Por Carmo Rodeia

O Papa Francisco convocou este sábado o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. O Ano Santo começa a 8 de dezembro e termina a 20 de  novembro de 2016, na solenidade litúrgica do Cristo Rei.

Na Bula Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia) o Papa faz um apelo à misericórdia na Igreja, abrindo as portas a todos, através da conversão e do perdão.

No terceiro domingo do Advento, cada diocese escolherá uma porta de uma igreja particular que ficará aberta todo o ano. O jubileu será marcado por peregrinações, entendidas como um estímulo à conversão. Durante a Quaresma  os “Missionários da Misericórdia” pregarão nas igrejas, entre muitas outras coisas.

O que é relevante, diz Francisco, é que “somos chamados a ver mais além, a apontar ao coração para ver de quanta generosidade somos capazes. Ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus”. E quando se diz “ninguém” é mesmo ninguém, nem o maior facínora do mundo.

“Será um tempo intenso e prolongado para acolher as imensas riquezas do amor misericordioso de Deus”, “tão misericordioso, que não se assusta com as nossas misérias”, apesar das sucessivas provocações dos homens, algumas bem violentas.

Será porque as pessoas não ouvem Deus? Pelos vistos, nem Deus nem a sua consciência de humanos. Aliás, quando os valores se invertem ou subvertem, espera-se tudo. Deixa de haver Deus, moral,  lei,  consciência e quando assim é, as armas falam mais alto.

No domingo de Páscoa, o Primeiro Ministro inglês disse ao mundo aquilo que há muito já deveria ter sido dito, quebrando um silêncio ensurdecedor relativamente aos massacres do mundo extremista islâmico. Fê-lo sem meias tintas, tão convenientes  e em voga no estilo politicamente correto do mundo atual, marcado por uma geopolítica oportunisticamente consensual e neutra, que não quer ser acusada de intolerância religiosa, mas pactua silenciosamente com a perseguição aos cristãos.

Nos primeiros três meses deste ano, grupos extremistas Islâmicos massacraram mais de 7,000 cristãos em países como o Iraque, Nigéria, Egipto, França, Paquistão, Líbia, Síria, Quénia ou Filipinas. Mais do dobro das vítimas do 11 de Setembro. Homens, mulheres e crianças mortos em nome da fé que o Ocidente professa e que nos moldou a natureza.

David Cameron não é católico mas é cristão e, tal como o Papa, sente a violência ao ritmo de cada massacre. No domingo de Páscoa, ciente de que nada pode ficar como dantes, depois de Cristo ressuscitado, gritou basta, embora a violência prossiga, como que colada à condição humana. Como se fosse o lado humano da misericórdia.

Infelizmente, já passamos por momentos parecidos. Lendo a Bíblia, que é a História da Salvação, sentimos que, apesar dos homens, Deus continua dentro da nossa História, a escrever direito por linhas tortas.

E a História está cheia de “estórias”. Reis que conquistaram com as suas armas grandes impérios do Egipto a Roma. Todos caíram e passaram. Porque o homem não é o dono da história. Nem mesmo quando invoca Deus. Sobretudo quando mata em nome de Deus. Ainda assim, Ele reserva-lhe a sua misericórdia. Sempre. Tal como nós somos convidados a fazer, mas sem assobiarmos para o lado, fingindo que está tudo bem.