Por Jorge Pinheiro de Sousa.

Nestes últimos tempos, sinto que fui adoptado, como uma “espécie” de neto.

Talvez a falta de um avô presente, que nunca tive a felicidade de ter na vida, fizeram-me aproximar de alguém muito especial, para além da procura da confissão.

Sentia que também ele nutria por mim um carinho especial. A necessidade de sair acompanhado, de ir “aqui e ali”, de conversar. A ida mensal ao hospital levar a “pica” na diálise, as idas às consultas, ir fazer pensos, ir à oficina com o carro. E, por fim, interna-lo e visitá-lo… Isto tudo sempre acompanhado com muita boa disposição, apesar da sua timidez.

Se nós olharmos para trás, os momentos mais felizes da nossa vida foi quando fomos úteis a alguém”, disse-nos uma vez o Padre Gregório num retiro. E o Padre José Nunes fazia-me feliz porque eu me sentia útil.

Nestes últimas semanas, foi das pessoas com quem mais convivi. Se há quem nos ensine a viver nesta vida, ele ensinou-me como morrer para esta vida. Nem me refiro ao “morrer” no desprendimento, no estilo de vida simples, humilde, ou seja, àquilo que habitualmente chamamos de “morrer para o mundo”…

Refiro-me mesmo a como morrer biologicamente: ter a plena certeza de que tudo está  a terminar neste mundo e ter uma atitude de total confiança e entrega Àquele a quem ele um dia decidiu servir, numa vida de constante lava-pés, por amor a Ele, à Igreja e aos homens.

Não quero perder isto da minha memória, por isso sinto necessidade de contar pormenores valiosos e profundos que hoje, após a sua partida para a casa do Pai, fazem-me discernir aquilo que ele já pressentia. A sabedoria ultrapassa as estruturas da vida.

Na semana passada, quando regressávamos do retiro da quaresma, o Padre José Nunes chamou-me…

– O Dr. Miguel disse que tenho de ser internado hoje. Tenho que estar no Hospital às 2 horas da tarde. Podes ir comigo?

Após o almoço, combinamos a saída:

– Sr. Padre, saímos de casa às 13H50?

– Eu ainda não celebrei missa hoje…

– Então a gente sai às 14h30?

Ele olha para o relógio (eram 13H30) …

– Não. Eu vou celebrar às 14H30. Não gosto de celebrar de barriga cheia…

– Mas a Dra. Lurdes não está à sua espera no consultório, às 14H00?

– NÃO TENHO PRESSA… (riu-se)

O Ofício Divino, a celebração da Santa Eucaristia, estava acima de tudo. O Verdadeiro Médico, Jesus, é, naquele momento, a sua prioridade.

Às 14H30, começou a celebrar… devagarinho, sereno, sem pressa…uma tristeza profunda, ansioso… sozinho…

Deduzi que, em 20 minutos, celebrasse e seguiríamos para o Hospital.

No entanto, estranhei a demora… e fui espreitar pela porta da capela… 20 minutos passados, e estava a iniciar a consagração do pão e do vinho. Voltei para o quarto e deduzi que mais 15 minutos estivesse terminado. Regresso novamente à capela, espreito pela porta e vejo-o igual, na mesma posição que há 20 minutos atrás, agora, no silêncio, de mãos postas, a adorar o Corpo e Sangue Jesus… Não mexia, não falava… permaneceu assim durante nem sei quanto tempo. Ele e Jesus, sem pressas…

Regressei ao meu quarto e partilhei com o meu colega Dinis Toledo que passava no corredor “já passou mais de uma hora e o Padre José Nunes ainda está a celebrar… parece Jesus no horto das oliveiras… parece que não quer que a Missa acabe…”

Em suma, 1h e meia depois, saiu da capela… Tinha sido a sua “última” missa… celebrada sem pressa, com todo o tempo do mundo, com todo o amor… a derradeira entrega.

O atraso é um contratempo da prioridade. A Eucaristia era o mais-que-tudo naquele momento, antes de ir para o hospital…

No quarto dele, mesmo antes de sairmos, confirmamos as coisas… no saco grande, a roupa, produtos de higiene, medicamentos, o tablet… Ele, entretanto, preparava o seu saquinho pequenino (que aparece na foto). Lá dentro, levou apenas e somente a Liturgia das Horas e uma alva. As alfaias de uma vida de oração e serviço. Só isto lhe parece bastar…

– Sr. Padre, para que é que o Sr. precisa desta alva no hospital?

Fez silêncio, olhando para mim, com aquele olhar azul de ternura, encolheu os ombros, como quem diz “não sei…”

Provavelmente, pressentisse que a alva iria ser precisa, não para celebrar, mas… para vesti-la hoje…ou melhor, para alguém o vestir.

Lá fomos para o hospital… atrasadíssimos. Se calhar, foi das poucas vezes, em toda a sua vida, que o Padre José Nunes chegou atrasado.

A médica já estava noutros afazeres… ‘pudéra’, com 2h de atraso…

– Sr. Padre, a médica vai brigar com o senhor. Chegamos duas horas atrasados…

– (riu-se) Se ela brigar, hei de me calar… Quando alguém briga connosco, se nos calarmos, a briga dura menos de metade do tempo previsto.

E na sala de espera (o momento desta foto, a última dele), o seu sentido de humor, sempre… LOL

Tivemos de ir fazer a ecografia no outro lado do Hospital… Misericórdia, primeiro que eu lhe convencesse a ir na cadeira de rodas… lá nada…

– Vou devagarinho.

Se não fosse a enfermeira a dizer que ficava longe, ele teria ido sempre a pé, arrastando pé ante pé.

Entretanto, a dada altura, fui andado mais depressa… e perguntei-lhe:

– Sr. Padre, posso dar 120km nessa cadeira?

– Se é para dar 120, senta-te tu que eu é que vou a empurrar… LOLOL

Deixei-o no lugar do exame, junto à porta… e pronto… tive de ir embora…

– Eh homem, obrigado. Depois manda-me a conta. LOL

– Até amanhã, Sr. Padre.

– Até amanhã.

Nas duas primeiras visitas, belíssimo. Sempre bem disposto, com o seu sentido de humor… Mas, na terceira visita, ele já sabia do resultado dos exames…

– O Dr. esteve aqui de manhã. O resultado não foi muito bom.

– E então?

– Os rins… estou para durar pouco.

– Lá nada Sr. A gente ainda vai apanhar lapas em S. Jorge…

– (riu-se) O médico foi claro comigo e já me consciencializei… Vivi até aqui e está bem bom…

Nunca mais disse mais nada… ficamos no silêncio…

Ter consciência do tempo e dos limites é um dom que só os sábios e os santos conseguem discernir…

Bendito, Pai Santo, pela vida, pelos ensinamentos, pela entrega, pelo amor, pela amizade, por tudo o que o Padre José Nunes significou para nós.

Descansa em Paz, querido “vavô”, Padre José Nunes.