Nem democrática nem mundana: padre José Miguel Cardoso desafia Igreja a ser profética e fiel a Jesus anunciando um Deus que “pôs os pés na terra”

Oficial do Dicastério da Educação e Cultura inaugura a série de “Diálogos na Cidade” e afirma que o que pode salvar o Cristianismo é poder oferecer um coração a uma humanidade tecnicamente avançada mas carente de sentido

Foto: Ouvidoria da Horta/MM

A Igreja açoriana pode encontrar na piedade popular o seu “verdadeiro anticiclone” e transformar a geografia insular num caminho privilegiado de silêncio e interioridade para o mundo contemporâneo. Foi com estas ideias finais que o padre José Miguel Cardoso encerrou o primeiro “Diálogo na Cidade”, promovido pela Ouvidoria do Faial e realizado na Biblioteca Pública da Horta, perante uma expressiva adesão de faialenses.

O sacerdote defendeu que, num tempo marcado pela aceleração, pela tecnocracia e pela inteligência artificial, os Açores têm condições únicas para oferecer um itinerário espiritual alternativo, mais recolhido e contemplativo. A piedade popular, enraizada nas ilhas, pode ser- afirmou por seu lado-  um “bastião da Igreja portuguesa”, não como resistência fechada, mas como testemunho vivo de fé encarnada na cultura.

Ao longo da sessão, subordinada ao tema “A Igreja que Jesus não quer”, o orador, que é doutor em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana traçou três grandes tentações que, no seu entender, a Igreja deve evitar hoje. A primeira é a de se tornar uma “igreja democrática”, entendida numa lógica em que a verdade resulta da vontade da maioria. Esclareceu que a sinodalidade, tantas vezes confundida com democracia, não significa governar por sondagem ou votação, mas discernir a vontade de Deus com a escuta do Povo de Deus, em equilíbrio com o Magistério e em continuidade com a tradição bíblica e eclesial.

A segunda tentação apresentada, e que deve ser evitada, é a de uma igreja excessivamente institucionalizada. Reconhecendo que a Igreja é uma instituição com papel público, alertou para dois extremos: o fechamento num “gueto” que se afasta do mundo por o considerar ameaça, ou a diluição numa lógica meramente mundana, transformando-se numa organização que procura sobretudo agradar à sociedade.

Depois de percorrer os vários “tempos” da Igreja, ao longo da História desde o tempo da perseguição ao  da indiferença, passando pelas épocas em que foi tolerada e dominante, questionada e criticada, o sacerdote elencou ainda uma  terceira tendência que se assume igualmente como risco. A ideia de uma  “igreja ideal”, reservada aos perfeitos e imaculados, pode ser tentadora mas igualmente “perigosa”. Recordando os Evangelhos, sublinhou que Jesus se aproximava dos pobres, dos frágeis e dos excluídos, ao mesmo tempo que questionava o poder religioso do seu tempo.

A Igreja, afirmou em declarações ao Sítio Igreja Açores, não pode ser um clube de puros, mas uma casa aberta a todos, o que não pode nem deve significar ser “aberta a tudo”.

Questionado sobre o risco de se cair numa visão demasiado idealizada, o padre José Miguel apontou ainda três perigos concretos da atualidade: a tentação dos números, a dos “foguetes” e a dos “likes”.

“A Igreja não deve medir-se como uma empresa que precisa de resultados visíveis ou como uma sala de espetáculos que necessita estar cheia” afirmou em declarações ao Sítio Igreja Açores sobre a conferência que proferiu esta noite.

Jesus  “guia-se por nomes, não por números”, afirmou, evocando a importância de cada pessoa concreta. Também advertiu contra uma pastoral feita apenas de momentos festivos sem continuidade e contra a busca de aprovação nas redes sociais, lembrando que a missão cristã é, por natureza, profética.

Autor do livro “Sobre os Sapatos de Deus”, foi ainda desafiado a imaginar que sapatos Jesus pediria hoje aos seus discípulos para calçar. Entre várias imagens, destacou dois: os sapatos da esperança e os do humor. Num contexto europeu de desencanto e confronto de espiritualidades, defendeu que a alegria é uma das grandes forças do cristianismo.

“Talvez não convençamos pela teoria, mas a alegria contagia”, sugeriu, evocando a capacidade de testemunho que nasce de uma fé vivida com leveza e confiança.

Num mundo capaz de “pôr os pés na lua”, concluiu, a Igreja tem a missão de anunciar um Deus que “pôs os pés na terra” e que oferece um coração a uma humanidade tecnicamente avançada, mas muitas vezes carente de sentido. O encontro terminou com diálogo aberto com os participantes, cumprindo o propósito da iniciativa: promover, no coração da cidade da Horta, um espaço de escuta e reflexão entre fé e cultura.

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