jesus conduz-nos inevitavelmente à pergunta sobre nós próprios e desafia-nos a crescer como seus discípulos.
O tríduo é, por natureza, um tempo de preparação espiritual para a grande festa. Muitas pessoas participam nas celebrações, mas nem sempre isso se traduz numa vivência continuada da fé. Como olhar para esta realidade?
É uma preocupação muito legítima. O Papa Francisco escreveu que, assim como o Batismo é o sacramento do nascimento para a vida cristã, a Confirmação é o sacramento do crescimento. É o Espírito Santo que nos fortalece para amadurecer na fé e viver uma vida cristã plena. Por isso, importa regressar ao essencial. A fé cristã não assenta em tradições ou costumes, mas numa Pessoa viva: Jesus Cristo ressuscitado. É esse encontro que transforma a existência. O testemunho da ressurreição deve refletir-se na forma como vivemos. Para o cristão, a vida humana não é diferente da de qualquer outra pessoa; a diferença está em vivê-la segundo o Evangelho. As festas religiosas só cumprem plenamente a sua missão quando conduzem a esse encontro pessoal com Cristo. No caso da Festa do Senhor da Pedra, contemplamos o Ecce Homo, Aquele que entregou a vida por nós para que todos tenhamos vida em abundância.
O que podemos aprender com a piedade popular?
A piedade popular possui uma forte dimensão evangelizadora, mas também uma dimensão profundamente humana. As festas unem famílias, aproximam amigos, criam momentos de encontro e de comunhão. Essa dimensão é fundamental, porque o nosso Deus é comunhão. Sem comunhão não há verdadeira festa. Mas a alegria da festa só encontra o seu pleno sentido quando conduz ao encontro com Cristo ressuscitado.
A piedade popular pode ser assim uma verdadeira escola de sinodalidade?
Sem dúvida. Vejo essa dimensão em dois níveis. Antes de mais, no próprio povo de Deus. Quem participa numa festa religiosa é chamado a ir além das motivações pessoais, estéticas ou das promessas individuais. É importante descobrir o significado mais profundo da celebração e deixar-se evangelizar por ela. Infelizmente, nem sempre acontece assim.
Falta formação?
Sim. Falta formação, e muita. Existe também uma responsabilidade dos párocos, dos sacerdotes em geral e das comissões de festas. Todos são chamados a ajudar o povo a compreender que uma festa religiosa não pode reduzir-se ao folclore ou a uma manifestação exterior. A festa deve ser um verdadeiro caminho de comunhão, vivido em conjunto. O sacerdote não pode colocar-se à margem, nem a comissão de festas olhar para a organização apenas como uma tarefa pesada. Todos fazem parte da mesma comunidade e todos são responsáveis por caminhar juntos. É precisamente isso que a sinodalidade nos ensina: escutar, discernir, decidir e caminhar em conjunto. Sem esse caminho comum não existe verdadeira comunhão.

«Não podemos perder a identidade cristã em nome das exigências administrativas»
Um dos principais responsáveis pela organização da Festa do Senhor da Pedra é a Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo, que, ao longo de séculos, tem mantido viva esta manifestação de fé. Que importância atribui hoje ao papel das Misericórdias como expressão da missão social da Igreja?
As Misericórdias desempenham, há mais de cinco séculos, um papel essencial no exercício da caridade. Nasceram precisamente para concretizar as obras de misericórdia, tanto corporais como espirituais. As obras corporais traduzem-se no cuidado concreto pelos mais frágeis, vivendo o mandamento novo de Cristo: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei». Mas existe também uma dimensão espiritual que não pode ser esquecida e que passa pela formação das pessoas. Hoje, porém, as Misericórdias vivem um contexto muito exigente. Enquanto instituições da economia social, estão sujeitas a um conjunto crescente de normas e obrigações decorrentes dos acordos celebrados com o Estado. Esses acordos são necessários e importantes, mas não podem levar-nos a perder de vista aquilo que constitui a nossa identidade.
O que é que isso quer dizer exatamente?
A missão das Misericórdias nasce da caridade cristã e essa dimensão não pode ficar subordinada a uma lógica meramente administrativa ou burocrática.
O desconhecimento desse carisma pode colocar em risco o futuro destas instituições?
