Ouvidor do Pico é o convidado do programa de rádio Igreja Açores deste domingo

O ouvidor do Pico, cónego João António Bettencourt das Neves, reconhece que o maior desafio da Igreja na ilha é mobilizar os fiéis para um compromisso contínuo e ativo na vida cristã, para além da participação esporádica nos sacramentos e nas festas do Espírito Santo.
Na entrevista vai para o ar este domingo, depois do meio-dia, no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores, o responsável afirma que este ano pastoral está a decorrer com normalidade, apesar da renovação significativa do clero na ilha, com a entrada de três novos sacerdotes. A reorganização trouxe também novas dinâmicas pastorais, nomeadamente na preparação para o batismo, área em que a ouvidoria do Pico decidiu implementar as orientações da diocese através da criação de uma equipa de CPB- Centro de Preparação para o Batismo.
A equipa, orientada pelo padre Paulo Silva, reitor do Santuário do Bom Jesus, integra casais que já batizaram os seus filhos e que agora testemunham a sua experiência junto de outras famílias. Os encontros realizam-se mensalmente, em diferentes zonas da ilha — Madalena, Lajes e, em março, São Roque — facilitando a participação numa ilha geograficamente extensa.
O cónego João António das Neves sublinha que a adesão tem sido positiva e que não se têm registado resistências às novas orientações. Para o ouvidor, esta preparação mais estruturada permite um trabalho “mais rico”, promovendo maior envolvimento das famílias e indo além da simples preparação do rito. No entanto, admite que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas.
Apesar dos sinais encorajadores, o sacerdote reconhece que a realidade continua marcada por uma vivência religiosa muitas vezes centrada nos sacramentos e nas grandes celebrações.
“Somos ainda cristãos de sacramentos e, eventualmente, mais da festa do que propriamente do compromisso”, afirma, apontando a dificuldade em manter uma participação regular na Eucaristia e na vida comunitária.
A propósito da forte tradição das festas do Espírito Santo no Pico, com numerosas irmandades e impérios espalhados pela ilha, o ouvidor observa que esta piedade popular mobiliza muita gente, mas nem sempre se traduz numa prática dominical consistente. Em alguns casos, considera, “a dimensão cultural sobrepõe-se à dimensão eclesial”, o que contribui para o afastamento da vivência quotidiana da fé.
No plano organizativo, a ilha acompanha também o processo de reorganização pastoral promovido pela diocese, com a criação de unidades pastorais. Já estão em funcionamento a Unidade Pastoral do Bom Jesus, que integra várias paróquias da zona oeste, e a Unidade Pastoral da Madalena. Noutras áreas da ilha, a formação de unidades ainda não avançou, devido a especificidades locais e a algum “bairrismo” que dificulta o trabalho conjunto entre comunidades.
Para o ouvidor, a escassez de sacerdotes “tornará inevitável um maior trabalho em rede entre paróquias”, com serviços e conselhos pastorais interparoquiais. Contudo, defende que estas mudanças devem acontecer de forma gradual, respeitando o ritmo das comunidades.
Questionado sobre estratégias para chegar às chamadas “periferias”, incluindo batizados afastados da prática religiosa, João António das Neves admite que não existe uma fórmula única. A aposta passa por convocar, animar e responsabilizar os leigos, envolvendo-os mais ativamente nos serviços da Igreja, na esperança de que o compromisso gere maior proximidade.
Na mensagem final, o ouvidor convida todos os fiéis a redescobrirem o significado do seu batismo como caminho de participação permanente na comunidade cristã. Apela ainda a que o tempo da Quaresma seja vivido com espírito de oração, penitência e conversão, como oportunidade de renovação da fé e de maior envolvimento na vida da Igreja.