Igreja Matriz da Horta recebe relíquias únicas de São Francisco de Assis e Santa Clara

As duas relíquias de primeira e segunda ordem ficarão na Igreja Matriz da Horta para veneração dos fiéis. Este domingo sairão na procissão do Senhor dos Passos

Foto: Relíquias de São Francisco e Santa Clara de Assis/ MM

 

A Igreja Matriz da Horta passou a ser detentora da única relíquia de primeira ordem de São Francisco de Assis existente em Portugal, bem como de uma relíquia de segunda ordem de Santa Clara. A entrega simbólica foi feita pelo postulador geral da Ordem dos Frades Menores Conventuais, Frei Raimundo Valdo Nogueira, num momento carregado de significado para a comunidade local e para toda a família franciscana.

A distinção assume um simbolismo ainda maior por estarmos a viver o Ano Jubilar Franciscano, que assinala os 800 anos da morte de São Francisco de Assis (1226–2026). As comemorações, proclamadas pelo Papa Leão XIV, decorrem entre janeiro de 2026 e janeiro de 2027, tendo como epicentro a cidade de Assis, em Itália, onde pela primeira vez em oito séculos os restos mortais do santo estão expostos à veneração pública na Basílica Inferior.

As relíquias agora confiadas à Matriz da Horta consistem num fragmento “ex ossibus” (de primeira ordem) de São Francisco, retirado da urna na última abertura realizada em 1978, e numa relíquia “ex vestibus” (de segunda ordem) da túnica de Santa Clara. Segundo Frei Raimundo Valdo Nogueira, “são raríssimas as relíquias disponíveis”, uma vez que a “urna que guarda os restos mortais do santo permanece fechada desde então, não estando prevista nova abertura.”

Este domingo, as relíquias sairão sob o pálio na procissão do Senhor dos Passos, integrando uma das mais emblemáticas manifestações de fé da ilha do Faial. Posteriormente, ficarão expostas à veneração na Igreja Matriz da Horta, em relicário já preparado, sendo definido um local próprio que conjugue “dignidade, acessibilidade e segurança”.

O pároco, Monsenhor António Manuel Saldanha, sublinhou “este dom”, sinal da importância espiritual do momento. Destacou que a presença das relíquias “materializa uma espiritualidade que marcou profundamente a história da Igreja e, de modo particular, os Açores, onde a presença franciscana se traduziu na fundação de conventos da Ordem Franciscana e das Clarissas e em inúmeras obras de caridade ao longo dos séculos”.

Para o sacerdote, trata-se de um privilégio, mas também de uma responsabilidade: “Não é apenas património da Igreja, mas de toda a humanidade. São Francisco é uma figura incontornável da história humana.” Acrescentou que esta presença constitui um compromisso renovado de assumir os valores que o santo encarnou: o amor à natureza, a fraternidade universal e a mensagem de paz, valores de inegável atualidade num mundo marcado por polarizações.

Frei Raimundo Valdo Nogueira, brasileiro e atual postulador geral da Ordem dos Frades Menores Conventuais, sensibilizado pela história franciscana do arquipélago – marcada também pela passagem de navios rumo ao Brasil e às Américas – manifestou grande alegria por poder trazer “a presença física de São Francisco” a estas terras.

O religioso partilhou ainda a experiência marcante vivida em Assis durante a exposição dos restos mortais do santo, onde cerca de 15 mil pessoas por dia passam em silêncio diante da urna. Como confessor, testemunhou numerosos regressos ao sacramento da reconciliação, incluindo pessoas afastadas há décadas.

“Francisco continua a tocar os corações”, afirmou, sublinhando a atualidade da sua mensagem evangélica de silêncio, comunhão e fraternidade.

A chegada destas relíquias à Horta representa, assim, não apenas um momento histórico para a paróquia e para a ilha do Faial, mas também um apelo renovado à vivência concreta do carisma franciscano. Num ano jubilar que recorda oito séculos da morte do “Poverello” de Assis, a Matriz da Horta torna-se lugar privilegiado de encontro com uma espiritualidade que continua a inspirar a Igreja e o mundo.

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