Eu, Padre… e sem um coração agradecido

Pelo padre Davide Barcelos

Foto: Padre Davide Barcelos

Sou padre. Rezo. Celebro. Acompanho pessoas. Falo de Deus quase todos os dias. Mas há uma verdade que me custou admitir e que talvez custe também a quem está a ler: eu não sou, naturalmente, um homem agradecido.

E isto não é um detalhe. É uma ferida espiritual que, durante muito tempo, aprendi a disfarçar. Porque posso falar de Deus… e, ao mesmo tempo, viver como se tudo me fosse devido. Posso pregar sobre graça… e esquecer-me de a reconhecer na minha própria vida.

Recentemente, fui confrontado com isto de forma inesperada. Não num retiro. Não numa crise. Mas através de um livro simples, direto, quase desconcertante na sua clareza. Percebi que muitas das verdades que ali estavam… eu já sabia. Mas saber não é viver. E eu não estava a viver aquilo que, tantas vezes, anunciei.

Comecei então a olhar para trás. Para a minha história, para as dificuldades, para as injustiças que carreguei em silêncio e para as vezes em que me senti incompreendido, cansado, sozinho. E, neste olhar, fui percebendo algo incómodo: habituei-me a olhar para o que faltava… e deixei de ver o que já tinha.

Isto mudou tudo.

Porque um coração que não agradece torna-se pesado. Crítico. Exigente. Sempre à espera de mais. Talvez rezasse… mas não descansava. Talvez servisse… mas não saboreava. Vivemos à espera de condições ideais para sermos felizes, mas a gratidão não é o resultado de uma vida perfeita; é uma decisão espiritual.

Foi precisamente esta “decisão” que me levou a um terreno perigoso. Porque, quando o coração não agradece o que recebe, ele tenta, quase sem dar conta, provar que pode conquistar.

Aqui, o meu deserto espiritual encontrou um nome muito prático: autonomia.

Houve um movimento silencioso, subtil e perigoso. Começou com um desejo que qualquer pessoa moderna chamaria de “nobre” ou “maduro”: a vontade de deixar de viver do que os outros davam e passar a viver do próprio trabalho. Não por orgulho, mas por consciência. À primeira vista, parece irrepreensível. O próprio São Paulo trabalhou com as próprias mãos para não ser um peso para ninguém. É um discurso sedutor, eficaz e… profundamente incompleto.

Porque descobri que é muito fácil disfarçar de “dignidade profissional” aquilo que, no fundo, é uma incapacidade de ser cuidado.

O problema nunca foi o trabalho ou o dinheiro. O problema começa quando aquilo que é instrumento se torna centro. Quando deixei de ser um “homem agradecido” (que recebe), tornei-me num “homem de negócios” (que conquista). E, sem dar conta, o altar começou a dividir espaço com a folha de cálculo. Um coração que não sabe agradecer… procura compensar.

Ninguém se perde de um dia para o outro. Há pequenas deslocações: menos silêncio, menos escuta, decisões mais “eficazes”, um certo prazer em ver resultados, crescer, conquistar. Passamos de uma dependência desconfortável para uma autossuficiência ilusória. Deixar de viver “à custa dos outros” pode ser maturidade, mas viver como se não precisássemos de ninguém, nem de Deus, é o abismo.

Quando tudo se desfaz, a primeira tentação é ler isto como falhanço. Mas há perdas que não vêm para destruir, vêm para revelar. Revelam onde colocámos a segurança e quem somos quando já não temos aquilo que nos sustentava. Perder pode ser doloroso, mas é purificador.

Foi neste lugar, desconfortável e nu, que a gratidão começou a nascer de forma diferente. Não como ideia, mas como necessidade.

O ponto mais importante não está na queda, mas quando, alguém pára e reconhece, sem desculpas, que se perdeu. Este momento é precioso, porque é aí que tudo pode recomeçar.

Recomeçar não é voltar ao ponto inicial. É voltar com uma lucidez que só a queda pode dar. Agora há algo novo: uma gratidão mais verdadeira, não pelo que corre bem, mas pelo que nos devolve ao essencial.

Talvez a questão não seja “errei ao querer isto?”, mas sim: “estou disposto a viver isto de forma diferente daqui para a frente?”.

Porque, no fim, o problema nunca foi estar entre o altar e o negócio. O problema foi, em algum momento, deixar de saber exatamente onde estava o centro.

E esta é uma pergunta que não se responde com palavras.

Responde-se com a vida.

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