Concelebração contou com a participação de vários sacerdotes, como é habito, antecipando o dia grande da festa, celebrado a 6 de agosto, dia em que a Igreja celebra a festa litúrgica da Transfiguração

A novena em honra do Senhor Bom Jesus Milagroso chegou esta quarta-feira ao fim, preparando espiritualmente os milhares de peregrinos que hoje e amanhã convergem para o Santuário de São Mateus, no Pico, onde se vivem os momentos mais marcantes de uma das maiores manifestações de fé dos Açores.
Na missa da véspera da festa, o padre António Azevedo, pároco das Lajes do Pico, centrou a sua homilia no significado do batismo, desafiando os cristãos a redescobrirem a identidade de filhos de Deus e a viverem essa condição no quotidiano.
“O batismo continua no quotidiano”, afirmou o sacerdote, numa das ideias centrais da reflexão, explicando que o sacramento não se esgota na celebração realizada no início da vida, mas renova-se todos os dias através das escolhas, dos gestos e da forma como cada cristão vive a sua fé.
“O batismo não é apenas uma celebração bonita. É infinitamente mais do que isso. É o dia mais importante da nossa vida. É o segundo nascimento”, afirmou, recordando que é nesse momento que cada pessoa passa a fazer parte da família de Deus e é revestida de Cristo.
Segundo o sacerdote, é precisamente essa identidade que deve marcar toda a existência do cristão.
“Não somos filhos porque somos belos, porque somos assim ou assado. Somos filhos porque, no batismo, somos revestidos de Cristo”, disse, acrescentando que “a identidade mais profunda é ser filho de Deus; tudo o resto passa, a filiação divina permanece para sempre”.
Ao longo da homilia, o sacerdote recordou que o batismo é simultaneamente dom e missão. Receber a graça de Deus implica tornar visível essa graça na vida concreta, lembrou.
“Vale a pena perguntar: tenho consciência da grandeza do meu batismo? Vivo como filho de Deus? Reconheço nos outros irmãos e irmãs a mesma dignidade batismal?”, interrogou, convidando os fiéis a um exame de consciência precisamente na véspera da grande solenidade.
“O batismo continua no quotidiano, sempre que praticamos o bem, sempre que abraçamos um irmão”, disse sublinhando que a renovação da graça batismal acontece na vida de todos os dias, muito mais do que em gestos exteriores de religiosidade.
Na mesma linha, advertiu que a coerência entre a fé professada e a vida vivida é hoje um dos maiores testemunhos que os cristãos são chamados a oferecer.
“É fácil trazer uma cruz ao pescoço. Ninguém julga alguém por ser cristão; julga por se dizer cristão e não agir como tal”, afirmou, apelando a que os fiéis imitem Cristo “não por palavras, mas por atos, com humildade e verdade”.
Recordando que o Santuário é lugar de encontro com Cristo, o presbítero afirmou que os peregrinos dirigem-se ao Santuário porque reconhecem que “o Senhor é o único que é verdadeiramente bom”.
“Nós vimos ao Santuário para estar com Ele, junto d’Ele, ao lado d’Ele, porque Ele é bom”, afirmou, desejando que esse encontro transforme a maneira de falar, de decidir e de amar: “Que nas nossas palavras haja luz, que as nossas escolhas sejam verdadeiras e que a nossa forma de amar cuide uns dos outros.”
A reflexão acontece precisamente quando a festa entra nos seus dias principais. Esta quinta-feira, a partir das 16h00, será celebrada a Missa Solene, presidida pelo ouvidor eclesiástico da ilha do Pico, cónego João António Bettencourt, depois de o bispo auxiliar do Porto, D. Roberto Mariz, inicialmente anunciado para presidir às celebrações, ter cancelado a deslocação por motivos de doença.
Às 18h30 realiza-se a tradicional Procissão do Senhor Bom Jesus Milagroso, um dos momentos mais aguardados das festas e uma das maiores expressões públicas de fé dos Açores. Este ano, a imagem regressa ao chamado “giro primitivo”, recuperando o percurso histórico que desce até ao Passo, percorre as ruas da Boa Vista e do Passo Branco e regressa ao Santuário.
O Santuário do Senhor Bom Jesus Milagroso assinala este ano o seu 64.º aniversário como santuário diocesano, embora a devoção remonte a 1862, quando a imagem do Ecce Homo chegou do Brasil, dando origem a uma tradição que continua profundamente enraizada na identidade religiosa da ilha do Pico.
As festividades prolongam-se até 7 de agosto, terminando com a Procissão da Mudança. Reconhecendo a dimensão religiosa, histórica e social desta celebração, o Governo Regional voltou a conceder tolerância de ponto aos trabalhadores da Administração Pública Regional sediados na ilha do Pico durante o dia da festa.
A coincidência entre a solenidade litúrgica da Transfiguração do Senhor, celebrada a 6 de agosto, e a festa do Senhor Bom Jesus Milagroso reforça o significado espiritual destas celebrações. Se a Transfiguração revela Cristo glorioso no Monte Tabor, a imagem do Ecce Homo apresenta o mesmo Cristo no sofrimento da paixão, recordando aos fiéis que a glória passa pela cruz e que a esperança cristã nasce da fidelidade a Cristo no dia a dia — precisamente o caminho que, na véspera da festa, o padre António Azevedo resumiu numa frase simples e exigente: “o batismo continua no quotidiano”.






