Meninos P’ra escola

Duas mães, professoras, deixam o testemunho na primeira pessoa sobre como encaram o retomar dos trabalhos e das rotinas escolares

Foto: Igreja Açores- Andreia Rocha faz parte da Equipa formadora do  Seminário Episcopal de Angra

O regresso às aulas nos Açores acontece este mês, de forma faseada entre os diferentes níveis de ensino. Para as famílias, mais do que preparar mochilas e materiais, este é o momento de ajudar as crianças a recuperar rotinas, enfrentar novos desafios e assumir responsabilidades, acompanhando-as de perto, mas sem fazer por elas.

Os primeiros a regressar são os mais pequenos. A Educação Pré-Escolar, o 1.º e o 2.º ciclos iniciam o ano letivo entre 10 e 15 de setembro. Já os alunos do 3.º ciclo e do Ensino Secundário regressam entre 17 e 22 de setembro, na sequência do adiamento do arranque inicialmente previsto.

Mas o regresso à escola começa antes de os portões se abrirem. Começa em casa, na recuperação dos horários, na reorganização das refeições, na preparação dos materiais e, sobretudo, na retoma de hábitos que durante as férias ficaram naturalmente mais flexíveis.

Para Andreia Rocha, mãe de três filhos e professora, recuperar as rotinas é essencial. Há horários que precisam de voltar a ser cumpridos e responsabilidades que devem ser retomadas, com “horários novos, que têm que ser incorporados, rotinas para levantar, para deitar, para as refeições”.

Na sua família, a preparação passa também por envolver as crianças nas tarefas do dia a dia. Cada filho participa de acordo com aquilo que consegue fazer e até um deles, o Lucas, gosta de ajudar nas refeições. É uma forma de transformar pequenas tarefas quotidianas em oportunidades de autonomia e responsabilidade.

Acompanhar os filhos no regresso às aulas não significa, contudo, fazer tudo por eles. Pelo contrário. Uma das mensagens que Andreia Rocha considera fundamental é precisamente a necessidade de as crianças perceberem que têm responsabilidades próprias.

As tarefas escolares, reconhece, nem sempre são recebidas em casa com a mesma motivação que existe na sala de aula. Mas é precisamente aí que entra o papel dos pais: ajudar, orientar, incentivar, sem retirar aos filhos aquilo que lhes compete fazer.

“O que é preciso é fazer com que eles percebam que a responsabilidade é sempre deles”, sublinha.

A exigência faz parte do processo. Também na escola, depois do entusiasmo inicial, chega o momento em que é necessário trabalhar, cumprir regras e manter o compromisso.

Como professora, Andreia conhece bem essa mudança de ambiente.

“No primeiro dia é tudo muito fácil, tudo muito cor-de-rosa, estamos todos com aquelas expectativas. No segundo dia, às vezes, é um bocadinho difícil voltar a motivá-los, mas é a partir daí que também começa o nosso trabalho.”

É nesse momento que a escola tem de fazer perceber aos alunos que há trabalho a realizar e que o esforço faz parte da aprendizagem.

Foto: Ana Abelha é membro da equipa da pastoral vocacional e do grupo Misson Relationship, orientado pelo padre Jason Gouveia

Nem todas as crianças regressam da mesma maneira

Se para algumas o reencontro com a escola é sobretudo entusiasmo, para outras pode trazer ansiedade. Mudanças de escola, novos professores, novos colegas ou simplesmente o fim de uma pausa prolongada podem tornar o regresso mais difícil.

Ana Abelha, mãe de duas filhas e professora de Educação Moral e Religiosa Católica, vive este ano essa experiência de forma particularmente próxima: as filhas vão mudar de escola.

“Cada ano é um recomeço, é uma nova caminhada, novas expectativas.”

A preparação, explica, exige reorganizar materiais, horários e tarefas familiares, mas deve ser feita gradualmente.

E, perante a ansiedade, a palavra de ordem é tranquilidade.

“Transmitir calma, serenidade” diz.

“Conversar com as crianças, perceber o que as preocupa, explicar-lhes o que vai acontecer e prepará-las para aquilo que as espera pode ajudar a diminuir a insegurança. Não significa prometer que tudo será perfeito, mas transmitir confiança para enfrentar aquilo que for surgindo”, prossegue.

Na sala de aula, Ana Abelha encontra precisamente esta mistura de sentimentos. Entre os alunos que chegam a um novo ciclo ou mudam de espaço, o entusiasmo pelo desconhecido convive muitas vezes com dúvidas e inseguranças.

“Muitas vezes é isso que eles precisam também, serem ouvidos, o acolhimento.”

O acompanhamento de uma criança não se esgota no momento em que os pais a deixam na escola. Nem deve acontecer apenas quando aparece um problema.

Para Ana Abelha, a relação entre família e escola deve ser próxima, regular e construída através da comunicação.

“A escola e a família têm de andar de mãos dadas, trabalham em conjunto, tem de ser, de outra forma não resultará”, diz a docente de EMRC

E acompanhar também significa estar atento ao que não é dito. Um aluno pode precisar de ajuda sem necessariamente a pedir. Na escola, o acolhimento pode acontecer num abraço, num sorriso, num aperto de mão ou numa conversa no corredor, numa “acompanhamento que não é só num dia, mas sim contínuo.”

Tempo livre também precisa de sentido

E se a preparação começa em casa, antes de os portões das escolas abrirem, o “depois da escola” também deve ser equacionado nestas novas rotinas.

Andreia Rocha prefere atividades próximas de casa como a filarmónica, a biblioteca ou o museu, que permitem aos filhos ocupar o tempo de forma enriquecedora e, simultaneamente, ganhar autonomia, passando mais tempo em ambientes que lhes são próximos física e afetivamente.

A preocupação não é preencher cada minuto do dia, mas escolher atividades que tenham significado para as crianças.

“Nunca se esqueçam que em casa a motivação não é igual à motivação que eles possam ter na escola”, assegura.

A recomendação aos pais é clara: não escolher atividades apenas para manter os filhos ocupados, mas procurar aquilo que lhes acrescenta alguma coisa e os faz sentir felizes e realizados.

“Eu gostava de lhes poder dizer que vai correr tudo bem, mas não estaria a ser verdadeira e acho que mais importante do que lhes dizer que nada correrá mal é dizer-lhes que estamos com eles e que haveremos de resolver”, acrescenta Ana Abelha.

“O regresso deve ser feito com confiança, com esperança”, sabendo as crianças que não estão sozinhas, nem em casa nem na escola.

Neste regresso às aulas, a questão passa também por perceber como cada criança reencontra o seu ritmo depois das férias. Voltar aos horários, retomar as tarefas, lidar com as exigências do dia a dia escolar e saber quando pedir ajuda fazem parte desse processo de adaptação. Aos poucos, a rotina vai-se instalando e, com ela, novas oportunidades para ganhar autonomia e assumir responsabilidades.

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