Da nossa agenda de jornalistas, em princípio de ano, não constava esta reportagem.

Mas a notícia de última hora é sempre mais do que uma figura de estilo na vida de qualquer jornalista.

No dia 7 de janeiro, umas horas depois do mundo católico ter celebrado o Dia de Reis, que vieram do oriente e com eles trouxeram a convicção inabalável num mundo melhor e mais livre, três assassinos matam 12 pessoas na redação do Charlie Hebdo, no coração de Paris.

Os que estamos vivos, abraçamo-nos e damos graças pela glória da vida. A única coisa que podemos fazer é prestar homenagem e assumir o compromisso da resistência. Mesmo que ela seja não ceder à agressividade em nome da agressão, respondendo à violência deles com a violação dos nossos valores e da nossa matriz cultural e civilizacional.

Morreram doze jornalistas, os assassinos e quatro reféns. Não foram os primeiros e, temo que, infelizmente, não sejam os últimos.

O terrorismo islâmico já conseguiu muitos sucessos. Transformou–nos em sociedades altamente vigiadas e policiadas, onde o direito à privacidade e anonimato são constantemente violados em nome de interesses maiores. Será este o caminho que queremos seguir?

Ter medo é a pior resposta. Rejeitá-lo é, outrossim, lutar pela preservação de valores absolutamente inalienáveis como a liberdade, seja ela de expressão, de opinião ou de manifestação, sempre dentro do quadro de um estado de direito, onde há leis e tribunais aos quais podemos recorrer de cada vez que nos sentimos penalizados, humilhados ou ofendidos. Esta é a matriz da sociedade ocidental. E não basta afirmá-lo; é preciso tomar medidas para a defender e a fazer prevalecer.

Não basta estarmos do lado certo, como estiveram praticamente todos os líderes políticos da atualidade desde a Europa ao Médio Oriente, de Merkl a Cameron, de Netanyahu a Abbas, e mais de um milhão de anónimos, participando na grande manifestação de Paris.

É preciso fazer com que este lado triunfe, reforçando a lei, tomando medidas políticas e, sobretudo, respondendo com soluções acertadas às diferenças culturais do mundo atual.

A Europa sempre foi uma sociedade de acolhimento. Mas nem sempre soube acolher, cometendo erros trágicos, sobretudo na integração dos que, depois dos processos de independência das ex colónias, regressaram à terra mãe.

Os que cometeram estes atentados são europeus: nados e criados na terra de todas as liberdades. O que é que falhou para que o oxigénio dos radicais extremistas tomasse conta deles? Se calhar o mesmo que não evita a subida dos partidos de extrema direita xenófobos de subirem nas sondagens e merecerem a simpatia de um eleitorado descrente na vacuidade dos moderados, que apenas radicalizam as virtudes do mercado.

Os franceses de origem argelina que mataram os jornalistas do Charlie Hebdo, não quiseram apenas acabar com a vida daqueles que exerciam a liberdade que eles se recusam a aceitar porque convivem mal com ela. O modelo de estado que os inspira é totalitário e despótico, porque não sabe nem é capaz de ser de outra maneira.

No dia do atentado, a declaração conjunta do Conselho Pontificio para a Unidade dos Cristãos e seis imãs reafirmou a importância do diálogo inter-religioso como um caminho para a paz.

O texto sublinha que “sem a liberdade de expressão, o mundo está em perigo” e que os responsáveis de todas as religiões são chamados a “promover cada vez mais uma cultura de paz e de esperança, capaz de vencer o medo e de construir pontes entre os homens”, sem escamotear a responsabilidade dos media na oferta de uma informação que respeite as religiões, os seus crentes e as suas práticas, favorecendo assim uma verdadeira cultura do encontro.

O drama é que Deus é apenas a desculpa. Este islão que agora nos combate não quer submeter-nos por sermos diferentes apenas, mas sim para ter o poder de nos fazer ser diferentes.