Sem dúvida. A caridade é uma exigência de todos os cristãos. Depois, cada instituição organiza essa missão da forma mais adequada ao seu contexto. Naturalmente que o rigor na gestão, a competência técnica e a fiscalização são indispensáveis. Nada disso está em causa. O problema surge quando se ignora a matriz cristã destas instituições. As Misericórdias nasceram para servir as pessoas através da caridade. Não nasceram para responder apenas às necessidades do Estado ou fazer caridade ao Estado. É essencial que o Estado reconheça esta identidade. Caso contrário, corre-se o risco de descaracterizar instituições que existem precisamente porque oferecem algo que vai muito para além da simples prestação de serviços. As parcerias são importantes e devem continuar a existir, mas nunca à custa daquilo que está na origem destas obras: a caridade cristã.
Numa sociedade cada vez mais secularizada, é mais difícil encontrar pessoas preparadas para assumir esta missão?
A Igreja atravessa um período de transformação. As obras sociais exigem hoje elevados níveis de competência técnica, capacidade de gestão e profissionalização. Nem sempre os sacerdotes ou os responsáveis dos centros sociais paroquiais possuem essa preparação, pelo que temos de encontrar novos modelos de organização. Mas, insisto: essa renovação nunca poderá significar o abandono dos valores do Evangelho. Aliás, a competência também é um valor evangélico. Não falamos apenas de capacidade técnica ou jurídica; falamos igualmente da competência para evangelizar e servir melhor as pessoas.
Em alguns casos, estaremos a confundir a dimensão social com a missão evangelizadora?
É uma preocupação muito séria. Preocupa-me, por exemplo, verificar que alguns lares de inspiração cristã têm cada vez menos assistência religiosa. Pergunto-me quem acompanha espiritualmente os idosos, quem reza com eles, quem os ajuda a viver a doença e a preparar-se para a morte. São questões fundamentais.
Uma instituição da Igreja distingue-se precisamente por oferecer um cuidado integral da pessoa. Não basta assegurar alimentação, saúde ou conforto material; é indispensável cuidar também da dimensão espiritual.
«A tecnologia deve estar ao serviço da pessoa humana, nunca o contrário»
Vivemos um tempo profundamente marcado pela inteligência artificial e pela transformação tecnológica. Como pode a sociedade aproveitar este progresso sem perder a sua dimensão humana?
Depois de refletir sobre este tema à luz do magistério da Igreja, vejo duas dimensões fundamentais: a primeira é claramente positiva. A inteligência artificial representa um enorme avanço para a ciência, para a medicina, para a investigação e para o mundo do trabalho. Em muitas áreas permite realizar, em segundos, tarefas que antes exigiam dias ou semanas de análise. Mas, há uma segunda dimensão que exige discernimento. A inteligência artificial é uma técnica. Não tem consciência, nem sentimentos. Funciona através de algoritmos que tendem a padronizar as respostas e a criar a ilusão de uma atenção personalizada. Ora, cada pessoa é única e irrepetível. Nenhum algoritmo consegue captar plenamente essa singularidade. Por isso, existe o risco de uma progressiva desumanização. A técnica deve servir a pessoa humana; nunca a pessoa pode tornar-se servidora da técnica.
Também existe o risco de aumentar as desigualdades?
Sem dúvida. É legítimo perguntar quem beneficia verdadeiramente da riqueza produzida pelas novas tecnologias e como ela é distribuída. Vivemos num mundo onde, demasiadas vezes, o progresso económico beneficia apenas alguns, enquanto muitos ficam para trás por causa da pobreza, da guerra ou da falta de oportunidades. Não podemos aceitar um desenvolvimento que esqueça os mais frágeis. A economia, a técnica e a inteligência artificial só fazem sentido quando estão ao serviço do bem comum e da dignidade de todas as pessoas, como refere de resto o Papa Leão na encíclica Magnífica Humanidade.
Além disso, os algoritmos tendem a fechar cada pessoa numa espécie de «bolha» de informação…
É verdade. Os algoritmos mostram-nos sobretudo conteúdos semelhantes às nossas preferências e isso favorece uma certa tribalização da sociedade. É o determinismo… determinismo puro, porque o algoritmo está determinado para que naquelas circunstâncias e com aqueles dados os resultados sejam sempre mais ou menos aqueles e quando pensamos no ser humano, na pessoa, isto nunca pode acontecer, porque não há duas pessoas iguais. Há coisas fantásticas na IA e que a IA proporciona; só temos de estar atentos, para não perdermos a nossa humanidade.
O ser humano nunca pode ser reduzido a um conjunto de padrões previsíveis. Há algo na liberdade, na consciência e na capacidade de amar que escapa sempre a qualquer algoritmo. Por isso, devemos acolher as potencialidades da inteligência artificial, mas sem abdicar daquilo que nos torna verdadeiramente humanos.

«A comunhão constrói-se na fidelidade ao Concílio Vaticano II»
Esse fenómeno de polarização também preocupa a Igreja?
