Ex diretor do Jornal Diário da Lagoa comenta mensagem do papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais

O alerta do Papa Francisco sobre os perigos da Inteligência Artificial, na mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, reflete um receio global perante uma tecnologia ainda pouco conhecida, sem regulamentação clara e com forte impacto no jornalismo e na sociedade. A análise é de Clife Botelho, jornalista e antigo diretor do Diário da Lagoa, que sublinha a urgência de reforçar a literacia mediática e preservar o humanismo na comunicação social.
Segundo Clife Botelho, a mensagem do Papa ecoa um sentimento transversal à sociedade: o medo do desconhecido.
“Quando o ser humano enfrenta algo novo, sobretudo algo que evolui de forma tão rápida e pouco regulamentada como a Inteligência Artificial, o medo é uma reação natural”, afirma.
Para o jornalista, o peso da voz do Papa torna este alerta particularmente relevante, não apenas para os católicos, mas para o mundo inteiro.
No campo da comunicação social, Clife Botelho reconhece que a Inteligência Artificial já é uma realidade incontornável e pode ser uma ferramenta útil, nomeadamente na transcrição de entrevistas ou na revisão de textos, permitindo poupança de tempo nas redações. No entanto, deixa um aviso claro: “A Inteligência Artificial deve ser encarada como uma ferramenta e nunca como um substituto do jornalista”. O risco, alerta, está na tentação de alguns órgãos optarem por conteúdos gerados artificialmente, colocando em causa a “ética, o espírito crítico e a autenticidade do jornalismo”.
Um dos maiores perigos apontados é o aumento das notícias falsas. Com a proliferação de sites que vivem de cliques e publicidade, torna-se cada vez mais difícil distinguir informação verdadeira de conteúdos manipulados. Clife Botelho lembra casos de imagens falsas, como a do Papa Francisco com um casaco de luxo, gerada por Inteligência Artificial, que enganou milhões de pessoas.
“Hoje em dia, as pessoas começam a duvidar de tudo, até do próprio jornalismo”, afirma.
A situação agrava-se com a crescente dependência do telemóvel como principal meio de acesso à informação. Para o antigo diretor do Diário da Lagoa, sem literacia mediática, os cidadãos ficam mais vulneráveis à manipulação, aos boatos e à desinformação. Por isso, defende que a educação para os media deve começar desde cedo nas escolas, capacitando as pessoas para verificar fontes e distinguir factos de opiniões.
Clife Botelho destaca ainda a preocupação do Papa em preservar “vozes e rostos humanos”. Se antes era relativamente fácil identificar conteúdos artificiais, hoje a evolução tecnológica torna essa distinção cada vez mais difícil. A possibilidade de vozes e imagens falsas substituírem profissionais reais, como pivôs de notícias, levanta sérias questões sobre autenticidade, manipulação e perda do lado humano da comunicação.
Outro ponto crítico é o papel dos algoritmos, que alimentam a polarização social.
“As pessoas passam a receber apenas conteúdos que reforçam as suas próprias opiniões, perdendo o espírito crítico”, explica. Este fenómeno, associado à Inteligência Artificial, “contribui para extremismos, discursos de ódio e uma sociedade cada vez mais dividida”.
Apesar dos riscos, Clife Botelho evita uma visão catastrofista. Reconhece que a regulamentação será inevitável e aponta a União Europeia como um dos espaços onde esse debate já começou. Em Portugal, recorda o papel das entidades reguladoras e a importância de critérios claros que distingam órgãos de comunicação social credíveis de simples plataformas de propaganda.
“Num cenário cada vez mais complexo, o jornalismo tem de reafirmar a sua utilidade essencial: a verificação dos factos”, conclui. Para Clife Botelho, a mensagem do Papa é, acima de tudo, um apelo à responsabilidade, à educação e à defesa de uma comunicação social humana, ética e fiável num mundo cada vez mais dominado pela tecnologia.