“Quem sou eu?”: dez jovens à descoberta de si para melhor estar com os outros

Encontro de formação do Grupo Apressados da Vila reuniu jovens universitários e pré-universitários na Ribeira das Tainhas, num caminho de autoconhecimento e preparação para a Aldeia da Fraternidade

Foto: Igreja Açores

A Ribeira das Tainhas acolheu, esta terça-feira, um encontro de formação do Grupo Apressados da Vila, que reuniu dez jovens universitários e pré-universitários num dia dedicado à reflexão, à partilha e à descoberta pessoal. A iniciativa integra o percurso de preparação para a Aldeia da Fraternidade e procurou ajudar cada participante a conhecer-se melhor, como ponto de partida para uma relação mais equilibrada com os outros e com o próprio grupo.

Sob o tema “Quem sou eu?”, os jovens foram desafiados a pensar sobre a forma como se relacionam consigo próprios e com os outros, as suas prioridades, amizades, espaço pessoal e os valores que orientam as suas escolhas.

A sessão foi orientada por Tobias Rodrigues, antigo sacerdote, com formação em Filosofia e mestre em Gestão de Situações de Conflito, e por Henrique Braga, psicólogo, que conduziram vários momentos de diálogo e reflexão.

Em declarações ao Sítio Igreja Açores, Tobias Rodrigues salientou a importância de criar oportunidades de encontro num tempo em que as relações são cada vez mais mediadas pelas tecnologias e pelas redes sociais.

“O que nós podemos fazer mais é proporcionar, através do exemplo e da iniciativa, encontros em que realmente as pessoas, os jovens, se sintam relevantes, que possam falar das suas coisas e que não seja um exercício de obrigação.”

Sem defender o afastamento da tecnologia, Tobias Rodrigues considera essencial encontrar um equilíbrio entre o mundo digital e a experiência presencial.

“Fazer encontros como este, onde não há tecnologia e a gente pode ter as nossas conversas, acho que é um dos caminhos que nós podemos seguir.”

O formador reconhece que as novas tecnologias “trazem muitas vantagens” e que representam “um comboio que não se pode perder”, mas alerta para a necessidade de os jovens encontrarem também espaços de relação, pertença e sentido.

“Nós temos de dar a oportunidade a esta malta de sentir que a vida deles tem que ter um propósito. Que têm de ter vida real para além da rede.”

Ao longo da sessão, o autoconhecimento foi apresentado como uma ferramenta importante para enfrentar os desafios pessoais e comunitários. Tobias Rodrigues lembrou que não existem respostas iguais para todas as realidades.

“Cada realidade é uma realidade e a experiência de uma paróquia é completamente diferente da experiência de outra. No Evangelho há espaço para a diversidade”, disse.

A propósito da forma como a Igreja é chamada a responder aos desafios atuais, acrescentou: “Jesus não disse apenas ‘façam como eu fiz’, ele disse ‘amai-vos como eu vos amei’. Ele não disse ‘aqui estão as dez regras’, ele disse ‘aqui está o Espírito Santo e ele vos guiará’”, enfatizou.

Um espaço para parar e pensar

Henrique Braga sublinhou, por seu lado, a importância de proporcionar aos jovens momentos em que possam parar, escutar e refletir num ambiente de confiança.

“Como psicólogo, muitas vezes vemos crianças e jovens muito ligados às redes sociais, que não comunicam com os outros, que não veem as suas caras.”

Para o psicólogo, reunir um grupo para conversar sobre questões importantes da vida constitui uma resposta concreta à crescente dependência dos ecrãs.

“Um grupo a falar sobre coisas da vida que são importantes é das melhores coisas que nós podemos fazer”, destacou.

Através de perguntas, dinâmicas e momentos de escuta, os participantes foram convidados a olhar para aspetos de si próprios que, no ritmo do quotidiano, acabam muitas vezes por permanecer escondidos.

A confiança entre os elementos do grupo foi, segundo Henrique Braga, uma condição essencial para que esse processo pudesse acontecer.

“Pessoalmente, conhecer, estar frente a frente é a melhor coisa”, sintetiza.

Para Luzia Fernandes, uma das participantes, o encontro permitiu abordar temas que normalmente são deixados de lado no dia a dia.

“Fizeram-nos algumas perguntas que nos puseram a pensar sobre a maneira como nós agimos connosco, como agimos com os outros, aquilo a que damos importância na nossa vida. Tivemos um bocado a refletir sobre quem nós somos. Eu gostei imenso.”

A jovem reconhece que este tipo de reflexão nem sempre é fácil.

“Normalmente, no dia a dia, evitamos pensar nesses assuntos porque podem ser um bocado pesados ou complicados para nós”, reconhece. No entanto, considera que fazê-lo num ambiente de amizade e confiança torna o processo mais natural.

“Quando fazemos com pessoas de quem gostamos e em quem confiamos, estamos mais confortáveis e acabamos por desenterrar essas coisas e processar essas emoções. Foi isso que gostei bastante”, concluiu.

Também Sofia Ambrósio destacou a importância da experiência, não apenas para cada jovem, mas para o futuro do grupo.

“Acredito que, com esta experiência, vamos conseguir construir o nosso caminho enquanto pessoas, mas também enquanto grupo.”

Para Sofia Ambrósio, que acaba de completar o 12º ano, conhecer-se melhor é indispensável para compreender igualmente as necessidades dos outros.

“Temos que saber quais são as necessidades dos outros, mas também as nossas. Se não soubermos aquilo de que precisamos, não vamos saber lidar com a comunidade e com um grupo.”

A jovem relacionou ainda a reflexão com a pressão exercida pelas redes sociais, que muitas vezes apresentam imagens idealizadas da vida.

“Torna-se um detox das redes sociais. Temos de estar concentrados na experiência que estamos a ter.”

Mais do que desligar os telemóveis, considera importante questionar aquilo que é apresentado como realidade no espaço digital.

“Também dá para desmistificar aquilo que vemos e acreditamos que é real nas redes sociais.”

Recorrendo à imagem da “janela”, trabalhada durante a formação, Sofia Ambrósio lembrou que cada pessoa tem dimensões que não mostra imediatamente e que só podem ser conhecidas quando existe confiança.

“Não podemos acreditar que as redes sociais devem ser a nossa vida. Não devemos estar sempre colados aos ecrãs. Também temos que viver e saber aquilo que somos.”

O encontro incluiu ainda várias dinâmicas de grupo, momentos na praia e atividades de serviço ao outro. A iniciativa pretende ser mais um passo no percurso de preparação para a Aldeia da Fraternidade, que se realizará em julho do próximo ano, na Ouvidoria da Povoação.

Ao longo deste caminho, o objetivo é que os jovens possam levar consigo não apenas respostas, mas também perguntas, ferramentas e uma maior consciência da sua identidade e da forma como se relacionam com os outros.

Paralelamente, o Grupo Apressados da Vila está envolvido num projeto de recuperação de memórias antigas, através de encontros intergeracionais com pessoas mais velhas da comunidade, valorizando histórias, experiências e testemunhos que ajudam a reforçar os laços entre diferentes gerações.

Este grupo foi criado por ocasião da participação da Ouvidoria de Vila Franca do campo na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, em agosto de 2023.

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