O dia em que todo o céu caiu e tudo ficou na mesma

Pelo padre José Júlio Rocha

Foto: Igreja Açores / JC

Ficou famosa aquela expressão de Pinheiro de Azevedo, no Verão Quente: “Não gosto de ser sequestrado”. É evidente que ser sequestrado deve causar alguns incómodos. Não tantos, no entanto, quanto esta estúpida guerra em que estamos sequestrados, onde Trump, por capricho pessoal, nos meteu. Há cinco meses que dura esta fúria épica de 36 horas, que só terá fim com o fim político de Donald, a maior bênção que o mundo poderá, um dia, receber.

A última farsa foi a “invasão” de Ceuta. Uma encenação quase perfeita. Organizaram-se as redes sociais e as redes criminosas de traficantes de humanos, que ganharam milhões nessa ação. Organizou-se Marrocos, que tem, como se sabe, um conflito latente com Espanha, esse bendito Marrocos que vai dar o nome de “Donald Trump” a uma autoestrada de mil quilómetros. A sempre avisada extrema-direita europeia viu na encenação uma mina de ouro: podiam derrubar o incómodo governo espanhol e espalhar o terror de uma invasão eminente na Europa. Uma farsa programada que enganou dezenas de milhares de refugiados, fugidos à guerra e à fome, usados como cobaias para uma “experiência” de invasão, onde mais de cem acabaram por morrer e – para desgosto de muitos – dos cerca de 70 mil, quase todos regressaram, voluntaria e pacificamente, a Marrocos. Há um sofrimento brutal em tudo isto, mas não importa, “they are animals at all”, diria uma personagem de “O Padrinho”. Essa absoluta ausência de empatia traz consigo o cheiro da morte.

O escândalo, devidamente encenado como o da Assembleia da República na semana passada, explodiu. A Europa está a saque, é preciso fechar as fronteiras, encerrar o espaço Schengen contra essa “invasão migratória” de criminosos, essa “selvajaria que se apoderou da Europa”, esse “ato de guerra muçulmano”! A Fox News noticiou que o norte de Espanha fora invadido e quase metade dos americanos já sabe que o norte de Espanha já é muçulmano, ou negro ou sub-humano.

Há aqui um ligeiro pormenor que me tira o sono: muita gente deve achar a chacina de Gaza um “fait divers”, comparado com a “hecatombe” de Ceuta. É-me demasiado impossível ter um pingo de respeito por pessoas que pensa assim, para quem a chacina de Gaza é um pormenor na construção de um mundo novo, do homem novo, se possível sem os muçulmanos pobres, porque os ricos são, como sempre, nossos amigos. Que mundo abominável!

Itamar Ben-Gvir, Ministro da Segurança de Israel, conhecido pelas suas posições nazis, aconselhou sadicamente o governo espanhol a receber também os refugiados palestinianos, esse responsável político que tem feito tudo e muito mais para que os colonos israelitas expulsem de suas casas, persigam e matem os habitantes da Cisjordânia para lá contruírem novos colonatos. Ben-Gvir já disse que em cada muçulmano habita um terrorista. Eis o busílis da questão: para eu destruir o outro e dormir descansado, preciso saber que ele não é humano ou não merece viver. É esta a base de tudo o que é genocídio. É a mesma lógica dos terroristas islâmicos.

Aqui há tempos, Pedro Frazão, deputado do Chega, gemeu, escandalizado, numa loja do Martim Moniz, diante de uma prateleira com produtos de Marrocos, da Argélia, da Tunísia: “Estamos a ser invadidos pelos muçulmanos!” Esqueceu-se de olhar para a janela e ver o MacDonald´s em frente, o Lidl um pouco mais ao lado, um banco suíço na esquina, um carro chinês estacionado ali mesmo ou as suas próprias peúgas, fabricadas por crianças no Bangladesh, juntamente com a bola de futebol com que o seu filho joga. Ou o Pão-por-Deus a ser esmagado pelo Halloween. Não. O couscous de Marrocos é que vai destruir a nossa civilização. A retórica do medo – ou do ódio, que é a mesma coisa – faz milagres muito estúpidos.

Estejamos descansados. Os bárbaros não vão fazer aos nossos países nem a décima parte do que fizemos e continuamos a fazer aos deles. Nem por lá perto. Tenho muito mais receio do negrume que as ideias neofascistas lançam sobre a Europa do que da pressão migratória que nos assola. Esta pode tirar-nos o sono ou o bem-estar. As outras tiram-nos a dignidade.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira no jornal Diário Insular, na coluna Dorsal Atlântica. O padre José Júlio Rocha é colunista do Igreja Açores desde 2014.

Scroll to Top