Catequese deve ultrapassar modelo de transmissão teórica de conteúdos, diz responsável da Santa Sé

Foto: Educris/PQ

O padre José Miguel Cardoso, membro do Dicastério para a Cultura e a Educação (Santa Sé), defendeu hoje que a iniciação cristã deve abandonar a transmissão teórica de conteúdos e focar-se no acompanhamento da experiência individual.

“A fé não é uma certeza absoluta, mas uma pergunta permanente. Não é uma meta, mas é um caminho”, disse o sacerdote, na conferência que proferiu durante o 63.º Encontro Nacional da Catequese, a decorrer em Aveiro.

O portal ‘Educris’, do Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC), refere que a iniciativa reúne cerca de 90 responsáveis.

O padre José Miguel Cardoso alertou para o perigo de reduzir o processo de transmissão da fé a momentos de entusiasmo pontuais e à avaliação através de estatísticas e proselitismo, apontando como três riscos contemporâneos os números, os foguetes e os ‘likes’.

“Se a catequese querigmática visa transmitir um conteúdo, a catequese mistagógica visa dar um passo em frente, isto é, transmitir uma experiência”, apontou.

A análise sociocultural apresentada durante a intervenção apontou para o crescimento de procuras espirituais desvinculadas das religiões institucionais, apelando à necessidade de compreender individualmente o destinatário da mensagem cristã e de evitar imposições.

“Nem todos têm de acreditar ao mesmo tempo, da mesma forma e pelas mesmas razões”, observou o especialista.

A reflexão recorreu à metáfora da partida de xadrez entre a humanidade e o diabo para justificar a importância formativa da catequese face ao atual domínio da técnica.

“Na era da tecnocracia e da inteligência artificial, há algo que não se conseguirá replicar: oferecer o que mais ninguém consegue, a mistagogia do coração”, afirmou.

D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé (CEECDF), interveio no mesmo encontro e partilhou o desafio de ultrapassar o modelo letivo nas paróquias, apoiando as dinâmicas do novo itinerário catequético nacional.

“O Itinerário para a catequese é claro na necessidade de recuperarmos este bem para o processo de introdução à fé dos mais novos para que se passe da lógica escolar, onde se aprendem muitos conteúdos, para o tempo de caminho, de descoberta do mistério e do encontro”, indicou o bispo de Vila Real.

O responsável abordou o potencial da catequese como espaço de educação para a não violência, enquadrando esta prioridade no magistério do Papa Leão XIV.

“A catequese é uma experiência de paz, de partilha, de experiência e de fazer caminho em conjunto”, sustentou.

O 63.º Encontro Nacional de Catequese conclui-se esta sexta-feira, contemplando a apresentação dos novos materiais da coleção catequética Emaús pelas várias editoras responsáveis.

(Com Ecclesia)

Scroll to Top