A espiritualidade como presença no mundo, a esperança como resposta ao erro e o perdão como caminho educativo estiveram no centro do Encontro de Professores de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC)

A espiritualidade como presença no mundo, a esperança como resposta ao erro e o perdão como caminho educativo estiveram no centro do Encontro de Professores de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), que reuniu docentes para uma reflexão sobre a sua identidade e missão na escola contemporânea no centro Pastoral Pio XII, em Ponta Delgada que pode ser acompanhado também pelos docentes das outras ilhas em formato digital.
O ponto alto da manhã foi a intervenção do professor Luís Silva, da Diocese de Aveiro, que desafiou os docentes a pensarem a espiritualidade não como fuga da realidade, mas como uma forma concreta de habitar o mundo. Recorrendo à metáfora dos “sapatos”, o orador sublinhou que o professor de EMRC é chamado a caminhar no tempo presente, na vida dos alunos e das comunidades, levando consigo uma espiritualidade encarnada, capaz de iluminar um mundo marcado por incertezas, medos e falta de sentido.
“Uma verdadeira espiritualidade no professor de Educação Moral não é estar fora do mundo, mas trazer a sua vida de cristão para o mundo”, afirmou, em declarações ao Igreja Açores.
Num contexto escolar cada vez mais condicionado por algoritmos, determinismos e pelo medo do erro, Luís Silva defendeu que a disciplina de EMRC afirma uma visão alternativa da pessoa humana.
“Não somos apenas um algoritmo, somos pessoas. Não somos só erro, somos peregrinos”, afirmou.
Para o docente, esta visão abre espaço a uma pedagogia da esperança, onde o erro não é definitivo e onde o perdão assume um papel central no processo educativo.
“As nossas escolas precisam da ideia de perdão. Dizer a um aluno ‘erraste, mas isto não tem de ser para sempre’ é profundamente educativo”, sublinhou, estendendo esta lógica também às relações entre professores.
Outro eixo central da reflexão foi a fraternidade, entendida não apenas como valor cultural ou cívico, mas como realidade com uma origem: a consciência de um Pai comum. Segundo o orador, sem esta referência, a fraternidade corre o risco de se tornar um conceito vazio.
“Só há verdadeiro diálogo quando há identidades”, defendeu, acrescentando que a EMRC não deve ter medo de afirmar a sua matriz humanista e personalista num contexto escolar que tende a silenciar identidades.
A reflexão passou ainda pelo risco de um cristianismo meramente sociológico, desligado da experiência pessoal e do batismo. Para Luís Silva, o atual contexto de laicização, acentuado após a pandemia, deve ser lido não como ameaça, mas como oportunidade de autenticidade: “O cristianismo nunca foi sempre maioritário. Este pode ser um tempo de menos quantidade, mas de mais verdade”.
Nesse sentido, rejeitou o medo da laicização e lembrou que a presença da EMRC na escola pública não é um favor, mas resulta do reconhecimento do Estado e do quadro legal da liberdade religiosa. “Temos uma proposta. Ela apresenta-se. Quem quiser, acolhe”, afirmou lembrando que o professor é sempre chamado a unir a ajudar a reconstruir horizontes, ” num papel discreto, mas essencial, numa escola que continua carente de humanidade”.
A tarde fica marcada por dois testemunhos de professores açorianos- um sacerdote, padre Eurico Caetano e de uma leiga Ana Abelha, com experiência letiva em vários ciclos de ensino, que retomaram e aprofundaram os desafios lançados durante a manhã.
O diálogo, a atenção e o cuidado são hoje centrais no trabalho dos professores de de EMRC, sublinha por seu lado Ana Abelha, docente em São Miguel, com experiência desde o 1.º ciclo ao ensino secundário, que partilhou o seu percurso e os desafios da disciplina no contexto escolar atual.
A lecionar desde 2009, a professora passou por vários ciclos de ensino e diferentes realidades, sublinhando que ser docente de EMRC é um “desafio exigente”, sobretudo “num contexto marcado por instabilidade emocional dos alunos e por múltiplas ofertas educativas”. Para a professora, a mais-valia da disciplina está na sua identidade cristã e na formação integral da pessoa.
“Cativar os alunos, partindo da sua realidade e superando as barreiras associadas à religião” é hoje o principal desafio afirma, ainda, destacando “um caminho que passa pela proximidade humana, através da palavra, do sorriso e da atenção”.
“É um desafio gostoso de se conquistar”, concluiu, reafirmando o papel da Educação Moral e Religiosa Católica como espaço de encontro, sentido e cuidado na escola de hoje.
Esta iniciativa, que mobilizou a esmagadora maioria dos professores de EMRC dos Açores, presencialmente em São Miguel e por via digital nas restantes ilhas, foi organizada em conjunto pelo Serviço da Pastoral Escolar e o Instituto Católico de Cultura.





