Santa Clara foi recordada nos Açores como mulher de fé, coragem e pobreza evangélica

A comunidade de Clarissas do Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, nas Calhetas, em São Miguel, assinalou esta terça-feira, 11 de agosto, os 773 anos da morte de Santa Clara de Assis, com uma concelebração eucarística, presidida pelo franciscano açoriano Frei Luís de Sousa.
Na homilia, o religioso apresentou Santa Clara e São Francisco de Assis como “dois corações apaixonados pelo Evangelho, por Jesus”, destacando a radicalidade com que ambos procuraram viver a mensagem evangélica.
Frei Luís de Sousa recordou a jovem Clara, pertencente a uma família nobre e abastada de Assis, que, seduzida pela pregação e pelo testemunho de São Francisco, escolheu abandonar as riquezas e os privilégios da sua condição social para abraçar uma vida de pobreza e consagração a Cristo.
“Encontra em Jesus o seu príncipe encantado”, afirmou o franciscano, sublinhando que a opção de Clara não foi apenas uma renúncia às riquezas, mas uma escolha apaixonada por Cristo.
A saída de casa, pela chamada “porta dos mortos”, assumiu, segundo o sacerdote, um significado particularmente forte. Ao abandonar o palácio por aquela porta, Clara simbolizava que morria para a vida de riqueza e para o futuro que a família tinha pensado para ela.
Recebida por Francisco na Porciúncula, Clara deixou o vestido, recebeu o hábito religioso e teve os cabelos cortados, iniciando uma nova vida de consagração. A decisão provocou a resistência da família, mas a jovem manteve-se firme no caminho que tinha escolhido.
A sua determinação haveria de marcar também a história da Igreja. Clara foi a primeira mulher a escrever uma Regra para uma comunidade religiosa feminina, defendendo para as suas irmãs o direito de viverem segundo o Evangelho e na pobreza. Obteve ainda a aprovação do chamado “privilégio da pobreza”, que permitia à comunidade permanecer fiel à forma de vida que tinha escolhido.
“Combater o bom combate da fé”
Na celebração, Frei Luís de Sousa apresentou Santa Clara como uma mulher que permaneceu firme no meio das dificuldades, recordando os longos anos de doença que marcaram a parte final da sua vida.
A partir da imagem bíblica da videira, o franciscano afirmou que, tal como Clara recebeu de Cristo a força para enfrentar as suas batalhas, também o cristão é chamado a permanecer unido àquele que é a fonte da vida.
“O cristão é um lutador”, afirmou, apelando à necessidade de “combater o bom combate da fé”.
Perante as dificuldades e as “tribulações” sociais e humanas do tempo presente, a vida de Santa Clara pode constituir, segundo o sacerdote, um testemunho de esperança e perseverança.
“Tudo passa. O sofrimento também passa”, recordou Frei Luís de Sousa, convidando os cristãos a permanecerem firmes na fé mesmo quando atravessam momentos de provação.
Santa Clara morreu a 11 de agosto de 1253, no Mosteiro de São Damião, em Assis, depois de uma vida marcada pela oração, pela pobreza e pela entrega a Cristo. Foi canonizada apenas dois anos depois, pelo Papa Alexandre IV.
A sua espiritualidade permanece viva nas comunidades de Clarissas espalhadas pelo mundo, incluindo a comunidade que reside no Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, nos Açores.
O mosteiro existe desde 1977 e foi fundado por religiosas Clarissas, na sua maioria provenientes da Madeira. É atualmente a única comunidade feminina de clausura da Diocese de Angra.
A vida das religiosas é marcada pelo silêncio, pela oração e pela contemplação, numa presença que procura acompanhar espiritualmente a Igreja e a sociedade.
Ao assinalar os 773 anos da morte de Santa Clara, a comunidade açoriana voltou assim a colocar no centro da sua celebração a mulher que, seguindo os passos de São Francisco, escolheu a pobreza não como uma simples renúncia, mas como caminho de liberdade e de união com Cristo.
Segundo dados de setembro de 2021 as irmãs Clarissas chegam a vinte mil no mundo, em 986 Mosteiros. Permanecem nove denominações de Clarissas, conforme a Regra ou as Constituições que observem: Clarissas (com a Forma de Vida de Santa Clara), as Clarissas Urbanistas, Clarissas Coletinas, Clarissas Capuchinhas, Clarissas Sacramentinas, Clarissas da Adoração Perpétua (com a Regra de Santa Clara ou com a de Urbano IV), Clarissas Capuchinhas Sacramentárias e Clarissas da Divina Providência.
No final da concelebração de hoje, uma relíquia de primeira ordem de Santa Clara, existente no Mosteiro, foi venerada pelos fiéis.



