O Carnaval também é Cristão

Pelo padre Devide Barcelos

Foto: Padre Davide Barcelos

Há quem diga, com ar severo, que o Carnaval não combina com a fé; que é excesso, barulho, “mundo demais e Deus de menos”. Talvez por isso mesmo seja necessário afirmar, com serenidade e coragem, que o Carnaval também é cristão. Não porque tudo o que nele acontece seja santo, ou porque a Igreja canonize desfiles e sacralize exageros, mas porque a própria lógica da festa nasce do coração do calendário cristão. A fé, quando autêntica, não teme a alegria, purifica-a.

O Carnaval não surge contra a fé, mas a partir dela. A sua origem está intrinsecamente ligada à entrada na Quaresma, tempo de jejum, recolhimento e conversão. Só há Carnaval porque existe a Quarta-feira de Cinzas; só há despedida porque existe um caminho a percorrer. A Igreja sempre compreendeu que o ser humano precisa de ritmo: festa e silêncio, abundância e privação, riso e lágrimas. A própria Escritura reconhece esta alternância: “Há um tempo para chorar e um tempo para rir; um tempo para gemer e um tempo para dançar” (Eclesiastes 3,4).

O Cristianismo nunca foi inimigo da alegria. O primeiro milagre de Jesus ocorre numa festa de casamento, em Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-11). Quando o vinho acaba, Ele não condena a celebração; transforma a água em vinho de qualidade e em abundância. O problema, portanto, nunca foi a festa, mas o momento em que ela perde o seu sentido profundo.

Muitos desconfiam do Carnaval por ser uma exaltação do corpo. Contudo, o Cristianismo é a religião da Encarnação: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Deus não salvou a humanidade à distância; assumiu um corpo, tocou, chorou, comeu e sentiu. São Paulo recorda-nos que o corpo é “templo do Espírito Santo” (1 Cor 6,19). O corpo não é um erro nem algo a esconder; é um dom. O pecado não reside na alegria, mas na perda da medida; não está na dança, mas na degradação; não está no riso, mas na humilhação do outro. O Cristianismo não é uma espiritualidade desencarnada, é profundamente humano. E tudo o que é autenticamente humano pode ser redimido.

É verdade que o Carnaval pode descambar para a fuga permanente, a embriaguez sem limites e a permissividade vazia. A Igreja não ignora esta realidade. Paulo adverte: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1 Cor 6,12). A liberdade cristã não é a ausência de critérios, é maturidade. É saber que o prazer não substitui o sentido, que o ruído não cura o silêncio interior e que a excitação não preenche o vazio. Muitos esperam o Carnaval para se sentirem “livres”, mas a verdadeira liberdade não dura três dias, dura uma vida inteira. O cristão não é chamado a ser moralista, mas a ser lúcido.

O Carnaval é também o tempo das máscaras, e aqui reside uma das suas provocações mais profundas. Vivemos mascarados o ano inteiro: máscaras sociais, digitais e até religiosas. No Carnaval, ao menos, assumimos a fantasia. Há uma estranha honestidade neste gesto. Jesus foi particularmente incisivo com a hipocrisia (palavra que, na origem, significa “ator”): “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8). Talvez o problema não seja usar uma máscara um dia por ano, mas viver mascarado todos os dias. A festa torna-se uma parábola: quem sou eu quando tiro a fantasia? Quem sou eu quando acaba o desfile e a cinza toca a minha testa?

A pedagogia da Igreja é surpreendente: permite a expansão antes do recolhimento e o espaço para a intensidade antes do deserto. Após a música e a cor, ouviremos: “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás” (Gen 3,19). Esta frase não é uma ameaça, mas uma verdade libertadora. Recorda-nos que somos frágeis, que a euforia passa e que o brilho é efémero. Não para condenar a alegria, mas para impedir que a tornemos um absoluto. Nenhuma festa terrena é definitiva; só Deus permanece.

O erro crasso é imaginar que santidade é sinónimo de rosto fechado. Jesus afirma: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Abundância não é desordem, mas também não é tristeza. Um Cristianismo sem alegria não convence; um crente incapaz de celebrar sugere que Deus é um peso e não libertação. A questão central não é se o Carnaval é cristão, mas se o cristão sabe viver qualquer realidade com consciência e dignidade.

No fim, o que importa é o que fazemos depois da festa. Se nada muda, se a Quarta-Feira de Cinzas é apenas uma ressaca física sem interrogação interior, perdemos a oportunidade. Mas se a alegria nos ajuda a perceber que a felicidade humana é limitada e que o coração pede eternidade, então a festa cumpriu o seu papel pedagógico. O Cristianismo não destrói a cultura, transforma-a; não foge do mundo, ilumina-o. Entre a máscara e a cinza, entre o riso e a cruz, existe um caminho de maturidade. O Carnaval também é cristão porque nasce de uma tradição que sabe que o homem precisa de celebrar e, igualmente, de se converter. No fim, não é a fantasia que nos define; é o coração. E um coração convertido sabe dançar e sabe ajoelhar-se.

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