Comissão Nacional rejeita a indiferença diante da pobreza, ofensivas despejadas nas “redes sociais” e a “escuridão” das guerras

Foto: Guerra em Gaza/Lusa

A Comissão Nacional Justiça e Paz apela à não indiferença perante situações de pobreza e de tragédias naturais, ao jejum de “ofensivas despejadas nas redes sociais” e a um “nós”, capaz de “vencer a guerra”.

Na reflexão quaresmal que propõe em torno das palavras “escutar, jejuar e juntos”, a partir da mensagem do Papa Leão XIV, a CNJP propõe outro modo de estar, em que a vivência da fé não esquece a solidariedade, as catástrofes e a guerra.

“Precisamos de um ‘nós’ capaz de vencer a guerra, de no nosso coração passarmos uma declaração de inutilidade da guerra e no meio da escuridão bélica oferecemos uma luzerna para a paz?”, questiona a CNJP no documento intitulado “Quaresma – um caminho de proximidade com Deus, entre nós e com a natureza”.

Na reflexão quaresmal, a CNJP refere-se à atitude de escuta, proposta pelo Papa Leão XIV, como atitude que leva a estar atento às “necessidades de quem sofre, dos mais necessitados, dos que vivem nas periferias e misérias incontáveis” e a “experienciar a proximidade feita dor libertadora”.

O organismo laical da Conferência Episcopal questiona se cada pessoa ficou pelos “pios lamentos” diante dos dramas que assolaram várias regiões do país, alertando para a “miséria escondida”.

“Não podemos ficar indiferentes e surdos diante da pobreza, e as tragédias climáticas que nos assolaram carregam gritos clamando respostas a quem ficou sem telhado, sem casa, a quem perdeu o sustento porque os locais de trabalho ficaram destruídos, a quem viu as águas invadirem a sua dignidade e bens”, diz a nota enviada aos órgãos de comunicação social.

“A escuta é companheira de viagem do diálogo transformativo que escasseia nas nossas casas, no mundo laboral e entre as estruturas do poder. É urgente uma consciência que saiba discernir o circunstancial do essencial”, refere o documento.

A CNJP reflete depois sobre a palavra “jejum”, questionando se é “apenas a ligeireza costumeira circunstancial de hábitos culturais” ou um aspeto da vida que “cobre e justifica outros desmandos”

“O jejum e a abstinência podem incarnar-se em cada um naquilo que lhe é mais comum, nos julgamentos fáceis, nas palavras sem freios e, por vezes, ofensivas, despejadas nas redes sociais, nas calúnias de quem está ausente, no preto e no branco das nossas apreciações conforme as cores políticas, clubísticas ou paroquiais; lado a lado com outros, podemos abrir caminhos de esperança e de paz”.

Sobre o terceiro pilar da mensagem do Papa, a palavra juntos, a comissão refere-se à dimensão comunitária, referindo que é na partilha que acontece a “caminhada quaresmal, num estilo de vida sóbrio, na partilha de novas formas de viver a Palavra e a transmitir, do enorme desafio atual que é a reconciliação”.

“Juntos é o desafio, a experiência do caminho sinodal que nos impele a cultivarmos um outro modo de estar, uma outra proximidade feita de comunhão que, pelo amor recíproco, gera a presença de Deus entre nós e nos conduz à Pascoa”.

A CNJP lembra também que “os propósitos pessoais valem, certamente, mas devem entrar na harmonia sinfónica de uma Igreja que não exclui ninguém, onde todos têm lugar e nos faz trautear melodias novas deste Povo de Deus que caminha até à Páscoa”.

A Comissão Nacional Justiça e Paz termina lembrando que viver a Quaresma “de novo” não significa “outra vez, repetição, mas uma oportunidade nova, diferente do passado seja ele qual for”.

“É que este caminho quaresmal – feito de escuta, jejum e juntos –, deve ter o sabor da graça, que passa pelo arrependimento, para vivermos com cada próximo uma aurora de paz e fraternidade”, conclui.

(Com Ecclesia)

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