O drama dos que vivem na rua

Por António pedro Costa

Foto: António Pedro Costa

Em Ponta Delgada, cidade atlântica de beleza e história secular, cresce silenciosamente um drama que contrasta com a imagem idílica da sua avenida junto ao mar, do seu casario oitocentista, dos seus monumentos e imponentes templos sagrados, ou seja, o drama das pessoas em situação de sem-abrigo.

Sob os arcos que ladeiam o postal das portas da cidade antiga, em bancos de jardim ou em recantos discretos do centro urbano, há homens e mulheres cuja vida se tornou uma sucessão de noites frias, precariedade e solidão. Muitos enfrentam problemas de dependências, ruturas familiares ou desemprego prolongado. Outros são vítimas de trajetórias marcadas por pobreza estrutural e exclusão social.

Nos Açores, onde os laços comunitários sempre foram fortes, a realidade dos sem-abrigo interpela profundamente a consciência coletiva. Não se trata apenas de ausência de teto, trata-se de ausência de pertença, de reconhecimento e de esperança. Cada pessoa que vive na rua traz consigo uma história única, frequentemente invisível aos olhos apressados de quem passa. O risco maior não é apenas o frio ou a fome, mas a indiferença que transforma o sofrimento alheio numa paisagem banal.

A Quaresma, tempo litúrgico de conversão e preparação para a Páscoa, convida os cristãos a um exame sério da própria vida. Tradicionalmente marcada pela oração, pelo jejum e pela esmola, esta caminhada espiritual pode e deve traduzir-se em gestos concretos para com os mais vulneráveis, também com aqueles que vivem na rua e têm como teto as estrelas e as densas nuvens negras.

A esmola, entendida não como gesto paternalista, mas como partilha fraterna, pode assumir múltiplas formas, apoio a instituições locais, voluntariado em centros de acolhimento, doação de alimentos, roupa ou tempo. Mais do que oferecer o que sobra, trata-se de criar relações de proximidade e respeito.

A forma como falamos dos sem-abrigo influencia a forma como a sociedade os vê e trata. Quando usamos expressões depreciativas ou generalizações injustas, reforçamos estigmas que dificultam a integração e alimentam políticas excludentes.

A palavra cristã deve ser fermento de compaixão. Nos Evangelhos, Cristo identifica-se com os que têm fome, sede e não têm onde reclinar a cabeça. A fidelidade a essa mensagem exige coerência entre fé professada e prática quotidiana. Na Quaresma, cada comunidade paroquial pode promover momentos de sensibilização, debates serenos sobre as causas deste fenómeno dos sem-abrigo e iniciativas de apoio articuladas com as autoridades locais e organizações sociais. O testemunho público da Igreja pode contribuir para uma cultura de cuidado, onde ninguém seja reduzido à sua fragilidade.

De facto, o drama dos sem-abrigo em Ponta Delgada não se resolve apenas com políticas públicas, embora sejam indispensáveis, nem apenas com gestos individuais, ainda que necessários. Resolve-se também com uma mudança de mentalidade, com a redescoberta da dignidade inalienável de cada pessoa humana.

Se a Quaresma nos levar a olhar nos olhos quem vive na rua, a escutar sem julgar e a falar com respeito, então estaremos a preparar verdadeiramente a Páscoa, a passagem da indiferença à solidariedade, do egoísmo à partilha, da palavra que fere à palavra que salva.

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