Conferência de Alfredo Teixeira reflete sobre a fraternidade como horizonte para o mundo contemporâneo

A fraternidade não é um ideal abstrato ou nostálgico mas  uma categoria dinâmica e necessária para repensar o futuro das sociedades contemporâneas

Foto: Igreja Açores/CR

 

A sacristia da Igreja de São José, em Ponta Delgada, acolheu a conferência de Alfredo Teixeira, subordinada ao tema “Fraternidade – ética e espiritualidade para um mundo que vem”, integrada na Semana de São José e nas comemorações dos 500 anos do Convento de São Francisco.

Partindo de uma interrogação central – como pensar a fraternidade no início do século XXI – o conferencista situou o debate no contexto atual, marcado por fragmentações culturais, conflitos identitários e desigualdades globais persistentes. Neste cenário, Alfredo Teixeira propôs a fraternidade não como um ideal abstrato ou nostálgico, mas como uma categoria dinâmica e necessária para repensar o futuro das sociedades contemporâneas.

Alfredo Teixeira, que é professor da Faculdade de Teologia da Universidade católica Portuguesa,  sublinhou que a ideia de universalidade, profundamente enraizada na tradição cristã, continua a ser um elemento decisivo: “permanece um ponto de referência para pensar a superação dos tribalismos contemporâneos e das múltiplas formas de conflito identitário”. Neste sentido, a fraternidade surge como expressão concreta dessa universalidade, capaz de transformar a diversidade em possibilidade de encontro, propondo uma visão de humanidade assente na dignidade comum.

Ao evocar as primeiras comunidades cristãs, o orador destacou práticas que permanecem atuais, nomeadamente a hospitalidade e a solidariedade: “a comunidade cristã deve desenvolver práticas de hospitalidade e redes de solidariedade capazes de acolher aqueles que vivem numa condição de pertença múltipla”. Esta perspetiva aponta para uma ética relacional, onde o outro é reconhecido na sua dignidade e diferença. Recordando as primeiras comunidades cristãs, evidenciou ainda a valorização da renúncia ao estatuto social como ideal ético e a inversão das hierarquias tradicionais, onde a autoridade se exerce como serviço (diaconia).

A conferência abordou também a atual condição das sociedades modernas, caracterizadas por processos de secularização. Alfredo Teixeira defendeu que, embora a religião já não desempenhe um papel de tutela moral ou política, continua a ser portadora de uma sabedoria acumulada que pode contribuir para a construção de uma cidadania mais inclusiva. Neste sentido, evocou a noção de “sociedade pós-secular”, de Jurgen Habermas, o filósofo alemão que faleceu no passado fim-de-semana e que protagonizou alguns diálogos com Bento XVI ainda na condição de Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, onde razão e tradição religiosa são chamadas a dialogar.

Os processos avançados de secularização, acrescentou, “ não implica a perda total da relevância das tradições religiosas”. Pelo contrário, estas continuam a guardar uma sabedoria acumulada, visões do mundo e experiências que “podem enriquecer o debate público”. No entanto, sublinhou, esse contributo exige um esforço de tradução: para que a experiência religiosa seja credível no espaço público, precisa de ser expressa numa linguagem acessível e partilhável por todos.

A fraternidade surge, assim, como uma categoria-chave nesse diálogo, permitindo articular ética, espiritualidade e espaço público. Longe de se impor como princípio confessional, apresenta-se como um valor universalizável, capaz de inspirar práticas de solidariedade, reconhecimento e responsabilidade partilhada.

“Trata-se de reconhecer que a razão secular e a consciência religiosa podem entrar num processo de aprendizagem recíproca”, disse.

A intervenção abordou também o contexto atual de secularização. Reconhecendo que a religião já não ocupa um lugar de tutela moral nas sociedades modernas, Alfredo Teixeira afirmou que isso não elimina o seu contributo: “as sociedades não precisam de ser tuteladas pela religião, mas não têm de dispensar o contributo das tradições espirituais para a construção do espaço comum”. Neste quadro, a experiência religiosa é entendida como memória e recurso simbólico, capaz de enriquecer o debate público.

A atualidade deste tema foi também ilustrada através da referência ao pensamento do Papa Francisco, que colocou a fraternidade no centro do seu magistério, inspirando-se na tradição franciscana, nomeadamente em documentos fundamentais como as encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti. Esta perspetiva, disse,  amplia o conceito de fraternidade para além das fronteiras confessionais, propondo-o como princípio ético universal, orientado para o cuidado do outro, para a solidariedade e para a responsabilidade pelo bem comum.

“A fraternidade não pertence apenas ao património moral do passado, mas constitui um horizonte de futuro para as sociedades contemporâneas”, disse recuperando a tradição franciscana como inspiração para uma visão de humanidade mais aberta e solidária.

A sessão terminou com um apelo à redescoberta da fraternidade como fundamento de uma nova imaginação ética, capaz de transformar a diversidade das identidades numa experiência de hospitalidade e convivência.

“Pensar a fraternidade significa interrogar as condições de possibilidade de uma comunidade humana capaz de ultrapassar os tribalismos”. Trata-se, em última análise, de construir um mundo onde a pluralidade das identidades se traduza em hospitalidade, responsabilidade partilhada e reconhecimento mútuo.

As iniciativas da Semana de São José prosseguem nos próximos dias, incluindo a Romaria das Crianças no Campo de São Francisco esta quinta-feira e, a 20 de março, a apresentação da obra “Eis que estavas em mim e eu fora”, da artista Beatriz Brum, também integrada nas comemorações dos 500 anos do Convento de São Francisco.

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