“É com perplexidade e apreensão que vemos o mundo derruir para um conflito contínuo e desgastante”- padre José Júlio Rocha

Em declarações ao programa de Rádio Igreja Açores, o assistente da Comissão Diocesana Justiça e Paz, padre José Júlio Rocha, afirmou que as comissões Justiça e Paz da Igreja Católica em todo o mundo não podem permanecer indiferentes perante a atual situação internacional, marcada por vários conflitos simultâneos.
Segundo o sacerdote, o mundo vive atualmente uma perigosa acumulação de guerras em áreas geográficas próximas.
“Estamos perante três grandes conflitos — na Ucrânia, na Palestina e agora no Irão — para além das tensões no Líbano e na Síria e de todo esse barril de pólvora que constitui o Médio Oriente”, afirmou.
“Estamos, como dizia o Papa Francisco, a aproximar-nos de uma Terceira Guerra Mundial aos pedaços”, enfatiza.
O padre José Júlio Rocha recordou também palavras do Papa Francisco ao classificar a guerra como um fracasso coletivo da humanidade.
“A guerra é um horror. A guerra ofende a Deus e a humanidade. A guerra não poupa ninguém. A guerra é sempre uma derrota. Uma derrota para toda a humanidade.”
Segundo o responsável, esta continua a ser também a posição da Santa Sé: a guerra representa “a grande derrota da humanidade” e deve ser sempre evitada.
“É com perplexidade e apreensão que vemos o mundo dirigir-se para um conflito contínuo e desgastante”, afirmou.
O assistente da Comissão Justiça e Paz alertou ainda para aquilo que considera ser um crescente desrespeito pelo direito internacional, referindo-se à intervenção militar no Irão.
Para o padre José Júlio Rocha, situações como esta colocam sérias questões éticas e políticas.
“O desrespeito pelo direito internacional que esta intervenção no Irão revela é preocupante. E não deixa de ser curioso que, onde quer que os Estados Unidos digam levar liberdade, apareça frequentemente petróleo”, afirmou, considerando que isso fragiliza a legitimidade moral das intervenções militares.
O sacerdote lamenta também a incapacidade da comunidade internacional para travar decisões que podem levar a conflitos de grande escala.
“Querer resolver problemas complexos e antigos através da guerra é uma ilusão perigosa”, disse.
Perante o agravamento da situação internacional, a Comissão Justiça e Paz defende que a Igreja e os cristãos devem assumir um papel ativo na promoção da paz.
“É tempo de manifestarmos uma não-violência ativa”, afirmou José Júlio Rocha, recordando também palavras do Papa Leão XIV no seu discurso inaugural, quando apelou a uma “paz desarmada e desarmante”.
Segundo o sacerdote, alcançar essa paz exige um compromisso coletivo da humanidade.
“A história há de julgar este momento”, afirmou. “E muita gente acabará por reconhecer que o caminho da guerra nunca foi a solução.”
O padre José Júlio Rocha criticou ainda o uso da religião para legitimar ações militares, referindo imagens recentes de líderes religiosos a rezar na Casa Branca no momento em que se iniciavam os bombardeamentos ao Irão.
“Utilizar o nome de Deus para justificar a guerra é profundamente perturbador”, afirmou. “Estamos demasiado habituados a ver Deus ser usado para legitimar divisão, violência e superioridade de uns povos sobre outros.”
Para o responsável, o fanatismo religioso – seja no Irão ou em qualquer outro país -representa sempre um risco.
“O fanatismo religioso é igual em toda a parte”, disse.
José Júlio Rocha alertou também para as consequências imprevisíveis da guerra, recordando exemplos recentes como a invasão do Iraque em 2003, decidida na base da Lajes, base militar portuguesa cedida aos Estados Unidos, e que foi palco da cimeira que juntou Durão Barroso, George W. Bush, Jose Maria Aznar e Tony Blair.
“Há o risco de que esta guerra torne o mundo ainda mais instável”, afirmou. “Se não houver mudanças profundas, poderemos assistir a um cenário ainda mais perigoso no Médio Oriente.”
A Comissão Diocesana Justiça e Paz reafirma assim o seu apelo ao diálogo, à diplomacia e à defesa do direito internacional como único caminho para evitar uma escalada global do conflito.