Por Renato Moura

«O sermão da festa foi lindo», dizia a viúva no regresso a casa. «Então o que disse o Padre?» perguntaram. «Não sei dizer, mas foi lindo, venho consolada», insistia a senhora.

Esta contou-me um padre: uma assídua frequentadora da Igreja batia no peito, por respeito à elevação do corpo e do sangue de Cristo, na Missa celebrada no altar principal; de soslaio apercebeu-se de no altar lateral, outro padre celebrar e estar também a elevar a hóstia e o cálice. À senhora só ocorreu bater nas costas… com a mão esquerda! À saída da igreja deplorou: «isto assim é uma estragação de missas»!

A viúva mandou celebrar Missa pelo marido, falecido recentemente. O sacerdote esqueceu-se de mencionar-lhe o nome. À saída procuramos confortá-la: «não se preocupe, Deus sabe tudo e não se esquece»; mas inconformada ficou: «para valer, o Padre tinha de dizer o nome pelo qual a Missa fora aplicada».

Cada ser religioso tem o seu misticismo. A devoção de cada cristão sente-se e manifesta-se diferentemente. Cada um tem a sua forma de se relacionar com Deus, de O sentir, de O adorar, de Lhe pedir. A crença na intercessão de Nossa Senhora é feita sob as mais diversas invocações e cada qual recorre à ajuda do santo da sua especial veneração.

E quando se vê um sacerdote, acabando de ter em suas mãos o próprio Deus, ainda assim sentir necessidade de tocar a imagem de Nossa Senhora ou do padroeiro? Não motiva estupefacção, nem crítica. É expressão sincera e pública de sentimento.

O período forte da pandemia foi terrível. Quando as pessoas mais precisavam de sentir Jesus perto, viram-se privadas de celebrações religiosas e da comunhão; e impossibilitadas sequer de entrar nas igrejas. Terá sido justo considerar a visita aos templos mais perigosa para contágio, do que a ida aos supermercados?!

A Igreja apela à presença dos fiéis, quando está exposto o Santíssimo Sacramento; mas Ele está sempre no Sacrário.  Com a igreja fechada Deus parece inacessível! A provação foi suportada em humilde obediência, assim como as pesadas exigências posteriores.

Honra e louvor às paróquias que promoveram Missas campais e àquelas onde, com respeito pelas regras essenciais, se levou a imagem do padroeiro a passar, em viatura, pelas ruas da freguesia, até por onde nunca passara. Viraram a crise em sinais positivos: Missa para todos; padroeiro de visita aos seus; liberdade à saudação expressiva dos devotos; aos doentes – sabe Deus – porventura a última oportunidade de verem o padroeiro.

Afinal uma compensação pela longa provação sofrida.