De que coisa é feito um olhar?

Pelo padre José Júlio Rocha

Foto: Igreja Açores / JC

Não sou lamechas mas, não tão raramente como eu queria, vêm-me as lágrimas aos olhos quando vejo uma cena mais toleirona num filme ou uma passagem mais intensa num livro. Ou quando vejo pessoas que precisam das minhas lágrimas. Aquele homem de barba esbranquiçada e tosca, a bater nos cinquenta, eventualmente quarenta estragados, fez-me sentir um banana acomodado com as lágrimas nos olhos.

Preparava-me eu para o pequeno almoço no Central, um papo-seco, um sumo de laranja e um café, quando o vejo. Era o domingo gordo, de carnaval. Andrajoso, caminhava devagar dentro de umas calças cinzentas e em cima de umas sapatilhas escuras e sujas, cabelo ondulante, despenteado, sujinho. E o olhar. O olhar de uma pessoa tem qualquer coisa em si que não mente nunca. Se queres saber de uma pessoa, olha o seu olhar. Olhou para mim com uma intensidade febril e, dois segundos depois, desviou o olhar para o Palácio dos Capitães Generais como se o visse pela primeira vez. Os seus olhos estavam à minha procura. O primeiro segundo do seu olhar revelou que seria eu a sua salvação. O segundo segundo do seu olhar mostrou medo e uma vergonha insuportável de pedir alguma coisa.

Aquele homem incomodava-me. Estava desaurido e eu não o conhecia. Um olhar desassossegado, impante de ansiedade, desesperado por um olhar que acolhesse o seu. Desviei, incomodado, o olhar para a montra onde bailavam as filhoses do forno. Entrei compulsivamente no café, desviando compulsivamente o meu olhar do seu olhar compulsivo. Era alcoólico? Agarrado à heroína em ressaca? Distraí-me no papo-seco.

Saí apressado e reencontrei aquele olhar ansioso e pedinte. Desviei o meu com a pressa de uma lebre e caminhei para o carro, estacionado no parque do Prior do Crato. Senti, como as garras de um gato na carne, o seu olhar espetar-se nas minhas costas. Doeu. Continuei a andar, até que uma voz tremida e suplicante, vinda do fundo de quem há muito tentava e não conseguia, tanto queria e nada podia, saiu da sua garganta: “o senhor não tem um euro e meio que me empreste?” Não tinha e disse-lhe que não tinha, e ele sorriu quase como aliviado de eu lhe ter respondido, como quem pede desculpa, como um cão que vem lamber as mãos dos que lhe dão pontapés, sim, com aquele olhar de cão velho e humilde de vergonha, respondeu, com um sorriso, “hoje toda a gente usa cartão”, tudo isso como quem pede desculpa. Caminhei para o carro, abri a porta, liguei o motor, recuei, avancei, vi se vinha alguém de cima, avancei, fiz a curva, acelerei, abrandei, encostei, parei, dirigi-me para a caixa multibanco ao pé da Ginjinha do Jardim, levantei dinheiro, regressei ao pé do Aliança, coloquei-lhe dez euros na mão, pedi-lhe desculpas e dei-lhe um abraço. Fosse para que fosse aquele dinheiro, dei-lho, porque, desde o seu primeiro olhar, aqueles dez euros já lhe pertenciam e eu não tinha o direito de negar dez euros àquele olhar. Só isso.

Ia celebrar uma missa, às onze horas, nos Altares. Durante toda a santíssima viagem aquele olhar ficou cravado nas minhas costas, a doer como dois arpões, e as lágrimas afloraram aos meus olhos com uma teimosia alexandrina. E com uma pergunta que não conseguia subir devido ao nó na garganta: porque é que os cães que nós pontapeamos nos vêm lamber as mãos?

*Este artigo foi publicado no Diário Insular desta sexta-feira, na rubrica Dorsal Atlântica

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