“O Bom Jesus não precisa apenas de muitos devotos; precisa de muitos discípulos”- Cónego João António Bettencourt

Ouvidor eclesiástico do Pico presidiu à festa do Senhor Bom Jesus Milagroso, que voltou a reunir no Santuário de São Mateus, milhares de fieis por estes dias

Foto: Igreja Açores/EM

O cónego João António Bettencourt das Neves afirmou esta tarde na homilia da Missa de festa do Senhor Bom Jesus Milagroso, no Pico, que o grande desafio do mundo atual é “escutar” Jesus e “caminhar com Ele”.

“Vivemos num tempo em que muitos conhecem Jesus, mas poucos O escutam. Talvez este seja o maior desafio da nossa época: escutá-Lo acima das redes sociais, acima das opiniões, acima dos interesses, do dinheiro, da ideologia e do orgulho.”

O ouvidor eclesiástico do Pico presidiu à celebração em substituição do bispo auxiliar do Porto, D. Roberto Mariz, que, por motivos de doença, não pôde deslocar-se à ilha para presidir às festividades conforme estava anunciado.

“Um cristão que, em vez de escutar Cristo, escuta outras vozes perde a sua identidade”, enfatizou numa reflexão com sucessivos apelos a uma fé autêntica e coerente, que vá para além da participação nas celebrações e tradições religiosas.

O cónego João António Bettencourt das Neves insistiu que a fé não pode limitar-se às palavras ou aos símbolos exteriores.

“Não basta dizer ‘eu acredito’. É preciso viver como quem acredita. Não basta ter um crucifixo pendurado ao pescoço; é preciso ter o Evangelho no coração. Não basta caminhar na procissão; é preciso caminhar todos os dias com Cristo.”

Desde o início da homilia, o sacerdote procurou recordar o verdadeiro sentido da peregrinação ao Santuário.

“Todos os que aqui viemos não viemos só para cumprir uma tradição. Viemos porque acreditamos que Deus passa na nossa vida, porque temos a convicção de que Cristo não abandona o seu povo, porque sabemos que o Senhor continua a fazer milagres, eventualmente nem todos os que esperaríamos, mas sobretudo aqueles que transformam corações, restauram famílias, sustentam a esperança e dão sentido à nossa vida”, afirmou.

Ao longo da reflexão, o sacerdote centrou-se na pergunta que atravessa o lema do ano pastoral diocesano (e também do Santuário), “Cristão, que dizes de ti mesmo?”, para desafiar os peregrinos a darem uma resposta “verdadeira”.

“Quem sou eu diante de Cristo? Sou cristão porque sou batizado, porque mantenho algumas tradições, porque venho à festa todos os anos, porque acompanho a procissão, porque venho em peregrinação ou sou verdadeiramente discípulo de Cristo?”, interrogou.

Na sua perspetiva, participar na festa não basta para responder a essa questão.

“A festa pode encher as ruas, mas só a fé enche o coração”, afirmou.

A partir do Evangelho da Transfiguração, explicou que a manifestação da glória de Cristo acontece quando Jesus começa a anunciar a sua paixão, deixando uma mensagem de esperança para a vida dos cristãos.

“A glória não elimina a cruz e a cruz não destrói a glória. O Tabor prepara o Calvário e o Calvário conduz à Ressurreição”, afirmou.

Perante a imagem do Ecce Homo, coroado de espinhos, lembrou que Cristo vence pelo amor e revela a humanidade plena a que todos são chamados. Daí lançou uma nova interpelação aos presentes: “Que homem és? Que mulher és? Que marido, que esposa, que pai, que mãe, que jovem, que padre, que cristão és?”

E prosseguiu: “As nossas famílias têm de responder com mais perdão, os casais com mais fidelidade, os jovens com mais coragem e todos com mais esperança.”

Foi neste contexto que deixou a frase que sintetizou toda a celebração: “O Bom Jesus não precisa apenas de muitos devotos; precisa de muitos discípulos.”

Antes de concluir, convidou os peregrinos a regressarem a casa com uma decisão concreta de conversão: “Recomeçar, renascer, rezar mais, perdoar, reconstruir, voltar à Eucaristia, confessar-nos, servir quem precisa, enfim, viver como verdadeiros cristãos.”

Dirigindo-se àqueles que já fizeram essa opção de vida, pediu-lhes que deem testemunho da fé junto dos outros, para que mais pessoas regressem à comunidade cristã, recordando que todos são chamados a ser “filhos muito amados” de Deus.

Às 18h30 realiza-se a tradicional Procissão do Senhor Bom Jesus Milagroso, um dos momentos mais aguardados das festas e uma das maiores expressões públicas de fé nas ilhas do triângulo. Este ano, a imagem regressa ao chamado “giro primitivo”, recuperando o percurso histórico que desce até ao Passo, percorre as ruas da Boa Vista e do Passo Branco e regressa ao Santuário.

O Santuário do Senhor Bom Jesus Milagroso assinala este ano o seu 64.º aniversário como santuário diocesano, embora a devoção remonte a 1862, quando a imagem do Ecce Homo chegou do Brasil, dando origem a uma tradição que continua profundamente enraizada na identidade religiosa da ilha do Pico.

“Um homem trouxe a imagem, Deus fez nascer um povo peregrino. Um gesto simples tornou-se uma herança espiritual que atravessa gerações”, lembrou,  de resto, o cónego João António Bettencourt das Neves.

As festividades prolongam-se até amanhã, terminando com a Procissão da Mudança. Reconhecendo a dimensão religiosa, histórica e social desta celebração, o Governo Regional voltou a conceder tolerância de ponto aos trabalhadores da Administração Pública Regional sediados na ilha do Pico durante o dia da festa.

A coincidência entre a solenidade litúrgica da Transfiguração do Senhor, celebrada a 6 de agosto, e a festa do Senhor Bom Jesus Milagroso reforça o significado espiritual destas celebrações. Se a Transfiguração revela Cristo glorioso no Monte Tabor, a imagem do Ecce Homo apresenta o mesmo Cristo no sofrimento da paixão, recordando aos fiéis que a glória passa pela cruz e que a esperança cristã nasce da fidelidade a Cristo no dia a dia .

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