É fácil ridicularizar a esperança

Foto: Igreja Açores / José Cabral

Pelo Padre José Júlio Rocha

Peço desculpa, mas vou contar uma anedota de loiras. Nada contra as loiras ou contra qualquer outra coloração do cabelo ou da pele, mas, como sabemos, as loiras, bem como os alentejanos, o Joãozinho (e os portugueses para os brasileiros) são lugares-comuns nas anedotas.

Então cá vai: o que é que diz uma loira quando vê uma casca de banana, no passeio, cinco metros à sua frente? Resposta: “Lá vou eu escorregar outra vez!”

Joana Amaral Dias é loira e já merece algumas anedotas, puro acaso. A ex-deputada do Bloco de Esquerda e comentadora da TV é sobremaneira conhecida pela vacuidade dos seus comentários. Já antes das Jornadas Mundiais da Juventude eu estava desconfiado que ela se ia estender a toda a linha quando as Jornadas acabassem e ela fosse convidada a comentá-las. Era a casca de banana à frente, onde ela se ia estampar. O discurso já estava preparado desde o princípio do mundo e já se sabia, pela boca dela, que tudo ia correr mal. E – oh tragédia das tragédias! – correu, literalmente, tudo mal. Para já, foi a democracia que saiu derrotada, amarfanhada, maltratada. Um milhão e meio de jovens a celebrar, a cantar, e a ter encontros de fé e de valores humanos como a paz, a emergência ambiental, as migrações e outros temas ameaçam, na boca de Joana, a democracia portuguesa. E, claro está, vem à baila a condição laica do nosso Estado Português. Talvez conviesse a Joana aprender o que é um estado laico e distingui-lo de um estado ateu ou antirreligioso. Um estado laico é, normalmente, um estado de direito que respeita a liberdade religiosa dentro das suas fronteiras. E um Estado de direito democrático respeita o princípio da subsidiariedade, vá a Joana aprender o que isso significa. A Joana carregou nas tintas, afirmando que os direitos dos portugueses, sobretudo os de Lisboa e, dentro destes, sobretudo os pobres de Lisboa, foram espezinhados (ai os pobres, pobres dos pobres, sempre na boca de uma certa classe política que teima em falar sem fazer nada… nem sabe onde fica o Bairro da Serafina que o Papa visitou).

Deu para rir, sobretudo porque, para alguns portugueses, Portugal nunca há de fazer coisa de jeito se não forem eles, os seus partidos e as suas agremiações, a fazê-lo. Como escrevi na crónica anterior, o bota-abaixismo português é uma instituição quase milenar.

O facto é que um milhão e meio de jovens em Lisboa é um acontecimento inaudito e transcendental. A interculturalidade deste encontro, onde jovens de mais de 150 países, de culturas, etnias e geografias diferentes é a grande montra da paz e de outros valores, como o respeito pelo ambiente, pela vida, pelos direitos humanos, o respeito pelas diferenças. Que seja a Igreja a única instituição capaz de juntar tão grande número de jovens num encontro de vários dias de festa e paz… pois temos pena, sobretudo por alguns que teimam em considerar a Igreja uma instituição intrinsecamente perversa. O que uniu estes jovens foi a fé. A fé em Jesus Cristo, à volta de uma figura aglutinadora, o Papa Francisco que, digam o que disserem, não tem par no mundo a nível de autoridade moral.

O que ficará deste acontecimento, para lá dos 500 milhões de retorno que não calarão a boca aos críticos? Eis a pergunta essencial.

A alegria contagiante destes jovens, que não se importaram de enjeitar os confortos habituais, é um caso sério. Estamos acostumados a ver jovens agarrados aos telemóveis, fechados em si mesmos, antissociais, escravos dos presentes envenenados com que a civilização, escrava do dinheiro, os escraviza. A mensagem de aviso contra os perigos das redes sociais e das novas tecnologias esteve bem presente na extraordinária Via-Sacra de sexta-feira. Estamos habituados a ver jovens queimar automóveis em França como quem acende um cigarro, rebeldes sem causa, numa fúria destruidora. Estamos habituados a ver jovens vítimas do futuro, em casa dos pais até aos trinta anos, jovens nem-nem, jovens vítimas das catástrofes sociais, como as novas drogas, o álcool, o jogo, a fuga. Estamos habituados a ver jovens que fazem de tudo para fugir à vida. Não estamos habituados a ver um milhão e meio de jovens a cantar, a celebrar, a participar ativamente nas formações, a receber tão bem, a rezar, a manifestar-se pelos valores fundamentais. Qual a diferença? Julgo que a fé tem um papel fundamental nessa diferença. Toda a gente percebeu que aquela alegria não era dos dentes para fora.

Portugal, quando quer, sabe fazer as coisas. As JMJ 2023 foram mais uma prova e Portugal e a Igreja em Portugal e os jovens em Portugal estão, definitivamente, neste aspeto, de parabéns, há que reconhecer. Poucos povos sabem receber tão bem como os portugueses. E isso, na mente de alguns, é um defeito…

Todas as mensagens do Papa, algumas com nítida ajuda do cardeal Tolentino, outras truncadas pela espontaneidade de Francisco, trouxeram uma riqueza que não deve ficar nos arquivos. É altura da Igreja portuguesa,

junto dos jovens e não jovens, esmiuçar as entranhas das palavras de Francisco, atender aos seus apelos. Aí está um caminho válido. Os jovens precisam de desafios, não de telemóveis.

Fico-me por esta expressão, várias vezes ouvida da boca do Papa Francisco: “A Igreja é de todos. Todos, todos, todos. Repitam: todos, todos, todos.” Francisco não quer dizer que a Igreja é uma rebaldaria onde abanca quem quiser abancar. Quer dizer que Deus ama cada um de nós como é, e que as portas da Igreja, a existirem, devem estar abertas. Que nós é que fazemos aceção de pessoas, não o Pai. O caminho, de resto, faz-se lá dentro. Mas nunca fechar as portas a quem precise de Jesus.

É uma mensagem simples, clara e brutal. Havemos de ouvir falar…

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular.

 

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