Bispo de Angra desafia cristãos a “humanizar a cidade olhando para quem ficou na última carruagem da dignidade humana”

Prelado diocesano presidiu pela terceira vez à festa de São Sebastião, padroeiro da cidade de ponta Delgada

Foto: Igreja Açores/CR

A festa de São Sebastião, padroeiro de Ponta Delgada, celebrada hoje na cidade, ficou marcada por um forte apelo do bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, aos cristãos para que humanizem a cidade, colocando no centro os que vivem nas margens e fazem da rua a sua casa, por se terem habituado ou por terem sido empurrados para a “última carruagem da vida e da dignidade humana”.

Evocando a figura de São Sebastião, o bispo apresentou-o como alguém que viveu este dinamismo do Evangelho até às últimas consequências, recusando o uso da força contra os fracos e oferecendo a própria vida. Um testemunho que, segundo D. Armando Esteves Domingues, interpela fortemente a sociedade atual, marcada por “relações de poder”, pela “manipulação da verdade” e pela “exclusão dos mais vulneráveis” — realidades que também atingem países de matriz cristã.

Num momento particularmente incisivo da homilia, o bispo convidou os fiéis a imaginar São Sebastião a percorrer hoje as ruas de Ponta Delgada.

“Veria uma cidade limpa, edifícios belos e templos bem ornamentados”, afirmou, mas também “homens e mulheres que se habituaram a ir na última carruagem da vida, que fizeram da rua a sua casa e vivem da esmola”. Uma realidade que, num contexto assumidamente cristão, “não pode deixar de nos inquietar”.

“Os nossos ambientes ainda não foram transformados naquilo que é o reino de Deus anunciado por Jesus” alertou, lançando o desafio central da celebração: tornar Ponta Delgada uma cidade mais bela e mais humana, “não por proselitismo ou para afirmar superioridade moral”, mas por “fidelidade e obediência ao Evangelho”.

O prelado exortou ainda a Igreja e os cristãos a não fugirem da realidade, aproximando-se de quem é atingido pelas “flechas do sofrimento”, a “começar por mim”, disse.

“Sejamos  e promovamos uma cultura do abraço”, insistiu, sublinhando que humanizar a cidade começa por “olhar, reconhecer e cuidar de quem ficou para trás”.

Presidindo à eucaristia solene, o bispo de Angra lembrou que esta celebração “antes de ser a festa de uma paróquia, é a festa da cidade”, sublinhando que toda a hora é tempo de louvor a Deus e de anúncio do Reino. Um reino que, frisou, não se reduz a palavras ou ritos, mas transforma a vida concreta e os ambientes onde as pessoas vivem.

Num domingo particularmente significativo, que coincidiu com o Domingo da Palavra de Deus e a evocação da conversão de São Paulo, D. Armando  Esteves Domingues destacou que as leituras proclamadas revelam um Deus que entra na história para iluminar os povos que vivem nas trevas e devolver alegria a um povo dividido. Foi nesse contexto que recordou o início da missão de Jesus na Galileia, junto dos pobres, dos fracos e dos pecadores, escolhidos não pela perfeição, mas pela confiança na misericórdia de Deus.

“O cristão não nasce feito, torna-se e cresce como tal”, afirmou, lembrando que a Palavra de Deus é a origem de todas as coisas: “Deus fala e acontece”. É, por isso, uma Palavra com poder de transformar a pessoa e, a partir dela, o mundo.

São Sebastião (c. 256-288) foi um mártir cristão e soldado romano, reconhecido pela sua fé inabalável, que sobreviveu a um primeiro martírio por flechas, sendo cuidado por Santa Irene, mas acabou por ser morto após confrontar o imperador Diocleciano.  Nascido na França e criado em Milão, tornou-se capitão da guarda pretoriana em Roma, usando a sua posição para proteger cristãos.  É invocado como protetor contra doenças contagiosas e epidemias. A sua representação artística habitual inclui flechas e um tronco de árvore, simbolizando a sua persistência na fé.

 

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