Muito. O diálogo deve ser sempre o primeiro caminho. No entanto, esse diálogo exige fidelidade àquilo que é essencial na fé da Igreja.
Refere-se à polarização de alguns grupos, não é verdade?
Sim. Não podemos colocar em causa o Concílio Vaticano II, que foi um dom do Espírito Santo para a Igreja. Também não podemos pôr em causa o ministério do sucessor de Pedro, chamado a confirmar os irmãos na fé, nem transformar a liturgia num fator de divisão. O verdadeiro problema não é litúrgico. É eclesiológico. A questão decisiva é saber que visão de Igreja queremos.
E, os grupos ligados ao rito antigo querem coisas diferentes?
Há uma frase muito interessante do Papa Leão, a propósito da consagração dos bispos da Fraternidade São Pio X, quando ele escreveu a carta e quando lhe perguntaram, em Castelo Gondolfo, sobre este ato e ele respondeu: eles traçaram um caminho mas nós seguimos em frente. Isto é, nós tudo devemos fazer para o diálogo mas não podemos deixar de afirmar tudo o que é essencial na nossa fé. E nós temos visto, na questão dos lefebvrianos, mas também nos movimentos de Igreja aferrados ao rito antigo, que também não querem dialogar connosco. O Papa Francisco, na visita, ad limina dos bispos portugueses disse-nos uma coisa muito interessante: que quando se deu a possibilidade de se poder celebrar com o rito antigo, era para responder, de facto, aos anseios, desejos, de uma certa espiritualidade de um grupo de pessoas.
Mas o que nós estamos a ver, é que esse grupo de pessoas está a fazer proselitismo. Querem é que, cada vez mais, se estenda, se estenda, se estenda. Ora, no fundo, esse problema não é litúrgico, é eclesiológico.
E esse, sim, é um problema de Igreja, que visão de Igreja eu tenho. Não é problema litúrgico. E mesmo os nossos institutos, que estão ligados ao Papa e que celebram com o rito antigo, a sua eclesiologia deixa muito a desejar. Por isso, a questão fundamental não é a forma da liturgia, mas a comunhão eclesial.
Há quem diga que a maior resistência ao caminho sinodal vem sobretudo do clero mais jovem. Reconhece esse fenómeno?
Reconheço que essa realidade existe. Na Diocese de Aveiro tenho consciência desse desafio e considero que a formação dos futuros sacerdotes deve privilegiar uma autêntica eclesiologia de comunhão. Na minha diocese poderia ter mais seminaristas mas por saber que existe esse perigo não os quero. Como Igreja particular de Aveiro não os quero. Essas pessoas têm muita dificuldade em ter uma eclesiologia de comunhão… seguem cegamente essa ideologia. Precisamos de padres capazes de trabalhar em equipa, de escutar o Povo de Deus e de compreender que a Igreja não se constrói através de grupos fechados nem de visões ideológicas. Por outro lado, reconheço que os nossos jovens precisam de maior identidade, de verdades mais sólidas e profundas, mas isso é diferente do que estávamos a falar.
O que não é da eclesiologia do Vaticano II não é aquilo que o Espírito está a dizer à Igreja. Nós estamos a construir uma ideia de comunhão assente numa determinada eclesiologia: existe um Povo de Deus, que tem um corpo hierárquico; existem carismas diferentes, mas é um Povo que caminha em conjunto, que não forma grupos e guetos, em que uns são melhores que outros. Eu lembro-me, até fruto da minha formação catequética, que os nossos catecismos, na década de 50, na Igreja, tinham a Igreja piramidal. No cimo estava o Papa, os cardeais, os bispos, os Padres, os Leigos. E no nosso catecismo, em Portugal, o Catecismo Nacional, publicava no fim dos leigos, ainda os pretinhos e os amarelos. Os brancos vinham à frente. É esta a Igreja que queremos? É esta a eclesiologia que o Concílio Vaticano nos trouxe? É este batismo, que é o sacramento comum de todos os cristãos que nós devemos valorizar? Eu penso que são estas perguntas que é necessário responder agora.
Que mensagem deixaria aos peregrinos que vão participar na Festa do Senhor da Pedra?
Gostaria de convidar todos a descobrirem, no rosto do Ecce Homo, a grande novidade da fé cristã: a misericórdia de Deus. No rosto desfigurado de Cristo contemplamos um amor incondicional, que não conhece limites e que transforma a vida de quem o acolhe. Esse é também o rosto do Bom Samaritano. Quem experimenta a misericórdia de Deus é chamado a devolvê-la aos irmãos, fazendo da própria vida um testemunho de amor, de serviço e de esperança.