O cantador, letrista dos Veteranos de São Bartolomeu e catequista, garante que a alegria carnavalesca pode aproximar de Deus. Às portas de mais uma maratona de atuações na Ilha Terceira, fala de fé, disciplina, juventude e de um mundo que precisa de reconciliação

José Eliseu Costa, conhecido no meio artístico como José Eliseu, entra em palco dezenas de vezes ao longo do Carnaval, mas recusa a ideia de excessos. O poeta, autor e homem da cantoria dos Bailinhos da ilha Terceira, a maior manifestação de teatro popular do país, defende que a festa maior da ilha é, antes de tudo, cultura, fraternidade e arte e, até “pode ser vivida em coerência com a caminhada espiritual que conduz à Quaresma”.
“Deus gosta de nos ver alegres”, afirma numa entrevista ao programa de rádio Igreja Açores, que vai para o ar este domingo, depois do meio-dia, na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra.
“Um bailinho é o somatório de várias artes. Vivemos o Carnaval com intensidade e depois entra o tempo de reflexão.”
Figura acarinhada tanto nos salões como na catequese, José Eliseu prepara-se para apresentar com os Veteranos de São Bartolomeu o bailinho “Chat e GPT”, inspirado na inteligência artificial. A construção do texto, revela, foi tudo menos simples: houve mudanças sucessivas, debates em grupo e alterações até à véspera do ensaio geral.
“Se houver alguma pecha, será o último ato”, admite, com franqueza.
Apesar de habituado aos palcos, não se deixa dominar pela euforia.
“Sou alegre, mas não eufórico. Nem fico nas nuvens quando corre muito bem, nem arrasado quando corre mal.” Essa postura, diz, ajuda também na transição para a Quaresma, período que encara com naturalidade.
Antes de cada atuação, cumpre um ritual quase sagrado: afasta-se. Não é antipatia, garante, mas concentração.
“Se fico no meio da confusão, não consigo preparar as ideias. Preciso daquele retiro.” Às vezes dura minutos; outras, prolonga-se enquanto ouve os restantes cantadores, atento e silencioso.
Como catequista, privilegia a proximidade. Procura criar empatia e diz que os jovens gostam de o ver no palco.
“No fim, vêm dar um abraço.” A estratégia passa menos pela rigidez doutrinal e mais por despertar curiosidade. Conta que já conseguiu pôr um grupo irrequieto em absoluto silêncio diante do crucifixo durante dois minutos, um momento que o marcou profundamente.
Para a vivência quaresmal, deixa conselhos simples: benzer-se diariamente e rezar um Pai-Nosso, agradecendo o que passou e pedindo ajuda para o que vem.
“É uma forma de Deus saber que aqueles são dos seus.”
Num mundo marcado por conflitos e ameaças, José Eliseu desejava ver reconciliação: “Gostava de ver os homens que pelejam abraçarem-se e perdoarem-se. Era o melhor que nos podia acontecer.”
Entre a máscara festiva e o recolhimento, José Elyseu não vê contradição. Vê continuidade.
O dia de carnaval, que se assinala esta terça-feira, está ligado ao início do tempo litúrgico de 40 dias da Quaresma, com a celebração das Cinzas, em datas determinadas pela Páscoa. A maior festa cristã, que evoca a Ressurreição de Jesus, é celebrada no domingo após a primeira lua cheia que se segue ao equinócio da primavera, no hemisfério norte, este ano a 5 de abril. A quaresma começa na quarta-feira de cinzas e termina na Quinta-feira santa.
Perante práticas pré-cristãs, a Igreja Católica viria a promover alterações que permitissem ligar o período carnavalesco com a Quaresma.
Tertuliano, São Cipriano, São Clemente de Alexandria e o Papa Inocêncio II contestaram fortemente o carnaval, mas no ano 590 a Igreja Católica aprova que se realizem festejos que consistiam em desfiles e espetáculos de caráter cómico.
No séc. XV, o Papa Paulo II contribuiu para a evolução do carnaval, imprimindo uma mudança estética ao introduzir o baile de máscaras, quando permitiu que, em frente ao seu palácio, se realizasse o carnaval romano, com corridas de cavalos, carros alegóricos, corridas de corcundas, lançamento de ovos, água e farinha e outras manifestações populares.
Sobre a origem da palavra carnaval não há unanimidade entre os estudiosos, mas as hipóteses “carne vale” (adeus carne) ou de “carne levamen” (supressão da carne) remetem para o início do período da Quaresma.
A própria designação de entrudo, ainda muito utilizada, vem do latim ‘introitus’ e apresenta o significado de dar entrada, começo, em relação a um novo tempo litúrgico.
A Quarta-feira de Cinzas é, juntamente com a Sexta-feira Santa, um dos únicos dias de jejum e abstinência obrigatórios.
Nos primeiros séculos, apenas cumpriam o rito da imposição da cinza os grupos de penitentes ou pecadores que queriam receber a reconciliação no final da Quaresma, na Quinta-feira Santa.
A partir do século XI, o Papa Urbano II estendeu este rito a todos os cristãos no princípio da Quaresma.
A entrevista a José Eliseu Costa pode ser ouvida em podcast, nas plataformas Itunes e Spotify e aqui em www.igrejaacores.pt