Delegado do Pontifício Conselho da Cultura da Santa Sé falou na Câmara de Angra a convite do Instituto Histórico da ilha Terceira

O Confronto entre a presença Franciscana e Bispos de Angra no fim do Antigo Regime (1782-1820): a reorganização eclesial, na documentação vaticana foi  o tema da conferência que o Delegado do Pontifício Conselho da Cultura da Santa Sé, D. Carlos Azevedo, proferiu esta sexta feira no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra, numa iniciativa promovida pelo Instituto Histórico da ilha Terceira.

Segundo o prelado, no final do século XVIII e início do século XIX, a presença franciscana “viveu uma debilidade espiritual e cultural, ausência de vocações, clima de rixas e intrigas que requereram a intervenção episcopal, ainda que o Bispo de Angra estivesse limitado pela força da nobreza junto do longínquo poder régio e pela Nunciatura, em fácil jogo diplomático, muito longe de perceber os ventos da história que avançavam na secularização patente dentro de portas e na laicização emergente na sociedade”.

Uma situação adensada pelo clima de conflito mesmo dentro da congregação que, na altura merecia “pouco apreço pastoral, cultural e até assistencial” por parte do poder régio.

De resto, a machadada final”, segundo D. Carlos Azevedo seria dada pela provisão régia de 9 de novembro, de 1798 que proibia a entrada na vida consagrada de novos membros, a aquisição de bens por parte das congregações e uma fiscalização mais apertada dos conventos e mosteiros, uma decisão sustentada numa mentalidade iluminista que manifestava pouca consideração pelo trabalho dos frades.

“Em vez de se exigir aos bispos que zelassem pelo cumprimento das regras davam-se passos para a liquidação do que ainda funcionava embora com alguma ambiguidade”, adiantou ainda o prelado que sublinhou “a fraqueza” da missão episcopal, “com um poder debilitado” até pela relação privilegiada que muitos frades tinham com o Núncio Apostólico, por intermédio de familiares nobres, a quem solicitavam diretamente alguns benefícios específicos que “poriam em causa a própria vida no convento”.

D. Carlos Azevedo que deu uma entrevista ao Sítio Igreja Açores à margem desta conferência, concluiu a este propósito que “infelizmente, o confronto- entre franciscanos e os bispos de Angra- não foi entre profecia evangélica e estrutura hierárquica, mas entre instalação aburguesada e sentido novo da missão pastoral”.

D. Carlos Azevedo foi nomeado por Bento XVI como delegado do Conselho Pontifício para a Cultura no dia 11 de novembro de 2011 e esta semana, que agora termina, foi nomeado pelo Papa Francisco membro da Comissão Pontifícia de Arqueologia Sacra, que tem como missão a investigação e tutela das “memórias dos primeiros séculos cristãos”.

O prelado, historiador de formação e membro da Academia Portuguesa de História, nasceu em Milheirós de Poiares, Santa Maria da Feira, a 4 de setembro de 1953.

Antigo vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), D. Carlos Azevedo presidiu à direção do Centro de Estudos de História Religiosa dessa instituição académica, de 1992 a 2001, e dirigiu o ‘Dicionário e História Religiosa de Portugal’, editado pelo Círculo de Leitores, tendo sido também presidente da comissão científica para a publicação da Documentação Crítica de Fátima (1998-2008).

Foi nomeado por João Paulo II como bispo auxiliar de Lisboa a 4 de fevereiro de 2005.

Na abertura da sessão o presidente do Instituto Histórico da ilha Terceira, Cónego João Maria Mendes, agradeceu a disponibilidade manifestada por D. Carlos Azevedo para partilhar “a importante investigação histórica realizada nos Arquivos do Vaticano”.