
O Papa apelou hoje, na sede do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, na Turquia, a um trabalho conjunto de católicos e ortodoxos face aos desafios da guerra, da crise ecológica e das novas tecnologias.
“Neste tempo de violência e conflitos sangrentos em lugares próximos e distantes, os católicos e os ortodoxos são chamados a ser construtores de paz. Trata-se certamente de agir, fazer escolhas e realizar gestos que edifiquem a paz, sem esquecer que ela não é apenas fruto do empenho humano, mas é um dom de Deus”, disse Leão XIV, no final da celebração da Divina Liturgia na Igreja Patriarcal de São Jorge, em Istambul, presidida pelo patriarca Bartolomeu.
Na festa de Santo André, irmão de São Pedro e padroeiro da Igreja de Constantinopla, o Papa sustentou que os cristãos devem cuidar “de toda a humanidade e de toda a criação”.
Sobre a questão ambiental, Leão XIV elogiou a liderança de Bartolomeu, conhecido como o “patriarca Verde”, e pediu uma “conversão espiritual” para salvaguardar a criação.
“Católicos e ortodoxos são igualmente chamados a trabalhar juntos na promoção de uma nova mentalidade, para que todos reconheçam a responsabilidade de cuidar da criação que Deus nos confiou”, indicou.
O Papa identificou ainda um terceiro “desafio comum”, ligado ao uso das novas tecnologias, especialmente no campo da comunicação.
“Católicos e ortodoxos devem trabalhar juntos para promover o seu uso responsável, a serviço do desenvolvimento integral das pessoas, e a sua acessibilidade universal, para que esses benefícios não sejam reservados a um pequeno número de pessoas e aos interesses de poucos privilegiados”, declarou.
No seu discurso, Leão XIV definiu a busca pela unidade como “uma das prioridades da Igreja Católica” e do seu ministério, garantindo que o caminho para a plena comunhão deve respeitar as “legítimas diferenças”.
Já o líder da Igreja Ortodoxa destacou que a unidade cristã “não é um luxo”, mas “um imperativo, especialmente nestes tempos tumultuosos”, alertando para o sofrimento causado pela violência e pela “exploração desenfreada dos recursos naturais”.
“Não podemos ser cúmplices do derramamento de sangue que ocorre na Ucrânia e em outras partes do mundo e permanecer em silêncio diante do êxodo de cristãos do berço do cristianismo”, declarou Bartolomeu.
“Não podemos ignorar os problemas da poluição, do desperdício e das mudanças climáticas”, acrescentou.
O patriarca ecuménico é considerado como ‘primus inter pares’ entre as várias Igrejas ortodoxas, embora não tenha jurisdição sobre as mesmas, ao contrário do que acontece com o Papa, no caso dos católicos.
Bartolomeu evocou os 60 anos do levantamento dos anátemas, quando o seu antecessor Atenágoras e o Papa Paulo VI assinaram a declaração comum com que católicos e ortodoxos revogaram as excomunhões recíprocas em vigor desde o Cisma de 1054, quando as duas Igrejas se separaram.
Para o responsável, esse gesto representou “primavera espiritual”, após o “inverno das divisões”.
A intervenção evocou ainda a celebração conjunto dos 1700 anos do primeiro concílio ecuménico, em Niceia, que decorreu na sexta-feira.
“O Símbolo da Fé promulgado pelo Concílio de Niceia revela-se uma confissão de fé que transcende o espaço e o tempo”, sustentou o líder ortodoxo.
O Papa e o patriarca abordaram também o trabalho da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico.
“Só podemos rezar para que questões como o ‘filioque’ e a infalibilidade, que a Comissão está atualmente a examinar, sejam resolvidas de forma a que a sua compreensão deixe de constituir um obstáculo à comunhão das nossas Igrejas”, declarou Bartolomeu.
No final da Divina Liturgia, Leão XIV e o patriarca ecuménico dirigem-se à varanda para a bênção ecuménica conjunta, almoçando depois na sede do Patriarcado de Constantinopla.
O Papa encerra assim a sua visita à Turquia, iniciada na quinta-feira, antes de partir para o Líbano.

Já ontem, no encontro com o Patriarca Arménio de Constantinopla, Sahak II, apelando à “plena comunhão” entre católicos e Igrejas Orientais, como aconteceu nos primeiros séculos do Cristianismo, o Papa deixou desafios.
“É a esta fé apostólica comum que devemos recorrer para recuperar a unidade entre a Igreja de Roma e as antigas Igrejas Orientais que existia nos primeiros séculos”, afirmou Leão XIV, evocando os 1700 anos do Concílio de Niceia.
Falando na Catedral Apostólica Arménia em Istambul, onde agradeceu o “corajoso testemunho cristão do povo arménio”, o Papa defendeu a recuperação da unidade com base na “fé apostólica comum”.
Leão XIV defendeu que a “plena comunhão” não implica “absorção ou domínio”, apelando à Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico que retome o trabalho em busca de um modelo de unidade visível.
“Devemos também inspirar-nos na experiência da Igreja primitiva para restaurar a plena comunhão, que não implica absorção ou domínio, mas uma troca dos dons do Espírito Santo recebidos pelas nossas Igrejas para a glória de Deus Pai e a edificação do corpo de Cristo”, precisou.
No último dia da sua visita à Turquia, o Papa foi recebido na entrada da catedral pelo líder da comunidade arménia, a quem expressou a “profunda alegria” por seguir os passos dos seus antecessores Paulo VI e Bento XVI.
Leão XIV recordou a figura de São Nersés Shnorhali, poeta e líder arménio do século XII que trabalhou pela reconciliação, como inspiração para este caminho.
“Esta visita dá-me a oportunidade de agradecer a Deus pelo corajoso testemunho cristão do povo arménio ao longo da história, muitas vezes em circunstâncias trágicas”, acrescentou.
Na sua saudação, o patriarca Sahak II agradeceu a presença do Papa, definindo-o como uma “bússola moral” que defende a dignidade humana e dá voz aos excluídos da sociedade.
O líder arménio alertou para a situação dos cristãos no Médio Oriente, que enfrentam “dificuldades, migração e uma diminuição constante”, e pediu a Leão XIV que use a sua influência em favor destas comunidades, especialmente na região do Líbano, próximo destino da viagem papal.
“A fé nicena, pronunciada com uma só voz há muito tempo, volte a ser um laço de fraternidade inquebrável”, desejou ainda Sahak II.
O encontro ficou marcado pela troca de presentes: o patriarca ofereceu um cálice “pequeno, mas simbólico”, e o Papa retribuiu com um mosaico de uma cruz bizantina, realizado no Vaticano.
No final, Leão XIV abençoou uma placa comemorativa na entrada da Catedral, antes de seguir para a Igreja Patriarcal de São Jorge, no Fanar, para participar na Divina Liturgia com o patriarca ecuménico de Constantinopla (Igreja Ortodoxa).
(Com Ecclesia e Vatican News)
Turquia: Papa Leão XIV visitou Mesquita Azul, seguindo passos de Bento XVI e Francisco