Por Carmo Rodeia

Nem sempre é fácil perceber os açorianos e os Açores. Nove ilhas, nove realidades diferentes, e outras tantas personalidades. Cada ilha é uma ilha, e onde fica a coesão do arquipélago? Pergunta atrevida para quem chega e se instala. É preciso dar tempo ao tempo, conhecer todas e cada uma delas e entrar no seu ritmo. Talvez no grupo central esta resposta seja mais fácil. As ilhas quase que se beijam. De São Jorge avista-se o Pico, a Graciosa, a Terceira e o Faial. Às vezes, quando o céu e o mar permitem, até parece que se tocam. Um e outro levam-nos ao infinito, muito para além da ilha.

Os Açores podem ser uma das maiores aventuras de uma vida. Uma terra marcada pela geografia, que vale outro tanto como a história. Peço de empréstimo esta ideia de Vitorino Nemésio, que através do Corsário das Ilhas, nos ensina a conhecer o Arquipélago.

A viagem é impressiva e através dos lugares e da sua história, facilmente se percebe que o povo açoriano, “ramo atlântico da portugalidade” tem a sua história; que essa história tem vida própria e possui um fio condutor bem definido. Onde não há tempo para estados de alma pouco superficiais porque a natureza é madrasta, destrói-nos a vida de um momento para o outro e deixa-nos pouco tempo para pensar no passado. Ao contrário do que se possa pensar os açorianos não são “existencialistas mas essencialistas”. Por vezes, exibem um pragmatismo que nos fere a alma.

Os Açores são um dos raros locais onde habita o imperativo categórico e os açorianos são diferentes. Definitivamente diferentes. Não sei se é do mar se é dos vulcões, do Espírito Santo ou de uma vivência penitencial da fé, tão própria das romarias quaresmais, das baleias ou do contacto com o outro lado do Atlântico, mas são diferentes.

Os Açores nunca foram terra de missão, embora sempre tivessem sido uma periferia nacional e hoje uma ultraperiferia, com estatuto político na Europa.

A história do arquipélago confunde-se com a da diocese de Angra que agora se prepara para acolher um novo bispo, por ora coadjutor, mas que em breve será o 39º Bispo de Angra.

A sociedade açoriana desde sempre foi católica, até porque para se povoar as ilhas tinha que se ser cristão. Por outro lado, os povoadores vieram acompanhados de sacerdotes, que os enquadravam religiosamente. Os açorianos, tal como os portugueses em geral, são cultural e mentalmente produtos do catolicismo romano, mesmo quando parecem afastar-se da ortodoxia, confessam-se ateus, “Graças a Deus”.

Exibem uma das mais elevadas práticas dominicais e vivem como ninguém a religiosidade popular, de uma ponta à outra do arquipélago.

Nunca ficaram indiferentes à mudança. Assimétricos entre si, na geografia e no desenvolvimento, sobretudo económico, conservam uma unidade espiritual incomparável, acentuada por uma ligação estreita entre a política e a religião, hoje a Igreja é uma das respostas mais eficazes aos problemas da sociedade açoriana através da sua rede de ajuda social.

As ilhas são sagradas. E os açorianos, embora hoje um pouco menos comprometidos, são intrinsecamente cristãos e querem uma hierarquia próxima deles.

Querem, no fundo sentir-se parte de uma Igreja aberta ao diálogo, capaz de ser profética, simples e centrada no essencial: anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, deixando a boa nova da esperança.

Ao dizer Sim ao convite do papa Francisco, D. João Lavrador, cumpre fielmente o seu lema de episcopado: Tu segue-Me. Um testemunho que, certamente, não deixará de tocar todos os açorianos.

Bem Vindo!